segunda-feira, 27 de julho de 2026

Século

 



Vamos louvar a mediocridade,
nau de loucos sensatos
que abanam cabeças
para dizer que estão com fome,
banindo com precisão
os párias para ordenar
o mundo com sua oblíqua
geometria.
Vamos nadar com os loucos
num mar de sargaços
queimando em água viva
a ternura quer os acomete
após o terror noturno.
Vamos celebrar os santos do dia
enquanto as fogueiras ardem
para celebrar a extinção
das corolas em êxtase
no imaginário da flor.
Vamos colocar coroas de louro
nos lobos que farejam
o que restou dos homens
nas florestas incendiadas
pelo estupor da flora em extinção.
Vamos colar cartazes
nas praças para avisar
que estamos mortos
e que comparecemos
ao chá das cinco
vestidos com nossas mortalhas.
Vamos entoar o nada,
mantra que nos nutre
no vazio das artérias estioladas,
enquanto cegos guiam
cegos no insosso caminho
da miséria sem alma.
Vamos carregar pedras
para construir hospícios
no desaguadouro dos estuários
onde a carne transpira
sem poros e deposita
enxames de sustos
em apocalypse inviável.
Vamos, por fim, romper
as artérias dos poetas
para que os chacais entoem
seus cantos fúnebres
e a vida repouse, quieta,
depois do silêncio
das carpideiras

quinta-feira, 23 de julho de 2026

Novo livro


 

'Reunindo três ficções de forte densidade simbólica, esta obra de Cleber Pacheco conduz o leitor a territórios onde o real e o enigma se entrelaçam. As narrativas exploram situações-limite — morte, fé, culpa, desejo e desagregação — em ambientes que parecem suspensos no tempo, como povoados ou casas tomadas por uma atmosfera ritualística e inquietante. Com um estilo marcado por linguagem intensamente imagética e de alta carga poética, o autor tensiona a sintaxe na tentativa de dar forma ao indizível. A construção das cenas assume uma cadência quase litúrgica, sustenta da por repetições, variações e silêncios que amplificam o impacto dramático. Sua escrita exige atenção e entrega: não se limita a contar histórias, mas instaura experiências. Ao leitor, resta atravessar essas ficções como quem percorre um labirinto: sem garantias de saída, mas com a certeza de ter tocado algo raro, perturbador e profundamente literário."  

Editora Litteralux.

sábado, 18 de julho de 2026

Deserto


 

Vi o deserto
parindo pedras,
grãos da agonia
no abrasivo, tórrido
que se desnutre
na fornalha do vivo,
frio que se sustenta
sob o negror da noite,
misericórdia e miséria
a enfrentar as crostas
do corrosivo no ápice
do que pode ser e não-ser,
cru e cozido
nos limites do ilimitado,
fonte anímica de tudo
exposta ao existir
daquilo que transita
entre o palpável e o intocado,
deserto de ossos desintegrados
no ardor da areia
a volitar em dunas
que se desmentem
para melhor levitar
o volume do mundo,
deserto desfeito de tudo
para incendiar o nu
nos desatinos do Sol.


quinta-feira, 16 de julho de 2026

Atenção

 



As folhas estão mortas,
disse a menina,
do chão colhendo
o que não se colhe,
desinteressada
de frutos e flores.
Repara nas cores esmaecidas,
guardando para si
o que não se torna
semente. Satisfeita
com a lentidão do mundo,
repousou sobre a relva,
atenta
à vastidão do que ser
pronunciado não pode.
(Foto: Cleber Pacheco).

sexta-feira, 3 de julho de 2026

As Cidades Subterrâneas da Capadócia

 



Escavar cavernas,
perfurar o ventre,
mergulhar no âmago
dos intestinos da Terra,
camadas quase infindas
de estranhamento e rocha
que fundam um viver
subterrâneo,
moradas no cavo
a habilitarem entranhas
esculpindo o homem
que se desdobra
em pleno minério,
ele próprio pedra, raiz e rizoma
do escuro a inaugurar
o numinoso umbigo do mundo