quinta-feira, 25 de maio de 2017

Mistério



MISTÉRIO

Adentrar
o mistério
em sua icônica ossatura,
expelir a forma
do que não tem forma,
integrar o assombro
à circunferência do acolhido,
repensar o proscrito
nas imediações do âmago:
Os segredos do vivo
nos canais do perceptivo.
Mistério,
o indomado
na geometria do infinito.


(imagem: Bryan de Flores) 

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Futuro?



O Brasil está em crise.Á beira do caos. O motivo? Ganância,corrupção,falta de ética.
Daí a pergunta: qual será o futuro do país?
Infelizmente não há boas perspectivas à vista.
É assustador ver a total falta de remorso,de sentimento de culpa e de vergonha dos governantes.Rouba, se vendem,mentem e dizem que são todos inocentes e vítimas. Comportamento de sociopatas.
As pessoas estão estarrecidas,revoltadas,assustadas.Mas a violência não trará soluções.Só agravará os problemas.
É o momento de a população ficar unida e manter ideias em comum.
Por certa se trata de uma crise a longo prazo. Não haverá soluções mágicas.
Bom senso. Constituição. Eleições diretas. Eis o caminho.

terça-feira, 23 de maio de 2017

Resenha



   Provavelmente o livro mais famoso de Cortázar seja  O Jogo da Amarelinha (Rayuela) por sua inovação e ousadia formal. Há quem aprecie Bestiário, do qual realmente não gosto,com exceção de .
um ou dois contos. O texto que mais gosto dele é uma pequena história intitulada El Perseguidor.
   Nele o autor conta a história de um saxofonista que toca jazz. Em seus momentos mais inspirados de improvisação ele persegue o inexprimível, o imponderável, Por meio da criatividade, tenta alcançar algo indefinível, que possa atingir e alcançar, mesmo que por um breve instante, aquilo que não podemos conceituar,ou ao menos aguçar nossa percepção da vida e do mundo ao nosso redor.
   O trecho a seguir é extremamento significativo:
 
   En realidad las cosas verdaderamente difíceles son otras tan distintas,todo que la gente cree poder hacer a cada momento.Mirar,por ejemplo,o comprender a un perro o a un gato. Ésas son las dificultades,las grandes dificultades.

   Por sua simplicidade narrativa e pela capacidade de provocar a reflexão e inquietar,este é,sem dúvida, um dos melhores momentos do escritor,mais conhecido pelo aspecto surreal ou de realismo mágico dos seus textos.
,,
   

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Mago


Onde vive o discernimento
em nitidez de sabedoria e espanto
nasce ,não o cálculo,o vibrátil
que se desprende de dogmas e arestas,
criando,vendo,expelindo
a intensidade dos máximos e dos mínimos,
revigorando, repondo
espontâneo e genuíno,
capaz de esculpir a si mesmo,
ao mesmo tempo autor e obra.

(imagem: google)

domingo, 21 de maio de 2017

Compaixão



Surgiu,o homem,implorando ajuda.Dor, a única expressão nele existente.Ferido estava.
Acolhida imediata,sobre a cama coloquei-o.Desacordado ficou.
Logo veio o segundo homem para vê-lo, avisando que  por certo um outro apareceria,quão perigoso era,como devia ser afastado.
O terceiro de fato veio.E avisou-me: o perigo real vinha do anterior,não se poderia confiar nele.
O primeiro,adormecido,corria risco de vida. Indecisa, achei melhor evitar o acesso de ambos. Fechei as portas.
Na casa, apenas eu e o ferido que eu  socorrera.
Esperei pacientemente pela sua recuperação.Dei-lhe alimento,banho,bálsamo.
Aos poucos foi recuperando a própria consciência.
Só assim pude matá-lo,

(Imagem: Google)


sábado, 20 de maio de 2017

Livraria

 
A livraria era um universo e a laranja que o meu avô tinha nas mãos, o seu sol.
Entrei,como de costume, para passar a tarde toda ali.
Podia escolher o que quisesse: aventuras, mistérios,quadrinhos, mundos mágicos.
Sentei-me no canto após escolher o livro da vez e mergulhei.
Todo o restante deixou de existir.
Sim,ele permitia. Eu ficava ali quanto tempo quisesse,podia vasculhar as possibilidades oferecidas.
Fluíram os anos e continuei frequentando o lugar. A velhice das estantes e dos volumes trazendo a garantia de que o encanto perduraria para sempre.
A dor e a morte prosseguem lá fora,nas ruas, mas ali os alfarrábios, como que por milagre, ainda respiram.

(foto: Google)

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Arte de Amar


Nem o amante
ou o amado,
o amável.

Nem o silente
ou o sino,
o dobrado.

Nem o redundante
ou a ausência,
o presente.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Anatomia




É rasa a retina
para conter corpos,
é funda a mina
que engendra mortos.

É rara a retina
isenta de miséria,
é rica a ruína
se fez memória.

(imagem: Google)

terça-feira, 16 de maio de 2017

Poema



Tanque d'água em escuro,sequer lua.
O que ele reflete?
O espelho do cego recorda
onde o infinito começa.
No canto,escondida,sombra sem espreita.
Além,talvez, o coro dos mortos.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

Leitora


Na penumbra evidencia-se o branco da página.
Nele as palavras saltam,mergulham,fundam,retinem.
Ela lê, vasculha mundos,significados,foge e se encontra.
Nela o livro ressoa em coração e cérebro,nutre indagações,espantos.
Fusão e encontro no imaginário das gentes.
Livro-enlace na amplidão que se redescobre em mínimos múltiplos comuns.
Viagem estática, êxtase.

(imagem: Google)

sábado, 13 de maio de 2017

Voltar

   Deitada sobre a relva,ela espera.
   A manhã se dissolve  e ele não surge.
   De que adianta esperar?
   Ela sabe que é inútil continuar. Sabe que deve voltar para casa.
   Trata-se de um caso de rejeição ou abandono,bem sabe,caso contrário ele daria importância ao compromisso.
   Traição?  Desprezo?
    Ajeita a sombrinha, alisa o vestido,contempla a relva. Melhor desistir. Daqui a pouco voltará para onde mora sem olhar para trás.
   Mais uma hora se passa e ninguém.
   Decide retornar antes que sintam sua falta e tenha problemas. Vai abandoná-lo e,quando ele chegar, não a encontrará.Ficará desorientado,confuso,furioso.Estará vingada.
   Sim,daqui a pouco irá levantar e partir.
    Só mais um pouco.Pode esperar. Afinal a tarde ainda está em seu início.Afinal a tarde está ainda na metade.Afinal a noite ainda não chegou.
    Fica.
   

(imagem: pintura de Nicolaevich Kramskoy)

quinta-feira, 11 de maio de 2017

Febre


A febre de existir,
a febre de consumir-se,
a insânia de viver.
Faltam músculos,
secam raízes,
porta a fechar-se.

O mundo à espreita
do que não acontece.
O humano a render-se
às avarezas do instante.
Persistir
(desistir)
é esquivar-se.

Romper
os sete selos
e ver
 refinamento e  crueza
de encontrar-se.

(foto: Cleber Pacheco)




quarta-feira, 10 de maio de 2017

In-verso



Tudo é avesso
de uma outra coisa,
tudo é sombra
sem ruído
e fere a visão.
Tudo é praga
e desatino
e corrói
a carne
além da superfície.
Tudo é ânsia
e vestidão
como se em velório
estivesse.
Tudo é ainda
e o deter-se
é só um jeito
de despedir-se.
Tudo é fundo
e aluvião,
cratera remoída
no vitríolo
do infinito.
Tudo é disparidade
e exclusão
no anteparo
das vísceras
do instante.
Tudo é forma
e rouquidão
na quebra
do celibato de existir.

(foto: Google imagens)

segunda-feira, 8 de maio de 2017

RESENHA


    Após haver lido romances distópicos, escolhi A Mão Esquerda Da Escuridão de Ursula K. Le Guin, pois a autora cria um mundo muito próprio,com suas sociedades. Desta vez a história ocorre num outro planeta chamado Gethem ou Inverno, pois lá o frio é permanente.
    O jovem Genly Ai é o Enviado da Terra que chega com uma nova proposta: fazer com que Gethem se integre a uma comunidade universal da qual diversos planetas fazem parte.
   Envolto pelo descrédito, Genly Ai tem de enfrentar uma forte oposição,traições,fugas,dificuldades. Mas o ponto central é o seu relacionamento com Estraven, considerado traidor e banido pelo seu próprio povo.
     Genly Ai precisa vencer a própria desconfiança e tem de aprender a conhecer Estraven para vencer os seus próprios preconceitos e incompreensão diante de uma realidade diferente, de um sistema desconhecido, de um povo com regras muito diversas das suas. A jornada que ele realiza com Estraven em meio ao mundo gelado é o ponto central da narrativa, trazendo descrições impressionantes, discussões filosóficas e a respeito das diferenças entre gêneros, amizade e amor.
    É um livro de ficção científica escrito de um modo único,que vai muito além dos estereótipos que caracterizam esta vertente literária. Não há batalhas espaciais,aventuras apenas pelo sabor da aventura. Os fatos possuem um significado existencial profundo. Pelo que me consta, a autora foi influenciada pelo Taoísmo, tendo,inclusive, traduzido o clássico livro chinês para a língua inglesa.
   Trata-se de uma obra em que é preciso levar em conta ainda questões antropológicas, colocando-nos uma questão fundamental no mundo de hoje: a habilidade de mover-nos de uma visão de mundo para outra. Há uma ideia implícita no livro: como olhamos para as coisas é crucial e determinante. Disso depende a nossa capacidade de compreensão.
    A Mão Esquerda da Escuridão nunca perderá  a sua atualidade. Trata-se de obra atemporal a nos ajudar a refletir e a conhecer o OUTRO.
    Se ainda não leu,leia o quanto antes.

   
 

sábado, 6 de maio de 2017

Upasika



    Sozinha na sala, jogando paciência, a Velha Senhora, também conhecida como H.P.B. , percebeu um leve ruído à sua volta e ainda teve tempo de ver uma carta se precipitando do teto.
   Uma mensagem do Mahatma,ponderou.
    Abriu-a.
    Leu-a cuidadosamente.
    Suspirou.
    O Mestre avisava que ela seria traída e difamada e teria uma vida triste e difícil. Poderia desistir de sua missão ou continuar,se quisesse. Era livre para escolher.
    Abandonar tudo, voltar para a Rússia? Seguir em frente?
    Não precisou pensar duas vezes.Suportaria todas as consequências.
    Lá no Tibet, ciente de todos os acontecimentos, o Mestre suspirou em enlevo e compaixão.

* Upasika: discípula

(Foto: Google imagens)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Os Anciãos



   Em primeira mão divulgo aqui o meu novo romance :Os ANCIÃOS.  Como a trilogia  O MESTRE DE ELLORA, trata-se de uma incursão no gênero fantasia. Só que desta vez se tyrata de uma história completa num só volume de 376 páginas.
   No antigo povoado de Sadira, que faz parte de um mundo em outra dimensão, um grupo de jovens repentinamente descobre que está em perigo. Antigos segredos começam à vir à tona e mudam completamente a realidade de todos.
   Com doses de suspense, misticismo e muitas revelações, a história prende a atenção desde o início e segue com ação ininterrupta, desvendando,passo a passo, mistérios que estavam ocultos e estão relacionados com outros universos.
    Anteriormente divulguei alguns trechos aqui mesmo no translittera.
    O livro está disponível no site Clube de Autores.

http://www.clubedeautores.com.br/book/233856--Os_Anciaos

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Sede


   Insaciável desde sempre,
   Bebê,sugava o seio materno com voracidade até esgotá-lo.
   Criança,bebia água o tempo todo, secava as torneiras sem piedade.
   Jovem, esvaziava todas as garrafas que encontrava.
   Adulto, espremia dezenas de frutas para extrair o sumo.
   Velho, foi para o deserto. Tornou-se oásis.

(foto; google)
 

terça-feira, 2 de maio de 2017

A Chave


   Havia sete portas para abrir.Nenhuma era mais importante do que a outra,mas todas deveriam ser abertas. Cada uma a seu tempo. Cada uma com sua chave. Cada chave tendo de ser girada sete vezes.
   Se conseguiria abrir todas,ignorava. Queria entrar,mas não poderia ser de qualquer modo. Havia uma ciência e uma arte para abri-las.
   Primeiro,porém,teria de encontrar cada uma das chaves.
    A primeira estava debaixo de uma pedra. A segunda, debaixo de uma árvore.A terceira,sob as asas de um pássaro. e assim foi ele realizando a sua tarefa.
     Agora ele busca a sétima chave.
     Não há ninguém para ajudá-lo,nenhum indício.
      Ele torna a conversar com o mundo das rochas.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Poema



Para além de tudo,silêncio e verve.
Reposição de circunferências, o concêntrico, a repetição do concêntrico,ênfase.
Para além do repetido, a fluência do único.
Vertigem.

sábado, 29 de abril de 2017

Límpido



   Concentrou-se,o monge, na limpidez da água, uma água líquida,transparente,muito diversa da transparência de vidro de um bloco de gelo, da opacidade das pedras se espalhando pelo solo, da leveza do voo das aves, da delicadeza única das flores. Desta vez,quis ele, encontrar o insano.
   Não foi possível definir a consistência daquela água, a temperatura, não se importou com as folhas caindo sobre,com o escorregadio do fundo,com as brincadeiras do sol e da sombra no aquoso. Dedicou-se única e exclusivamente à transparência.
   Para compreendê-la, precisou evitar os riscos das elucubrações filosóficas e os destemperos da insanidade. Ver o transparente poderia facilmente conduzi-lo a um estado irreversível de loucura ou matá-lo. Muitas foram as armadilhas para chegar a um estado perfeito de contemplação. Ninguém diria que algo tão simples pudesse conter tantas possibilidades falaciosas,tantos riscos.
    Era um grande propósito, havia avaliado. Só não imaginara que gastaria nele  toda a sua vida.
 
 
 
 
 

   

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Poema



Acolher um corpo (insetos,mamíferos) exige gesto.
O anatômico requer condição.
Morrer à míngua,à deriva é só uma face do possível.
Nascer,evacuar,maior esforço.
Um corpo sobre a terra,o percorrer,a sobrevivência do desgaste.
Acolher um corpo ( mamíferos,insetos) exige tato.
É incondicional o amorfo.

terça-feira, 25 de abril de 2017

A Arte do Impossível




Desveste-se o nunca
em outra veste
recoberta pela franca
nudez que a despe.

mesocarpo,miolo,
da matéria,o fundo,
renúncia de solo,
não medo,desmando,

semente da vertigem,
consolo do escuro,
relevo da não-imagem,
corpo do claro.

segunda-feira, 24 de abril de 2017

Resenha

LARANJA MECÂNICA  de Anthony Burgess

   Completando as leituras de romances distópicos, concluí hoje Laranja Mecânica..
   Inicialmente a leitura se torna complexa porque o autor cria uma linguagem própria utilizada pelo seu personagem-narrador, o jovem Alex. Certamente isso exigiu por parte do tradutor um trabalho árduo. No entanto, à medida que os capítulos avançam,vamos descobrindo o sabor dessa linguagem,achando-a interessante e,não raro, com um certa comicidade. Isso significa que o livro nos pegou de jeito.
   Há anos eu havia assistido ao filme de Stanley Kubrick, gostando muito do resultado. Agora achei importante efetuar a leitura do livro,uma vez que também havia me proposto a completar os três :Admirável Mundo Novo,1984 e Laranja Mecânica.
   Posso dizer que realmente vale a pena dedicar o tempo para conhecer obras que fazem uma reflexão a respeito da sociedade,da política,dos sistemas desumanizantes. Algo,aliás,muito evidente neste novo milênio.
    Se George Orwell criou vários neologismos em 1984, Burgess se utiliza de gíria, de sua admiração por James Joyce  e de seu talento com as palavras para causar estranhamento ao leitor, para expressar a linguagem dos grupos juvenis,ou melhor das gangues,com sua e violência exacerbada e suas vidas sem sentido,buscando satisfação na agressividade,drogas,etc. Isso reflete não só o que ele observou em sua época: é muitíssimo atual,pois podemos perceber facilmente o avanço da delinquência, a falta de perspectivas, o bullying,o desinteresse pelos estudos ganharem proporções cada vez maiores.
...A grande questão abordada pelo autor é: seria lícito retirar a capacidade de escolher entre o bem e o mal do ser humano em nome da ordem social,dos interesses políticos, da manutenção do sistema?
   O livro não perdeu seu frescor e sua importância.Pelo contrário, cresceu ainda mais diante da realidade em que nos deparamos diariamente. Aliás,nenhum dos textos mencionados envelheceu. Todos continuam significativos, comprovando o talento dos seus autores.



    
   

sábado, 22 de abril de 2017

Raiz



Calo-me rente às folhas,
também sei ser outono,
impessoal e nítido
quando comungo
o mimetismo das coisas.
Fico,faço,imprimo
as iminências do gasto.

Todos os dias jogam
meu cadáver aos cães.
Inerte ou em construção,indico
minha virulência
em abrir os olhos
às raízes do perigo insondável de existir.

(foto: Cleber Pacheco)


sexta-feira, 21 de abril de 2017

Babel



Ergue-se
a Babel,
alastra-se,
diminuem
as línguas,
intensificam-se
os gritos,
iminente
é o desamor,
a queda,
homens fabricam
caos,
prolifera
o câncer,
século de sangue
na ganância
da morte,
orgasmo da desesperança
no terror
dos cegos.

(imagem: pintura de  Pieter Bruegel,o Velho).

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Paisagem



A nuvem
é a caligrafia da água,
o chão
 é o palimpsesto do tempo,
os olhos alinhavam
os desencontros,
o coração
costura os retalhos.
Nalgum lugar
desloca-se
a paisagem para muito além
de si mesma:
o mundo reverbera
mas nunca se alcança.

( foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Memória



Escavar
inúmeras camadas
em busca
do testemunho do gelo,
memória da Terra e do Tempo
no coração do frio,
vidro a respirar
metamorfoses e mapas líquidos
  esculpindo
os cristais da existência.
Reparos e danos
refinando
a anatomia das eras
nos domínios do ancestral
e do lúdico.
Arqueologia do gélido
em estertor e fluxo,
confirmando
inconsistências límpidas.
Sereno furor
daquilo que funda
e se dissolve
em agonia e graça.

(foto: Google).






segunda-feira, 17 de abril de 2017

Resenha


1984 de George Orwell.

   Prosseguindo as leituras dos romances distópicos, concluí recentemente o livro 1984 de George Orwell.
   Talvez alguns achem o trabalho  datado ou ingênuo. O fato é que ele chamou a atenção dos leitores recentemente graças aos políticos maquiavélicos.
   Em minha opinião, o texto é mais detalhista do que o romance de Huxley (Admirável Mundo Novo) e difere dele pelo uso da violência. No caso de |Huxley, as pessoas são condicionadas desde cedo a obedecer e nunca questionar. Em Orwell a tortura é um recurso essencial para destruir qualquer rebeldia e remodelar a mente, operando uma verdadeira lavagem cerebral.
   O livro é forte , contundente e possui questões significativas como o duplipensamento e a novafala. No primeiro caso é um recurso para que as pessoas aceitem duas ideias contraditórias ao mesmo tempo. No segundo, há um processo de destruição das palavras e a elaboração de um novo vocabulário com o intuito de evitar rebeldias, pois a linguagem é essencial para a compreensão da realidade. Outro ponto importante é o fato de haver uma contínua remodelação dos fatos históricos,adequando-os sempre às conveniências do Partido,de tal modo que a memória acaba sendo aniquilada sistematicamente,
  Winston Smith,o personagem central, nunca consegue se ajustar ao sistema.E ao apaixonar-se por Julia,intensifica sua resistência aos desmandos de uma sociedade que aniquila o indivíduo. Isso será decisivo para a sua vida e trará consequências funestas.
   Considero a obra muito atual uma vez que este século XXI é uma grande distopia com uma democracia de fachada,mero simulacro a ocultar as garras de um sistema tão cruel quanto o da ficção.
,   Leitura imperdível.

sábado, 15 de abril de 2017

Metanoia



Em morte e vida
transmutar-se,
 tornar-se  todo o possível
a recriar mundos,
agonia e êxtase no instante
onde tudo se encontra e se torna
além do viável.
Choque de luz e trevas
no ápice do agônico
a exultar-se
em abandono e desafio
para revigorar
nunca e sempre
no sacrifício de ser.

(imagem: Rembrandt)

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Instante





A verdadeira nuvem
se revela na estiagem,
já não ilude,
é só passagem;
sem qualquer sumo
é só imagem
que está a prumo.

Sem desolação,desgaste
e sempre avariada,
nem nenhuma haste
e sempre afiada,
é apenas o contraste
da hora condenada,
ainda que lhe baste.

(imagem: Google)

quarta-feira, 12 de abril de 2017

HORIZONTES



Estão gastos
todos os horizontes,
foram roídas
as nuvens,
já não há chuva.

Foram soprados
todos os ventos,
o ar é rarefeito.

Apagaram-se
os sóis, caladas
estão as chamas
e o fulgor abrasivo.

Calou-se o céu
e enviou
as possibilidades do infecundo.

Reparo não há,
restos não fazem
nem recuperam
a claridade do dia.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 11 de abril de 2017

Intervalo


A cicatriz do intervalo
funda novo lugar
no diálogo
entre abismos.

Pausa que repara
a sensatez a fundir
estigmas.

Claridade
a se insinuar
na obscuridade das grotas.

Ver
que se funda
no eterno recomeço
das auroras. 



sexta-feira, 7 de abril de 2017

SILÊNCIO



Quadrado perfeito formado por escadas.No centro,altar.Nos degraus,imóveis monges budistas,sentados.Ao lado de cada monge,uma lamparina acesa.Um jovem descendo os degraus lentamente.Passa,cuidadoso,tentando evitar qualquer perturbação aos monges e às lamparinas.Chega ao centro do quadrado.No altar,uma pedra para ser esculpida.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

Universos


Mergulho
na claridade insuspeita
do universo.

Cada portal
em mim escava
um outro mundo

Cada mundo
se abre
para interstícios outros.

Viver é paralelo
a todo legado.

(foto: Google imagens)

.



terça-feira, 4 de abril de 2017

Resenha



   O romance Noite Sem Fim  de Agatha Christie foi originalmente publicado nos anos sessenta.Faz parte,portanto de sua produção mais tardia. Talvez por isso mesmo seja um tanto diferente dos seus demais trabalhos. Desta vez  importa muito mais a psicologia dos personagens do que como o crime foi cometido ou as motivações.
   A história está centrada em Michael Rogers, personagem um tanto ambíguo: um espertalhão ou um ingênuo? Ele mesmo é o narrador de sua história, o que confere à narrativa,por i só,um caráter duvidoso.
   A ação também não está centrada nas investigações,nos suspeitos, Importa muito mais os acontecimentos que antecedem a morte de Ellie,uma rica herdeira americana.
    O texto possui algumas nuances e o seu final é significativo e guarda impacto não tanto pelas revelações,mas pela importância do mergulho no mundo interno do personagem.
    Impossível comentar os detalhes sem estragar a leitura.Então o melhor é ir direto para o contato com o livro propriamente dito.
 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Poema


   Um punhado de restos, as relíquias.
   Quem deteriora sabe a corpo.
   Um corpo nu entre restos, seu elemento.
   Breve encontro sem atritos, só confirmação.
   Quem é resquício sabe a olho.
   Um olho  (os escombros, corpos), reconhece o convite, reunião.




sábado, 1 de abril de 2017

ÍTACA




Em algum lugar no futuro

                             Entre os escombros encontro os degraus da casa. Subo em busca de um esconderijo. Aqui fico enquanto for possível. Até que necessário seja buscar outro. Eis minha errática vida.
                           Um canto para dormir,alguma comida.Água,talvez. O maior luxo que poderei encontrar nestes tempos de total destruição.
                           São três andares conectados por escadas. Ou o que restou delas. Examino as possibilidades. Aproximando-me, observo  detalhes.  A ala norte não existe mais. Percebo a existência de quartos intactos. Uma hora depois,revela-se um verdadeiro tesouro: um compartimento no soalho contendo comida processada. Tenho sorte. Inúmeras pessoas estão em desespero tentando encontrar algum tipo de alimento. Subo até o terceiro andar,o mais instável, e descubro algo totalmente inesperado: uma sala repleta de livros. Alguns deles estão danificados. Hoje em dia quase ninguém mais se interessa por eles.
     Chamo este local de biblioteca. É o espaço ideal para mim,pois contém uma lareira e o mundo se tornou um lugar frio.
    Escolho alguns livros para acender o fogo. Na capa de um deles está escrito:

        OBRAS DE  WILLIAM SHAKESPEARE
         HAMLET- MACBETH- REI LEAR

    Não tenho noção do que se trata.Em nossa era, aprendemos a ler apenas tratados técnicos.  Constato que o volume é grosso. Crepitam as chamas rapidamente.
   Comer,dormir e vigiar. Nossas únicas atividades agora. A única distração é o acaso de termos algum sonho. Na maioria das vezes, porém, afloram pesadelos. Acordo aos gritos.
      Entediado e só, à medida que os dias passam, decido espiar o conteúdo  dos volumes da biblioteca.  Encontro imagens interessantes: pinturas,ilustrações,desenhos. Arranco as minhas favoritas,quero levá-las comigo quando partir novamente. Serão as únicas imagens de beleza que irei ver. Esteja onde estiver.  
    Passados três dias, encontro numa das prateleiras um livro em que está escrita a palavra ODISSEIA. Tentando encontrar uma gravura, descubro: um tal de Homero escreveu aquilo. Parece tratar-se de texto bastante antigo. Percebo ser a história de alguém chamado Ulisses e que ele deseja voltar para casa após uma terrível guerra. Talvez isso tenha despertado o meu interesse.Somos sobreviventes. Com uma diferença: não tenho para onde ir.Ou melhor,duas: não há  Penélope a me esperar.
   Talvez simplesmente tenha me encantado pela ninfa Calipso. Não tenho certeza.
    Junto com meus outros escassos pertences e o restante da comida, coloco a Odisseia. Vou levá-la comigo.
   É hora de seguir em frente.
    Retomo o desolado caminho rabiscado nas trevas. É preciso tomar muito cuidado. Há perigos por toda parte.
   Alguns dias mais tarde,  avisto um grupo sentado em volta de uma fogueira. Arrisco uma aproximação, mesmo percebendo olhares de suspeita.
   Chego, apresento-me, abro o livro e começo a ler a história de Odisseus.
     Naquela mesma noite tenho uma revelação: acabo de criar uma legião  que me seguirá por toda parte nesta era de ruínas.  


                            
   
                      



   
 
  



  

sexta-feira, 31 de março de 2017

Vislumbre


A arte do provisório,
impermanência,
avultando o precário,
delineando o instante,
revivendo o morrer
de cada dia,
indícios,desfazimentos
que ecoam.
Viver
o fluxo a nutrir
esperas,nuncas,
revolvendo
as especiarias do efêmero,
flor do volátil
desabrochando
nos jardins carcomidos
do agora.

(foto: Cleber Pacheco)


quinta-feira, 30 de março de 2017

Autor Convidado


   Claudia Manzolillo é do Rio de Janeiro, licenciada em Letras pela UFRJ, especialista em Educação e Mestre em Literatura Brasileira.  Revisora de textos. Participou de antologias poéticas como Blasfêmeas: Mulheres de Palavras. Publicou seu primeiro livro de contos A Dona das Palavras pela editora Penalux que foi premiado em 2016 pela União Brasileira de Escritores.

PERTENCIMENTO

Não tenho Taj Mahal
mas tenho um mar abissal
esse me pertence
e ninguém me rouba
queria brincar
de raso
café com pão
arroz e feijão
mas meu sonho é ouro
é outro
só eu sei
e nada mais

.


PINTURA

o ritual se prolongava desde sempre
os três passos
os potes,as poções,os corretivos
todo aquele tempo investido
em enganar o tempo
mas o tempo não se engana
um sinal a mais
esfregou para ver se saía
a dobra do tempo na face magra
uma escavação na órbita,
um desvão no seio,
um canal lacrimal entre as pernas
nada que a lembrasse do rio
caudaloso das horas de gozo
apenas o batom no espelho
escreveu a última cena
da atriz sem papel na vida
assim um the end
em sangue escorreu
num teatro vazio.



DIÁLOGO

Trava-se o diálogo inédito
a fera, a pegada pesada,
a flor,purpúreo adorno
das águas turvas,
quentes e estagnadas.

Lá, a flor,
convite ao deleite narcísico.

Lá,a fera,
espantada diante do inusitado
ser boiante.

Nada a fazer
fera e flor,
naturezas distintas
do mesmo Criador.



quarta-feira, 29 de março de 2017

Segredo



Converso com a árvore
e com a sombra da ave
a escorrer na relva..
Converso ainda
com a pilha de tijolos ao sol
e com o portão coberto de musgo

As histórias que contamos
uns aos outros
 permanecerão ignoradas .
enquanto houver alguém
 capaz de indagação.


(foto: Cleber Pacheco) .
.

terça-feira, 28 de março de 2017

Fruto-Furto


O fruto agoniza
no mar de mortos,
indícios
do que poderia ser
ou do que nunca será,
porta que abre
inutilmente.
Respiração
entre garras ofertando
o infértil,
vago estertor
de sementes em solo seco.
Furto.

(foto: Cleber Pacheco)

segunda-feira, 27 de março de 2017

Resenha


ADMIRÁVEL MUNDO NOVO de Aldous Huxley


   Estes primeiros anos do século XXI são a própria distopia.Então este é o momento certo para ler todos os livros a respeito do tema que ainda não foram lidos. E é exatamente isso que estou fazendo. Para começar,nada melhor do que o famoso romance de Huxley Admirável Mundo Novo. 
   Por algum motivo o livro havia me escapado e quando encontrei um exemplar não tive dúvidas: comecei a lê-lo imediatamente.
   Num futuro baseado no prazer e na felicidade, os seres humanos são condicionados emocional e intelectualmente para que uma aparente harmonia evite conflitos,sofrimentos e o pensamento. Os seres humanos são fabricados em castas e nelas vivem sem questionar,sem raciocínios perigosos e indesejáveis ao Sistema. Para evitar o sofrimento existe o soma que deve ser ingerido diariamente. A literatura foi banida assim como a filosofia.  O único a ler Shakespeare é um selvagem, a versão de Huxley de Caliban,personagem de A Tempestade escrita por,evidentemente,Shakespeare. Até mesmo a ciência está sob controle para servir aos interesses do Sistema.
   Há apenas um arremedo de religião. Agora o mundo se divide em antes e depois de Ford e não mais antes e depois de Cristo.
   O mundo criado pelo autor se assemelha muito ao nosso. As maiorias preferem não pensar, adoram o prazer fácil,vivem de modo gregário e aceitam as coisas como elas lhes foram impostas,uma vez que são condicionadas terrivelmente. Ou seja,o livro não envelheceu: está mais atual do que nunca.
   Trata-se de um romance indispensável,crítico e contestador,um final impactante,muito distante,por exemplo,  dos filmes de ficção científica ruins que têm sido realizados nos últimos anos.
 
 
  

sábado, 25 de março de 2017

Tradução


   Arne Torneck é de Toronto,Canadá. Graduado com honras no Emily Carr College of Art and Design. Produziu transmissões de rádio de entrevistas na Toronto Subway line.  Atualmente escreve vinte e quatro horas por dia.
   Fiz traduções livres de alguns Haiku escritos por ele.


INSPIRADOR

Construindo ninhos de palavras
poetas fazem travessia
tragicamente tristes


SUSPENSÃO

Névoa de primavera perplexa
entre matar os croci *
ou semear as nuvens

(Croci- do latim crocum, crocus,croci:  estame amarelo de algumas flores).



PEIXE EM ÁGUA SECA

Boca garganta osso seco
luta para cair em fundo sono
peixe em água seca

sexta-feira, 24 de março de 2017

Ilha


Não é utópica minha ilha,
apenas local de repouso,
fissura nas ondas estreitas
 que fecundam e cortam
águas.É,em verdade,
porção de terra anímica
e remota, justamente escolhida
pela falta de importância.
Perda de tempo avistá-la
ou vasculhar seus meandros,
é possível apenas acolhê-la
e permitir que aconteça,
 despida
de adornos e feita
para os expatriados do mundo.

(pintura: acrílico sobre tela de Cleber Pacheco)








quinta-feira, 23 de março de 2017

Azul


O céu suspira nuvens,
cumpre hiatos
entre os intervalos
da matéria,
mas nunca argumenta.

Pode-se pintar
sem azul? sem azul
não há pintura
nem evento,
tudo só seria um modo
de se desmentir por dentro.

Celeste é o anseio
que adormece
o mundo
em sua vivissecção
de osso e pedras.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 22 de março de 2017

História


A criança brinca
com o seixo,
o seixo contém
toda a história do mundo,
 a crua verve primitiva,
o alicerce dos impérios.
A criança brinca
e seu brincar contém
 a força motriz
do movimento ancestral,
todas as possibilidades do humano.
A criança e o seixo
convergem
como convergem vida e morte
no encontro de carne e nous 
no primeiro alento
e no instante do último sopro.

(foto: Cleber Pacheco)


segunda-feira, 20 de março de 2017

Novo Gênesis



Minhas mãos ainda sangram
enquanto vou modelando o barro,
na alma de Adão vou vertendo
vísceras de limo e lodo
de onde nascerá Caim.

(foto: Cleber Pacheco)




domingo, 19 de março de 2017

Avesso


Luz e sombra
no enigma dos avessos
atando imposturas
modeladas no impalpável,
intersecções desniveladas
nas aparas do oblíquo.
Fantasma sem lençol
vagando nas assombrações
do real, istmo
abraçando entornos
em catarses de vômito.
Jogo que imita
 versificação dos contornos
em sinapses sem fonemas,
construção de alicerces
nas aparas das fronteiras.
Tudo é eclipse
na exumação do vivo.

(foto: Cleber Pacheco)