quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Um poema de Mirabai


 PORQUE MIRABAI NÃO PODE VOLTAR PARA SUA ANTIGA CASA

As cores do Escuro penetraram o corpo de Mira;
todas as outras cores desapareceram.
Amando o Escuro e pouco comendo,
isso são minhas pérolas e turmalinas.
Rosário de meditação e a marca na testa,
tais são os meus adereços e anéís.
Isso é beleza feminina suficiente para mim;
aprendi isso com meu professor.
Aprovada ou reprovada, eu louvo a Energia da Montanha
dia e noite.
Tomo o caminho que os seres humanos extasiados
tomaram por séculos.
Não roubo dinheiro e não agrido ninguém;
do que me acusarão?
Senti o balanço dos ombros do elefante;
e agora você quer que me sente num asno?
tente agir com seriedade.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

AUTOR CONVIDADO

 


   JONAS PESSOA DO NASCIMENTO é cearense radicado em Brasília, poeta e professor pós-graduado em Língua Portuguesa. Foi um dos vencedores do Salão de dezembro de Poesia e vencedor do  I Prêmio Amazonas de Literatura com o livro Chão Partido. É autor de diversos livros publicados no site Clube de Autores. 


                                                       


 

 

I

Até me compreenderem

mais nada serei:

nem sombra,

nem lembrança,

assombração,

nada!

 

Minha face

não estará em espelho algum,

por ora me nutre o verbo,

depois nem advérbio serei,

oxalá uma interjeição

de espanto pelo tempo que passou. 





II

 

Em cada lua,

em cada sol,

um verso no poema que a vida

tece todos os dias.

 

O ipê da minha quadra,

em penitência,

cobriu-se roxo.

 

Além do ipê

muitos ecos

inaudíveis

a quem se farta das flores.



III

Fosse o vento poesia,

cessariam as penas

de minha solidão.

Se nossas mãos se tocassem,

o prêmio seria o júbilo.

 

Muito da nudez humana

são ódio e medo abraçados

dentro de nós.

 

No meio da noite,

Encharcaram um indigente

alegando lavar uma vergonha social.

 

Outro dia, acordei

no meio de uma

viagem quando me despertaram

para os afazeres da vida.

 

O chão está sujo,

falta cor -

agem

para ag

ir (a) onde

se diz:

so

corro 



 




segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Oferenda Lírica- Tagore


 Ficarei quieto, esperando, como a noite

Em sua vigília estrelada,
Com a cabeça pacientemente inclinada.

A manhã certamente virá,
A escuridão se dissipará, e a tua voz
Se derramará em torrentes douradas por todo o céu.

Então as tuas palavras voarão
Em canções de cada ninho dos meus pássaros,
E as tuas melodias brotarão
Em flores por todos os recantos da minha floresta.


(foto:Google imagens) 

sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Lobato e Clarice


 Quando criança, o meu sonho era ter Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato. Demorei para obtê-lo. Parecia inalcançável, mas o encontrei na primeira Feira do Livro a que pude ir. Anos depois, li um texto de Clarice Lispector (Felicidade Clandestina) a respeito de sua experiência e reações ao ganhar o livro de presente. Fiquei pasmo ao descobrir que minha experiência e reações haviam sido exatamente as mesmas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

Resenha


 

   O livro Maravalha de Cláudio B.Carlos é uma bela publicação da Editora Saraquá em conjunto com a Editora Coralina. As ilustrações são  de Thassiel Mello e o projeto gráfico, de Angel Cabeza  

   A história é definida pelo autor como uma novela grunge gaudéria, uma classificação, no mínimo, curiosa devido ao aparente  descompasso entre mundos tão distintos. No entanto, cai como uma luva,pois a narrativa, requintadamente minimalista, mostra um lado "sujo" ambientada  num bar situado em alguma cidade qualquer do Rio Grande do Sul. Os  personagens  nem um pouco "edificantes", por assim dizer, são pessoas comuns, medíocres, desbocadas, que estão o tempo todo indo ao banheiro, urinando, vomitando, e em situações escatológicas.  O cenário é, na verdade,um microcosmo de relações humanas revelando vidas vazias, sem sentido. Ninguém tem realmente nada para dizer, para acrescentar.  O texto evidencia o vazio da contemporaneidade, a falta de perspectivas, uma angústia corroendo as entranhas, um desespero talvez ignorado pelos próprios personagens, inconscientes de sua real  situação ou ao menos tentando ignorá-la, escapando provisoriamente dela.  

   Todavia, o autor vai além, lançando o seu olhar desiludido sobre o mundo com maestria.  Há uma situação tensa que vai se intensificando o tempo todo. Um ato  foi cometido. Será descoberto?  Haverá consequências? Nesta época doentia do século XXI, não há lugar para a culpa,como em Crime e Castigo de Dostoiévski.  A preocupação não é ter cometido o erro. O que preocupa realmente é se ele será descoberto. Não se pensa em reparação.Ao contrário, é preciso fugir  dela a qualquer custo. Não há senso de responsabilidade, de castigo. Ninguém assume nada. Ninguém está disposto a carregar o seu fardo , não há lugares para feitos "heroicos" , para romantismos. O escapismo, tornou-se um recurso recorrente em nossa época. Assim como o entretenimento tomou o lugar da cultura e o excesso de informações roubou o lugar do conhecimento.  

   Ninguém se deixe enganar pela aparente banalidade da narrativa. Estamos lidando com um escritor contundente e visceral, capaz de dizer muito com pouco, criando cenas e situações com  perspicácia. Há uma sutileza a exigir a atenção do leitor e vai conduzindo a ação, oculta sob detalhes sórdidos de vidinhas inglórias. 

   Maravalha  até pode ser lido rapidamente. Mas continuará perturbando  a mente do leitor muito tempo após ter sido encerrada a leitura. 



    


quarta-feira, 30 de setembro de 2020

FLOR


Da pétala
o contorno não reduz
a pétala ao íntimo.No íntimo
a pétala nada é, é
apenas a possibilidade
da flor ou mais,
seu verossímil.
O mínimo da flor
não é sua vontade
de existir, a existência,
mas o impresso
na maquete da retina.

terça-feira, 29 de setembro de 2020

TIPOGRAFIA

Vários tipos 

foram extraviados 

não era possível 

imprimir notícias: 

imprimi poemas 

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

Refração


 Da transparência

o vidro sabe 

o sólido;

a água, o líquido;

a luz, 

tudo que transtorna: 

debulhar do avesso 

em cartilagens de gelo e lâmina, 

afiar do translúcido 

na desintoxicação do fixo: 

copo e água 

em limo e lume 

no desentranhar 

do que foge às córneas: 

interpenetração do incolor 

a acender o que incinera: 

manto a desnudar 

anonimato e batismo, 

invenção do inerente 

a inverter o íntimo.  


(imagem:google) 

quinta-feira, 3 de setembro de 2020

Geometria


 O Todo 

é o corpo do Nada, 

que não tem corpo, 

só anatomia. 

O Nada 

é só silêncio 

e o além da semântica, 

sugestão de grafema 

no branco da página. 

Existir 

nem sempre é existência, 

do inexistente, a geometria transcende 

hipotenusa e catetos. 


(imagem: google) 

terça-feira, 1 de setembro de 2020

Gramática


 As coisas procuram

seus nomes 

dessorando seus ossos: 

nem sempre 

pedra procura pedra, 

musgo procura musgo: 

sucumbem os desvalidos 

se não renegam, 

macera-se a matéria 

senão se despe: 

nem sempre 

se correspondem 

digitais e dedos: 

entre corpo sombra e Sol 

raramente há linha reta. 


(foto: Cleber Pacheco). 

 

segunda-feira, 10 de agosto de 2020

Resenha

    O escritor e tradutor José Eduardo Degrazia escreveu esta resenha referente ao meu livro de poemas: 

NA TEIA INCONSÚTIL DO COSMOS
Cleber Pacheco vem se firmando há já algum tempo, com excelentes críticas nacionais e internacionais. Autor já de uma obra importante, de prosa e poesia, participando de inúmeras antologias no exterior, tem conseguido abrir um espaço nesse tão difícil mundo da literatura em nosso país. Principalmente, por estar fora da grande mídia e vivendo numa cidade do interior. Mas hoje, com os novos meios de comunicação, estando onde estivermos, e se o nosso trabalho for de qualidade, ele acaba encontrando a repercussão merecida.
Tive o prazer de escrever a apresentação do seu livro de poemas “A arte rupestre” e nela dizia que a poesia do autor (quem sabe, toda a poesia) “Talvez seja a poesia a forma possível para fazer a arqueologia do universo, do mundo, e da alma humana.” E não é diferente nesse novo livro que recebo do Cleber, Poemas Orgânicos, Editora Penalux, Guaratinguetá, 2020. A começar pelo título, que nos remete ao que na “orelha” diz o ensaísta Eduardo Jablonski: “O primeiro poema da obra, que dá nome a ela, fala da vida e reflete suas idiossincrasias.” Vale a pena ver esse poema para ter a noção da visão de mundo que carrega o livro inteiro, p. 7:
“A vida tem dessas náuseas
Que regurgitam ossos,
Transmutam a textura da pele,
Expele pedras dos rins,
Imprimem memórias
Na tipografia das células,
Nutrindo esquecimentos
Nos estilhaços do instante.
A vida tem desses nódulos
Gerados nos gânglios do medo,
Desventrando os fetos da alma,
Macerando os fósseis do nada.”
Já havia dito no livro anterior que o autor não nos propunha facilidades, e aqui acrescento, que além disso, ele não tem medo de entrar em terreno não poético, ou pelo menos em temas não tão explorados pela poesia. Lembro logo de Augusto dos Anjos (1884-1914), poeta paraibano, que no seu livro conhecidíssimo “Eu”, mergulha no mundo orgânico do homem, sua evolução, sua matéria, usando uma terminologia cientificista e evolucionista. Dele se aproxima Cleber Pacheco quando diz no poema Roca, p.9:
“O homem,
Espelho orgânico do Nada,
Anjo selvagem
De êxtase e infâmia,
Traduz
Os Arcanos do medo
Em vestes de carne e fúria.
O que engendra, cala ou congela
Tece os vestígios do híbrido
Em trama que flui e resvala
Em cilada de nós e de linhas,
Traçando veleidades, funduras
Na teia inconsútil do Cosmos.”
O que diferencia o autor gaúcho do autor potiguar, no meu entendimento, é que mesmo os dois autores procurando mergulhar nas circunvoluções do cérebro e do pensamento, o primeiro tem um núcleo espiritual intenso, hermético, mágico, enquanto o segundo é materialista. Nos dois há uma procura de uma visão universal, uma visão de mundo. Lembro de Pablo Neruda (1904-1973) no seu livro de memórias “Confesso que vivi”, em que o poeta nos diz que a sua poesia mudou quando encontrou a visão de mundo que precisava baseado na degeneração e revitalização da natureza, da vida e da morte que viu quando criança no húmus da floresta do seu Chile natal. Pois bem, para mim, Cleber Pacheco é poeta que almeja encontrar um sentido maior na sua poesia. Isso, como todos nós sabemos é difícil, mas a trajetória que vem marcando nas nossas letras só nos leva a esperar que o seu caminho seja sedimentado nessa direção. Leiam “Poemas orgânicos” e tirem suas próprias conclusões.



domingo, 26 de julho de 2020

Invernia


 Há um momento
em que o mundo se recolhe,
sequer cães ladram.
Tudo se retira  e se desventra,
viver se torna concha
no abissal do estéril:
deixa  de ser vidro o vidro,
deixa de cortar a faca, 
mimetizam-se as coisas 
para se tornarem nulas:
não mais há musgo e pedra,
só o sintoma, 
desritualiza, o mundo,
a agudeza do instante:
raça,instrumento,nome
se desmentem
com inconsistência
de sombra sobre a água:
tudo é instinto e espanto
nos descaminhos
do rigoroso,
tudo é inverno e cavidade
nas intimidades do mínimo:
não há face nem totem
nos recônditos do escuro:,
viver é anonimato
a destituir o denso,
instante de amolar lâminas
para sangrar silêncios,
cerne do vibrátil 
a render-se ao Imóvel. 

(foto: Google) 
 

sexta-feira, 24 de julho de 2020

Autor Convidado


MÁRIO SÉRGIO BAGGIO nasceu em Ribeirão Claro_PR É jornalista, escritor e blogueiro. Mantém o blog: www.homemdepalavra.com.br
   Publicou três livros de contos. Tem textos publicados em várias revistas eletrônicas.
   Participou da Antologia Ruínas pela editora patuá e da coletânea Fragua de Preces editada em espanhol. Prepara um livro de poesia e outro de contos para 2020.

CARTA AO FILHO 
Querido Cassiano, querido filho meu,
Hoje é seu aniversário e quero lhe dar meus parabéns. Ontem sonhei com você e foi como se estivesse vendo um filme. Vi o filme da nossa vida juntos: o seu nascimento, você com cinco anos, você adolescente, você se tornando um homem. Sinto saudade, sabe? Por isso pedi que me trouxessem um papel e uma caneta, queria lhe enviar umas palavras e perguntar se está tudo bem. Não sei por onde você anda, mas você sabe onde estou.
A mim pouco importa se você vai ler esta carta, se vai esquecê-la em alguma gaveta ou jogá-la no lixo sem abrir o envelope. O fato é que sonhei com você, hoje é seu aniversário e tive vontade de lhe escrever. E pronto, aqui estou. Penso muito em você, como tem se virado, o que faz para viver, se está casado, se tem filhos. Se puder, e quiser, dê notícias pro seu pai. Há tanto tempo não nos falamos! Desde aquela noite, está lembrado?
Não consigo recordar claramente o que aconteceu naquela noite, mas uma coisa posso lhe dizer com segurança: não fui eu. O delegado escreveu no laudo criminal algo sobre uso de drogas ou uma substância estranha qualquer encontrada no meu organismo, que teria precipitado todos os acontecimentos. Foi isso que os jornais também noticiaram na época. Mas eu posso dizer com sinceridade, e espero que você acredite em mim, que eu nunca usei nenhuma droga. Queria que seus grandes olhos castanhos estivessem aqui agora pra eu olhar pra eles e repetir: não fui eu.
Ainda há muitas nuvens em minha mente sobre tudo o que aconteceu, imagens esfumaçadas que confundem meus pensamentos, mas confesso que tenho pelo menos duas imagens muito reais em minhas retinas, sobre as quais não tenho nenhuma dúvida: o sorriso largo que você mantinha no seu rosto de adolescente e a forma frenética como lavava as mãos na pia da cozinha, esfregando com força pra se livrar daquelas manchas vermelhas, enquanto sua mãe parava lentamente de respirar, deitada no chão. Eu não pude socorrê-la a tempo.
Hoje você completa vinte e cinco anos, é um homem feito. Eu seguirei aqui onde estou, cumprindo a sua pena. A culpa... ah, Cassiano, meu filho, essa eu deixo pra você. É o seu presente de aniversário.
Seu pai.































...

Área de anexos

terça-feira, 21 de julho de 2020

Obelisco


Elo
de luz e sólido
na transparência
do opaco,
intimidade do remoto
a fluir o fixo,
vigor
do tempo
a medrar,
do humano,
o ato
do estático,
pilar
da pulsação do rígido:
conclusão e limiar
dos casulos
do imperfeito.

)foto:  Google) 

sexta-feira, 17 de julho de 2020

Arte Poética




Nunca escreva poemas
sobre flores e rios,
 jardins ou pontes.
Escreva apenas poemas
sobre o inexistente:
amores,abraços,
anjos,ingentes deuses.
Não é feito de névoa
o verso,ou vômito;
palavra é esgotar
de infinitos contínuos
de espanto,
é inacabada reza
a nunca implorar
milagres, bençãos.
Poeta é mesmo o tempo
que, incansável,
 se suicida e se desmente
no eviscerar dos vivos.
(imagem: Google)


quinta-feira, 16 de julho de 2020

AUTOR CONVIDADO


   RAFAEL GONÇALVES GOBBO é poeta de São Paulo.

TORMENTAS

Estarei lúcido amanhã?
Alguns momentos luminosos
Ofuscados pela opacidade do tempo;
Completa irrelevância -  de uma mente vacilante.

As costas ardem;
A cabeça lateja.
Que luta mais inglória
Querer ter controle, razão - enfrentarei a peleja.

Tormentas de minh'alma
Implacáveis no ataque. 
Sossega, mar revolto!
O amanhã ainda chega - darei meu xeque-mate.



quarta-feira, 8 de julho de 2020

Vênus

Do   feminino,
o âmago, 
das fêmeas,
a mulher, 
fecundidade do vivo,
da matéria, o sagrado
em gestação de mundos:
terra, carnes,entranhas
em discernimento de vísceras
a verterem 
sangue e sublime
florescendo segredos ,
aroma a sustentar
o nutrir
das raízes do impalpável. 
  (arte: Cleber Pacheco).

domingo, 5 de julho de 2020

Totem


Do animal,
alma e entranhas
em atos de astúcia,
força que regenera
debilidades do indistinto
na geografia dos possíveis,
acervo e obra
do anímico
em reconstituir
de anthropos e besta,
engenhos de território e rota
no íntimo do ausente, ,
arte dos instintos
na ancestralidade dos estigmas. 

( foto: Google imagens). 

segunda-feira, 1 de junho de 2020

Eros e Thanatos


   Amor e morte. Instintos construtivos e destrutivos. São as bases da existência.  Nas ditaduras, no fascismo, nos totalitarismos imperam os instintos de destruição, de subjugar, de matar. A necropolítica é isso.  Eliminar o diferente, eliminar o "inimigo", eliminar aqueles que pensam.  Não há lugar para Eros.  É o império do òdio.
   Destruição do  meio ambiente, da educação, da cultura, da saúde,  dos direitos humanos, perseguição, mentiras, lavagem cerebral.  Não há nenhum objtivo de construir algo bom. O único intuito é obter mais poder, mais dinheiro, mais capacidade de manipulação.
   A democracia no mundo não passa de um simulacro. No Brasil ela está  no fio da navalha.  É o momento de população, intelectuais  e as instituições  adotarem atitudes  que  reafirmem
m a Constituição e os valores que estão  sendo atacados pelo fanatismo, pela ignorância e pelo obscurantismo.  Antes que seja tarde demais.
   Agora é fundamental que  Eros  se sobreponha a Thanatos.

(imagem: Google) .

quarta-feira, 27 de maio de 2020

Resenha


   O escritor  Waldemar José Solha comenta meu novo livro de poesia:

     Hoje, coisa de seis da matina, peguei-o de novo, e - desconfiado - fui à última página , onde me deparei com o pequeno poema sintomaticamente denominado ANAMNESE E DIAGNÓSTICO, que me fez sentir-me em casa, pois me devolveu aos muito juvenis estudos de anatomia em que me empenhei, seguindo o Creative Illustration, de Andrew Loomis, de 1947.

Cleber Pacheco:
-
“Meu corpo tem simetria / E a proporção áurea dos gregos, / Meus ossos obedecem / Os mais exigentes arquitetos góticos, / Minhas veias seguem o fluxo / Dos cardumes das hemácias, / Meus órgãos são saudáveis / Como frutos brilhantes ao sol.” PONTO antes do final.
-
pra dizer, fora da ordem cronológica, que Cleber Pacheco é Mestre em Literatura Brasileira, tem Licenciatura Plena em Letras e Especialização em FILOSOFIA: Epistemologia das Ciências Sociais. O arremate:
-
“A dor que sinto
Começou no dia em que nasci”.
-
O poema seguinte, na penúltima página, me levou a outra leitura não tão distante: “Ulisses”, de Joyce, tão logo Houaiss o lançou em 70, onde o dublinense diz:
"Achas as minhas palavras obscuras. A obscuridade está nas nossas almas, não achas?”
Cleber Pacheco abre assim o seu RECURSO DO MÉTODO:
-
“É impreciso tatear a claridade
Onde o preciso é obscuro”
-
Exatamente o que eu sentira na véspera.
Mais uma página pra trás e lá está: VERBO. São nove breves versos, que começam esclarecendo:
-
“A Linguagem da Vida/ Articula / A Linguagem das Palavras”,
-
E, lá no fim:
-
“A coluna vertebral do sentido”.
-
Mais uma página atrás e o tema “claridade” está de volta, em POESIA, com o primeiro verso dizendo, lindamente, a que ela veio: “Acender o sol”. E, na segunda estrofe:
-
“Iluminar a Lua,
Clarear a luz,
Molhar a água”.
-
Genial.
-
Ah, menos uma página e eis o exato momento em que vivo agora:
-
“VATICÍNIO
-
Certas manhãs desperto
Com o estalar da ratoeira.
-
Sei que naquele dia
Necessário não será
Consultar as vísceras das aves”
-
OK, OK . Leia o livro
-
Cleber Pacheco - segundo a Penalux - tem dezoito obras publicadas: teatro, romance, contos, poesia, crítica literária. E, mais: tem poemas e contos em antologias nos Estados Unidos, Canadá, Índia, Reino Unido e Irlanda e livros de poesia publicados no Reino Unido, Canadá e EUA, recebeu prêmios em teatro, poesia e crônica, seu livro de poesia MYSTERIES foi premiado nos States, e - também conforme a Penalux - é artista plástico autodidata, com pinturas e desenhos publicados em livros e revistas no Brasil, Estados Unidos, Reino Unido e Índia.


Eliane Pantoja Vaidya, Cláudio B. Carlos e outras 12 pessoas


quinta-feira, 21 de maio de 2020

Seara


Nem toda semeadura é vida,
ou toda colheita,morte.
Onde germinam  os grãos
semeados nas grotas do infértil?
Como desabrocham brotos
fecundados no pólen do inviável?
Indigesta é a terra em seu ruminar
de névoa e de ossos. Nem tudo é raiz e fruto,
nem só a folha cobiça o orvalho. 

(pintura: O Semeador- Vincent Van Gogh).

quarta-feira, 6 de maio de 2020

Camões


CAMÕES
MOTE ALHEIO
Vós, Senhora, tudo tendes,
Senão que tendes olhos verdes.
VOLTAS
Dotou em vós Natureza
O sumo da perfeição;
Que o que em vós é senão
É em outras gentileza;
O verde não se despreza,
Que, agora que vós o tendes,
São belos os olhos verdes.
Ouro e azul é a melhor
Cor por que a gente se perde;
Mas a graça desse verde
Tira a graça a toda cor.
Fica agora sendo a flor
A cor que bos olhos tendes,
Porque são vossos e verdes.