quinta-feira, 23 de julho de 2026

Novo livro


 

'Reunindo três ficções de forte densidade simbólica, esta obra de Cleber Pacheco conduz o leitor a territórios onde o real e o enigma se entrelaçam. As narrativas exploram situações-limite — morte, fé, culpa, desejo e desagregação — em ambientes que parecem suspensos no tempo, como povoados ou casas tomadas por uma atmosfera ritualística e inquietante. Com um estilo marcado por linguagem intensamente imagética e de alta carga poética, o autor tensiona a sintaxe na tentativa de dar forma ao indizível. A construção das cenas assume uma cadência quase litúrgica, sustenta da por repetições, variações e silêncios que amplificam o impacto dramático. Sua escrita exige atenção e entrega: não se limita a contar histórias, mas instaura experiências. Ao leitor, resta atravessar essas ficções como quem percorre um labirinto: sem garantias de saída, mas com a certeza de ter tocado algo raro, perturbador e profundamente literário."  

Editora Litteralux.

sábado, 18 de julho de 2026

Deserto


 

Vi o deserto
parindo pedras,
grãos da agonia
no abrasivo, tórrido
que se desnutre
na fornalha do vivo,
frio que se sustenta
sob o negror da noite,
misericórdia e miséria
a enfrentar as crostas
do corrosivo no ápice
do que pode ser e não-ser,
cru e cozido
nos limites do ilimitado,
fonte anímica de tudo
exposta ao existir
daquilo que transita
entre o palpável e o intocado,
deserto de ossos desintegrados
no ardor da areia
a volitar em dunas
que se desmentem
para melhor levitar
o volume do mundo,
deserto desfeito de tudo
para incendiar o nu
nos desatinos do Sol.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Atenção

 



As folhas estão mortas,
disse a menina,
do chão colhendo
o que não se colhe,
desinteressada
de frutos e flores.
Repara nas cores esmaecidas,
guardando para si
o que não se torna
semente. Satisfeita
com a lentidão do mundo,
repousou sobre a relva,
atenta
à vastidão do que ser
pronunciado não pode.
(Foto: Cleber Pacheco).

sexta-feira, 3 de julho de 2026

As Cidades Subterrâneas da Capadócia

 



Escavar cavernas,
perfurar o ventre,
mergulhar no âmago
dos intestinos da Terra,
camadas quase infindas
de estranhamento e rocha
que fundam um viver
subterrâneo,
moradas no cavo
a habilitarem entranhas
esculpindo o homem
que se desdobra
em pleno minério,
ele próprio pedra, raiz e rizoma
do escuro a inaugurar
o numinoso umbigo do mundo