Deserto
Vi o deserto
parindo pedras,
grãos da agonia
no abrasivo, tórrido
que se desnutre
na fornalha do vivo,
frio que se sustenta
sob o negror da noite,
misericórdia e miséria
a enfrentar as crostas
do corrosivo no ápice
do que pode ser e não-ser,
cru e cozido
nos limites do ilimitado,
fonte anímica de tudo
exposta ao existir
daquilo que transita
entre o palpável e o intocado,
deserto de ossos desintegrados
no ardor da areia
a volitar em dunas
que se desmentem
para melhor levitar
o volume do mundo,
deserto desfeito de tudo
para incendiar o nu
nos desatinos do Sol.



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