quinta-feira, 20 de julho de 2017

Luta



Também o dia
tem seu perigos,
não só a noite.
Não só a noite
traz a treva:
há, na claridade,
resquícios de pânico.
Fortes sejamos
para enfrentar
treva e claridade,
o instante.
Cada hora
é degrau
que nos incita.
É longa a escada,
sigamos.

(foto: Google)




terça-feira, 18 de julho de 2017

Roca



O homem,
espelho orgânico do Nada,
anjo selvagem
carcomido
de êxtase e infâmia,
traduz
os Arcanos do medo
em vestes de carne e fúria.
O que engendra,cala ou congela
tece os vestígios do híbrido
em trama que flui e resvala
em cilada de nós e de linhas,
traçando veleidades, funduras,
na teia inconsútil do Cosmos.

(foto: Google imagens)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Resenha



Ainda faltam cinco meses para terminar o ano,mas posso afirmar com segurança que o romance Ethan Frome de Edith Wharton, com tradução de Chico Lopes e publicado pela editora Penalux, já é um dos melhores livros que li em 2017..
   A história se desenrola num ambiente gélido, descrito magistralmente pela autora. Ambiente que é uma imagem da vida difícil, desolada e desprovida de calor humano onde os personagens se debatem. As muitas camadas de neve nos remetem aos sentimentos soterrados e reprimidos. Debaixo dessas camadas de vida estéril, desenrola-se um drama intenso,mas contido. Não há grandes arroubos, grandes gestos,melodrama. Tudo se passa de modo reprimido, oculto, em que os silêncios soam de modo contundente e avassalador.
   Edith Wharton nos dá uma lição de como construir uma narrativa. Na primeira parte, o narrador se interessa pela figura de Ethan Frome e busca saber algo a respeito. Os moradores hesitam em fornecer detalhes,são econômicos em seus comentários. Depois, conhecemos o passado do personagem central,de sua mulher e da adorável |Mattie e é difícil parar de ler.. Ao chegarmos ao final, fazemos uma descoberta inesperada, um desfecho surpreendente que me fez pensar: Isso é que é saber escrever um final para um romance!"
   Situando-se entre os acontecimentos e o não- acontecido, a história nos faz mergulhar num mundo de conflitos, falta de esperança, ressentimentos,frustrações e falsas expectativas. ´Para existências tão insignificantes, os pequenos fatos, as mínimas alegrias ganham uma dimensão inusitada. E, paradoxalmente, tudo se torna extremamente significativo.
   Edith Wharton foge das caracterizações simplistas e fornece veracidade, profundidade e revela o quanto o ser humano pode ser desconcertante em suas atitudes.Trata-se,em suma, de um livro escrito por alguém que alcançou o completo domínio do seu talento.
    Quem ama literatura de qualidade não pode deixar de ler Ethan Forme. 
 

sábado, 15 de julho de 2017

Sutilezas


Parece fácil abrir
portas.
"É muito simples"
costumam dizer.

Abrir requer
habilidade,perícia,
mãos de mestre.

Não basta abri-las.
É necessário saber
quais devem permanecer
fechadas.

"Nada é simples",
dizem alguns.
"A simplicidade é o maior luxo",
afirmam outros.

Algumas portas
terão de ser construídas,
revelam os arquitetos.

(imagem : Google)



sexta-feira, 14 de julho de 2017

União



   Os amantes,entrelaçados.
Ela está encostando o seu rosto no dele.
 Ele está encostando o seu rosto no dela.
 Beijo. Encontro de lábios superiores e inferiores.
Separam-se.
Arabescos de palavras.

Carta

Cartinha
Michel Miguel,
Não o chamarei de Vossa Excelência porque o mundo todo já conhece Vossa Baixeza e porque não o reconheço como presidente,mas apenas como chefe de uma quadrilha sem ética,sem honra,sem dignidade. Sei que agora é considerado bonito ser vendido e defender corruptos,mas pode ter certeza de que nunca estarei entre os seus capachos sem caráter.

(imagem: Google)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Desgoverno



 O país se tornou um caos.
 O Governo corrupto compra políticos para se manter no poder.
Ministros e deputados envolvidos em atos ilícitos saem ilesos.
O presidente fala mentiras sem cessar, manipula,compra,corrompe,ameaça para não perder o cargo.
Não há estado de Direito.Isso é uma farsa.
Há,isto sim,um Estado de exceção, beneficiando os já privilegiados, destruindo os direitos trabalhistas que levaram décadas para serem conquistados.
As instituições estão completamente apodrecidas.
Tudo é uma farsa asquerosa, onde a Ética foi demolida.
Em vez de Ordem e Progresso, há Caos e Retrocesso.
A mídia mente.
Mergulhamos na Era das Trevas.

(imagem: Google)


terça-feira, 11 de julho de 2017

Jornada



Em breve estarei
em outro lugar,
usarei sutras
mais curtos,
palavras
mais distantes,
roupas mais leves.

 Ninguém
irá me acompanhar,
ainda assim
inevitável é a jornada,
longo é o caminho.

Dizem,alguns,
que é muito tarde,
que estarei morto
antes mesmo de chegar.
Apenas digo:
ir é minha mais íntima natureza.

(imagem: pintura de Turner).


segunda-feira, 10 de julho de 2017

HISTÓRIAS



   O homem surgiu quando passou a criar e contar histórias. Foi aí que ele passou a construir e a encontrar a sua própria identidade.
    Orais ou escritas, as histórias transmitiram significados,crenças,valores,visões de mundo. E assim conseguiram tecer elos de ligação através do tempo, preservando um legado precioso, a memória da humanidade,suas mudanças,anseios,medos,alegrias,sofrimentos.
    Os escritores têm a capacidade de criar, imaginar, sondar,explorar,inventar realidades.
    Amo histórias.
    Sou escritor porque amo histórias.
     Dizem que tudo já foi escrito. Procuro ,então,contar as coisas como elas estivessem sendo vistas pela primeira vez.
     Toda verdadeira literatura é sempre Adâmica: nomeia e dá sentido ao  mundo.

(foto: Google)

   

domingo, 9 de julho de 2017

Bençãos


Teu nome é bíblico,
são fortes teus punhos,
já podes lutar com anjos.
Mas é para mim que dirás:
"Não te deixarei ir a não ser que me abençoes".

(imagem: Google)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Travessia


Atravesso
um corredor
que me leva
ao lado
onde não há lados,
onde não há portas
e tudo é porta,
onde a escada
é um sem fim
de degraus,
onde há muitas moradas
e uma só morada
onde Tudo é Nada
e Nada é Tudo..

Nunca é finda
a travessia
justo por ser
exatamente isto:
 travessia.

(Imagem: Google)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Língua estrangeira


Não entendo o teu idioma
repleto
de consoantes guturais
e vogais exóticas,
mas o dialeto
dos teus olhos
está impresso em meus ossos.

(foto: Google imagens)

terça-feira, 4 de julho de 2017

Poema


Do indizível, o dito,
a fortaleza,
esboroa o mito,
a certeza
de estar no grito
a fineza
desentranhada do rito
da incerteza.

Do indizível, o dito,
a constância
firmada no infinito
da distância,
reverbera no escrito,
mendicância,
coada no aflito
mar da inconstância.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Mandala



O Todo
não é a soma das partes.
Indivisível é o Todo,
Aquilo que É.
Sem antes e depois,
sem fração e fractal,
Uno.
O Todo reverbera
na própria completude:

Eu Sou o que Eu Sou.

domingo, 2 de julho de 2017

Home Sweet Home



Moraram na casa durante muito tempo,sempre mantendo aceso o fogo na lareira. Tendo acabado a lenha, começaram a arrancar as paredes para alimentá-lo.
Quando o viajante chegou, havia enormes buracos não só nas paredes, mas também no teto e no soalho.
- Por que fazem assim? Estão destruindo toda a casa!
- Não podemos deixar o fogo apagar.-responderam.
E continuaram arrancando as tábuas do soalho.


(foto: Google imagens)

sábado, 1 de julho de 2017

Tratado Geral da Insânia



Noé Brasileiro

Noé foi avisado que deveria construir uma arca.
- Primeiro precisa de uma licença para isso.- avisaram as autoridades.- Que será concedida mediante uma propina.
- Antes precisa pagar uma propina para que as madeireiras clandestinas liberem a madeira.- avisaram os profissionais.
- É fundamental pagar uma propina para os traficantes de animais.- avisaram os especialistas.
- Para obter pessoal que construa a arca, é preciso uma propina para as empreiteiras.- disseram os entendidos.
Moral da História:
As chuvas vieram e não houve sobreviventes.


(imagem: Google) 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Livro


  O pequeno livro Como Aprendi a Escrever de Gorki contém ideias  interessantes do autor. Ele divide os escritores em duas correntes básicas: românticos e realistas. E afirma que os melhores escritores conseguem mesclar as duas tendências. E cita como exemplos Balzac, Turgueniev, Tolstoi, Gogol, Leskov, Tchekov. E afirma:

   Esta fusão do realismo e do romantismo é especialmente característica de nossos grandes escritores.

    Daí surge o questionamento: de onde surge a vontade de escrever? A resposta vem de um dos seus correspondentes: para embelezar,por meio da imaginação,uma vida de miséria. Ou do excesso de impressões decorrentes das vivências cotidianas, conforme afirmou outro correspondente.
   E aí Gorki comenta:

    comecei a escrever  devido à pressão  que exercia sobre mim a 'vida de pobreza e tristeza' e porque tinha  tantas impressões que não podia deixar de escrever.

   E assim ele relata algumas lembranças a respeito do que viu e viveu e também prossegue expressando sua opinião a respeito de diversos autores. E, algo interessante, relata algumas de suas experiências de leitura.
   Em suma, trata-se de um livro para quem se interessa pelo ato de escrever,pela literatura,para pesquisadores, estudiosos, para candidatos a escritor e para quem já é escritor.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Estação

Quanto tempo leva
para que a chuva nos lave
e fecunde, na carne,
pele mais fina,
aguçando a nervura
da filigrana dos dedos,
polinizando o toque,
agora tão raro,
do existente e do extinto?
Quanto tempo leva
para valorizar o que vale,
sugando o supérfluo
em tintas simpáticas,
reescrevendo o visível
em novo idioma?
Quanto tempo leva
para que a vida vele
as duras entranhas
do que se revela
sempre evidente?
Que o aquoso
una o que o homem
separa, propondo liga
aos disjuntos.
Se o aquoso varre
mimético e continuo,
que ela nos trague
em desvario sóbrio.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Livro

    ELES,O MINISTÉRIO OU A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO ABSURDO

    Alguém ainda duvida de que vivemos num mundo distópico? Se por acaso tal dúvida ainda existir, certamente será dissipada pelos textos deste livro de Cláudio Parreira. Breves e densos, conseguem, em poucas palavras – o que é um mérito- expressar de modo contundente o absurdo deste novo século e da realidade brasileira atual. Mas não é só isso. Conseguem ainda  ser atemporais, remetendo-nos para além de outras obras do gênero como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell ou ainda Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Seu conteúdo é mais kafkiano, remetendo-nos ao livro O Proces-so, mas contendo indiscutível voz própria, num estilo direto que nos choca.
   Este trabalho revela o quanto a estrutura do poder é, em si mesma, absurda, seja qual for a tendência, a ideologia dominante, as tentativas de legalizá-lo e legitimá-lo. A essência do poder é o seu aspecto manipulador, opressivo, cruel, estimulando a coletividade a tornar-se apenas a manada passiva, obediente, servil. E nos faz refletir a respeito dos conceitos de democracia existentes numa época em que esta mesma democracia é, cada vez mais, apenas uma sombra de si mesma, mero simulacro a encobrir o processo de submissão e escravização, de destruição das individualidades. 

Pode-se adquirir o livro acessando:

https://www.amazon.com/dp/1521585253

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ler

Todos os dias,
para retornar à Ítaca,
desço os nove círculos
do Inferno,
luto contra os moinhos de vento,
enfrento a fúria de Moby Dick,
como a massa da barata.
Uma vez lá,
não sei se encontrarei
Capitu ou Penélope,
não importa.
Importante mesmo
é a viagem.


(foto: Google)

domingo, 25 de junho de 2017

Cultura


Eles produzem corrupção.
Nós produzimos cultura.
Eles propagam a ganância.
Nós propagamos a reflexão.
Eles incentivam a ignorância.
Nós cultivamos o pensamento.
Eles disseminam a estupidez.
Nós regamos os sentimentos.
Eles cultuam a velhacaria.
Nós cultuamos o talento.
Eles abominam a inteligência.
Nós semeamos a genialidade.
Eles odeiam a cultura.
Nós amamos a criatividade.
Que a incapacidade deles de compreender o humano,a ética e o sublime
 seja o nosso incentivo para valorizar o humano, a sabedoria e reconhecer o sagrado.

sábado, 24 de junho de 2017

Sóis



Encadeamento de sóis
no fulgor do Vivo,
comunhão de claridade
sem aparatos que não luz,
fulgor de Ser
em plenitude sem miasma,
imensidão de mar ardente
no Sumo do Infinito.

(foto: Google)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poema



No centro da Via,nenhum planeta ou sol.
No caudaloso,movimento,sêmen da rota.
O fecundo do vácuo no atrito do nada.
Fluxo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Vestígio


Ascende
o dia
entre escombros.
Perdida
está a tardia
aurora.
resta,
no solo,
o vestígio
duma sombra
a marcar as horas.
A vida é além.

(foto: Meteora, Grécia- Google imagens)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ancestral


O Ancião dos Dias
 emerge
do caos à ordem,
trazendo consigo
a força que reitera
a sanidade das coisas,
a insanidade dos homens,
o fiat lux do mundo.
Compor o Cosmos
é um ato de osmose.

( Arte de William Blake)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Metamorfose



Estou me mudando
para uma outra casa,
bem maior e mais ampla,
com jardim e uma fonte.

Ainda estou trabalhando nela,
conferindo-lhe
mais consistência no soalho
e mais flexibilidade
nas paredes.

É uma casa suspensa
com requintes de simplicidade
Seu único luxo é a janela
onde vejo tudo
o que há para ser visto.

Nela até o meu sonho
é desperto e desabrocha
para um mundo mais vivo,
destrancando vidros e porta
e gerindo a infinitude.

Estou me mudando
para uma outra casa
assentada sobre
o além das formas.

Hoje revisito
o desconhecido
 que já me conhecia de outrora.

(imagem Google)

sábado, 17 de junho de 2017

Cruz e Sousa

 CAVEIRA

I
Olhos que foram olhos,dois buracos
Agora,fundos, no ondular da poeira...
Nem negros,nem azuis e nem opacos.
Caveira!

II
Nariz de linhas,correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais,falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curva leve,original,ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos?!
Caveira! Caveira!! Caveira!!!

(imagem: google)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Conhecimento


Conheci a noite,seus pesadelos,
o corte na carne,
o suor do sangue
enquanto definhava
nas veias do horror.

Conheci a as astúcias do pesadelo,
seu rosto sem alma,
sua forma esvaída
nos interstícios do medo.

Conheci o medo,o espanto,
o pavor avolumando-se
nos moldes das vísceras,
o grito soldando
crueldade e pânico.

Conheci o amanhecer
e os vestígios do sol
anunciando
que aves inventam as manhãs.

(foto: Google)

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Poema




Na foz da Fronteira, o deslimite.
O maior no incluso do mínimo.
No reverso das coisas, o translúcido.
O que reverbera,anuncia.
Adiante, mares,desertos, florestas, não o excesso.
Aqui o adiante.
O limite.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

O Túmulo de Charles Baudelaire- Mallarmé




O templo tumular divulga em sepulcral
Boca de esgoto gotas de lodo e rubis
Abominavelmente algum ídolo Anubis
Todo o focinho a arder como um uivo brutal

Ou que o gás novo aviva a mecha trivial
Submissa a opróbrios sabe-se uma meretriz
Ele acende selvagem um imortal púbis
Cujo voo entre lâmpadas é sensual

Que louros a secar em vilas sem poente
Votivos vão benzer como ela põe-se assente
Inútil  frente ao mármore de Baudelaire

No véu que vibra e a ela ausente a envolver
Aquela a Sombra dele um vírus protetor
Por sempre a respirarmos até no estertor

terça-feira, 13 de junho de 2017

Koan



Num poço que não foi cavado,
a água está ondulando de uma fonte que não flui;
lá,alguém sem sombra ou forma
está retirando água.

(foto: Google imagens) 

Poema de San Juan de la Cruz

 (trecho:)

Yo no supe dónde estaba,
pero, cuando allí me vi,
sin saber dónde me estaba,
grandes cosas entendí;
no diré lo que sentí,
que me quedé no sabiendo,
toda ciencia transcendiendo.

sábado, 10 de junho de 2017

Realidade


O balde,
 sua corporeidade metálica,
 circunferência.
Então a água,
sua fluidez líquida,densidade,
volume.
Quebrar
o fundo do balde:
 Visão

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Conto



FLOR

A flor luminosa e giratória do ventilador  assombra a penumbra do quarto. É um girassol ardendo nas trevas. Esvoaçam cortinas e toalha da mesa onde coloco meus livros. Ouve-se apenas o zumbido das pás em seu incessante movimento.
\Estou á espera. Só.
Estendido e nu sobre a cama.
há nenhuma pressa.
Mansamente ela chega,sem quebrar o silêncio.Com suavidade se aproxima.Senta-se ao meu lado.
Seu toque acaricia todo o meu corpo.
Permaneço imóvel,recebendo suas mãos que ause me fazem penetrar no oceano das sonhos.
Sem fazer ruído,minhas lágrimas escorrem pelo rosto.
A madrugada se esgota nesta cumplicidade de silêncios.
Pela manhã ela calça os sapatos,apanha a bolsa e parte.
Continuo inerte sobre a cama,cerro as pálpebras.
Talvez amanhã ela retorne.

(foto|: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 7 de junho de 2017

SENSO

Ás vezes,tem,o dia,
um fulgor
de laranja,a casca,
de cardo, o agudo,
apimentar
das essências do insípido,
aroma
nas asperezas do cítrico,
o sutil dos sentidos
na crucificação das formas,
superação do hígido
nas fronteiras do único.

O Agora não tem pressupostos. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Fado


Há quem sofra de insônia
e reze na madrugada.

Há quem sinta um aperto no peito
ao findar o dia.

Há quem desça a escada
na ponta dos pés.

Há quem beba apenas água da chuva
ao meio-dia.

Há quem abarrote a casa
com toalhinhas de crochê.

Há quem ingira a comida fria
sobre a mesa nua.

De qualquer modo,
às vezes é preciso
riscar o fósforo.

(imagem: Google)



Poema - IMAGENS

Nos escombros do instante,
o agora vomita
uma beleza sem diagnóstico.
Parir de flores
em fulgor de cólicas.
Estrebuchar de amor
no ósculo das bestas.
Vinho é o dia
fermentado
nas catacumbas do claro. 

segunda-feira, 5 de junho de 2017

Poema

  

 Nos reparos do nada, ainda o sol.
   Cru sobre os frutos.
   Frutos, quem os come? quem os molda?
   Frutos e vermes em alinho sobre a terra num cardume de raízes.
   Frutos, a vastidão do que povoa o mundo.
   Mundo, movimento.



sábado, 3 de junho de 2017

TEATRO




( Um trecho da minha peça O TIRO):

Homem 1- Muito bem.Assim sendo,em que ponto você quer chegar ?
Homem 2- No desaparecimento dele.Este é o nó,o xis da questão.
Homem 1- Se há três envolvidos – e não podemos esquecer disso- ,e se em dois deles não está o problema,a falha,provavelmente deve estar no terceiro.É um raciocínio lógico.Isso significa que ele deve ter mudado de ideia. Decidiu não fugir.
Homem 2- Sem nos avisar ?
Homem 1- Ora,ele sempre teve um caráter,no mínimo,duvidoso,
você tem de reconhecer,apesar  de toda a sua...bondade.
Homem 2- Como de hábito,começa a acusá-lo.Mesmo quando aparentemente se prontifica a ajudar,a ser tão compreensivo,
a...
Homem 1- ...perdoar ?...
Homem 2- Se consegue admitir...
Homem 1- Ah, finalmente estou começando a ver as garrinhas de fora!
Homem 2- Cada um vê o que quer.
Homem 1- Mas o pior cego é o que não quer ver.
Homem 2- E o que você está vendo ?
Homem 1- Eis a questão.
Homem 2- Diga.

Homem 1- Uma acusação.

(imagem: Google) j

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Morte-Vida



São muitas as máscaras da morte,
inúmeros os estratagemas,
inesgotáveis os recursos.

Infinitas são as faces da vida,
seus organismos, mananciais
de enigmas, irromper
de estigmas.Vácuo que preenche
a si mesmo nas categorias do fluido.

Luz complexa
acometida das sofisticações do simples.

(foto:  Cleber Pacheco)

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Força

  Das paredes que se desfazem,
das muralhas que se consomem,
das montanhas que são alcançadas
mero vapor exala
e é, ainda que volátil
 da consistência do aço.

desenho de Cleber Pacheco)

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Carta a Rimbaud


                                             
                                                                                                  Adorado irmão,

  Escrevo para você que ainda se encontra aí nesse local perdido do mundo apenas para confirmar:sim,atendi o seu pedido.Pode ficar tranquilo,pode descansar sua alma fatigada e seguir os negócios tão lucrativos e fascinantes,alcançando o nobre propósito de enriquecer.Deus o ajude a realizar tamanha felicidade e,quando consegui-la,retornar à sua casa,ao seu amado lar.
   Por certo está afoito para fazê-lo e finalemnte rever a sua querida família.
   Aguardamos ansiosamente.
   Não vemos a hora de reencontrá-lo.Cada vez mais preciosa torna-se a sua volta. O Filho Pródigo não seria tão bem-vindo.
   Novamente tranquilizo-o quanto à sua carta anterior.Ela não existe mais.Foi rasgada,picotada,incinerada.Nada dela restou.Nem mesmo as cinzas.Tive o cuidado e a consideração de soprá-las ao vento.Assim ninguém poderá saber.Ninguém.O poeta já não existe mais.E nunca retornará.Nunca.
   respire aliviado.Jamais alguém poderá saber o motivo pelo qual ele desapareceu para sempre,embrenhando-se em inexploradas selvas e desertos d´ África...

                                                                                                Com todo afeto,
                                                                                                da sua irmã que o venera,
     
                                                                                                 Isabelle.

terça-feira, 30 de maio de 2017

AUTOR CONVIDADO

     Bruno Vianna de Andrade é historiador com pós-graduação em História e Cultura da América Latina. Venceu o Concurso Machado de Assis e foi finalista do I Concurso Crônicas Cariocas. Venceu o VIII Concurso La Vida es Poesía em 2016. Ganhou várias Menções Honrosas.

LUA

Que lua é essa?
Incólume,hermética
Tão nua
Tão lua
Que o céu me engole
E o que sou agora?

TATUAGEM

Na pele
Tatuagem
Epiderme
Selvagem
Em tinta
Flor de Liz
E um nome
Beatriz
Desabrocha num braço
Se perde num abraço
E perpetua em cicatriz





LUA CHEIA

Quando há noite de lua cheia
A água salgada invade a areia
Destilando todo seu sal
Em terras que foram de Portugal
A luz do cais ilumina
O que há de mais cético abomina
Em areias de um castelo
Um universo paralelo
Além do sol e da lua
Além da minha e da tua sanidade
Além de uma ou outra gravidade
Que ,mantém a lua lá,
intacta,flutuante
Olhando serena
o mar ofegante
Que a cada instante
Se perde em ondas e contas
Eis que se encontra em lendas
E recomeça a maratona



segunda-feira, 29 de maio de 2017

Ensaio

 Recebi convite para escrever ensaio a respeito do novo livro de poesia do poeta da Índia Daipayan Nair.
 Já estou fazendo os apontamentos e as leituras.
 Por ora posso adiantar que se trata de um trabalho poético realmente de qualidade.
 Um grande prazer poder realizar esse projeto.
   

Lar



Há quem busque lar,
abrigo ou caverna.

Contento-me em andar
em desvendamentos
que me espantam.

Meu modo
de estar em casa.

(foto: Cleber Pacheco)

domingo, 28 de maio de 2017

Limiar



Nunca há retorno
após haver entrado,
sempre os passos
conduzem adiante,
desconhecer o amor
talvez seja o recurso
que adiamos ao nos depararmos
com aparente idoneidade.
Íntegros,dilacerados,
respiramos sempre aos goles
sem intervenção que acuda
os experimentos da morte.
Encontremos,pois,
mais outra funda verdade
e de imediato façamos a dispersão
dos encantamentos do Sol.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 27 de maio de 2017

Resenha


  Os antigos Bestiários da Idade Média descreviam os animais de modo fantasioso, conforme as superstições e crenças da época, tendo um caráter muito mais imaginativo do que realista. O pensamento científico ainda não havia surgido e a mente era dominada pela religiosidade.
   Posteriormente as Fábulas continham, breves histórias  atemporais e os animais representavam defeitos ou qualidades humanas,sempre deixando uma lição moral.
  Em O Livro da Selva, Kipling elaborou relatos do reino animal,mas tendo como foco o ser humano.
   O escritor uruguaio Horacio Quiroga colocou os animais como centro de  algumas de suas narrativas. O mundo humano  vem em segundo plano,interferindo no mundo natural.
   Em Anaconda o autor aborda os ofídios, dotando-os de personalidade.  O conflito surge quando as cobras acabam descobrir um instituto que as utilizará para obter soro  antiofídico.. Revoltadas e com temor, elas decidem  reagir., surgindo um conflito entre a anaconda, a maior das cobras sul- americanas, que pode atingir até dez metros,mas não é venenosa, com  a cobra mais venenosa ,trazida da  Índia.
   Temos aqui um embate entre forças do mundo natural e,também, do mundo humano.. O relato é muito interessante e,por ser breve, não desperdiça uma só palavra.
   Com isso Quiroga consegue criar um universo próprio, alargando as possibilidades dos gêneros literários. Uma experiência interessante para o leitor.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Segredos

   


A arte de abrir portas
nem para todos serve:
corte,cálculo,sina
emaranhados,desvencilham-se,
estendem-se diate
dos olhos do assombro.

Tantas vezes a morte
nos cumprimenta
que duvidamos de sua existência.

Uma vez abertas,
nunca mais poderemos fingir
que somos os mesmos.

(imagem: google)


Antologia Poética



Fui selecionado para participar da Antologia poética Além da Terra Além do Céu da editora Chiado de Portugal.
Trata-se de uma publicação em três volumes representativa da poesia brasileira contemporânea.
Os livros já foram publicados e lançados no Brasil e em Portugal.  Estarão na Feira do Livro de Lisboa e na Bienal do \livro de São paulo.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mistério



MISTÉRIO

Adentrar
o mistério
em sua icônica ossatura,
expelir a forma
do que não tem forma,
integrar o assombro
à circunferência do acolhido,
repensar o proscrito
nas imediações do âmago:
Os segredos do vivo
nos canais do perceptivo.
Mistério,
o indomado
na geometria do infinito.


(imagem: Bryan de Flores)