domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Arte de Ser e Existir


O desencontro encontra
sua proporção,
medida que aponta
para a própria mão.

Um modo unido
de desfazer
o acontecido
para acontecer.

Acontecimento sem injúria
que destece
riqueza e penúria
e depois se tece.

Um desvalimento
sem coisa perdida,
seu retraimento
é tornar-se vida.

Uma história
sem escrita ou linha,
persongaem ilusória
que se conta sozinha.

Quase relato
na mesma proporção
em que o fato
torna-se invenção.

Narrador e narrado
em perfeita sincronia,
pergaminho dobrado,
mil e uma noites num só dia.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Internacional



    Meu poema King Lear and The Fool  Foi selecionado e faz parte da antologia Shakespeare Sings.      O poema também teve destaque especial. recebi o certificado FOR WINNING THE JURY'S SPECIAL APPRECIATION.
    O concurso foi promovido pelo Departamento de Inglês do Farook College, do estado de Kerala, na Índia.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Resenha



    A peça teatral o Mercador de Veneza de William Shakespeare é uma de suas melhores comédias.  A história gira em torno do casamento de Pórcia  e o enigma que seus pretendentes precisam solucionar corretamente. Fazendo a escolha certa, o pretendente  conseguirá desposá-la.  Para que toda a situação tenha um final adequado,no entanto, Pórcia terá de resolver a questão referente a Shylock e questões financeiras. De modo engenhoso, mais uma vez ela obtém a solução para os conflitos. De modo que, neste caso que ,desde o início, envolve questões de casamento e dinheiro, ela é a protagonista. Aliás, as mulheres são decisivas na história,pois a filha de Shylock foge de casa para se caras e por não suportar o pai, cuja vida transcorre sempre em torno dos bens materiais.
   Shakespeare consegue criar situações, problemas e respostas para as dificuldades de um modo cômico,crítico,sagaz e ,ao mesmo tempo,de certo modo, revela também os preconceitos de sua época ( e que transcendem sua época,diga-se de passagem).
    Como sempre, os diálogos são brilhantes. Diz Shylock:
     Se vocês nos furam,não sangramos?Se nos fazem cócegas,não rimos?Se nos envenenam,não morremos?
    Nem é necessário dizer : Shakespeare é sempre indispensável. Nesta época de bestsellers fúteis e fabricados com o único propósito de vender, ler os clássicos é fundamental.
  
   

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Flora




A raiz
do intenso vibra
no vórtice do irrestrito,
realinhando
istmos
no continente da flora.

Árvore
anêmica de medos
a respirar
o fúlgido
em coreografia de folhas.
Insano
que se repara
na instabilidade
do estático.

Flora.

(Foto: Cleber Pacheco)


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Carta


Recebi carta do escritor Enéas Arthanázio, de Santa Catarina, comentando o meu livro ENTES:

"Comecei a ler Entes e não consegui parar antes do fim.(...)Você criou uma atmosfera sufocante que vai do início ao fim(...)E não poderia haver melhor resultado para uma obra surreal.A linguagem é muito rica,personalíssima e marcante.Uma das novelas melhores que li. Meus parabéns!"

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Resenha


    O livro de contos A Tumba e outras histórias de H. P. Lovecraft, publicado pela L& PM, contém histórias anteriores ao período em que o autor elaborou um mundo mais particular, com relatos de seres monstruosos anteriores ao homem,querendo a todo custo retornar à Terra. O chamado horror cósmico, que gerou um livro inventivo como O Chamado de Ctulhu.
   As histórias presentes no volume mostram um autor cheio de fantasia,quase delirante, querendo causar pavor e medo a qualquer custo, o que acaba soando forçado. Tudo tem de ser espetacular. E acaba no espetaculoso. Querendo ser horripilante, acaba caindo num homor involuntário.
   A avalanche de adjetivos soa meio cômica. Não há um substantico sem dois ou três adjetivos grandiloquentes. Isso torna a leitura cansativa,causa desconfiança no leitor mais atento.Como resultado, o estilo não convence.
    Não por acaso o melhor conto é O Clérigo Diabólico. Texto curto,com final impactante, consegue realizar o seu propósito.
    Uma coisa é certa: Lovecraft não é Poe. Sequer chega perto do refinamento e  da maestria de  escritores ingleses que souberam explorar o gótico. O seu interesse se mantém pela capacidade imaginativa de suas fantasias.
   

domingo, 28 de janeiro de 2018

Imagem


Sobre a mesa,
o vaso,
dentro
do vaso a flor,
intercâmbio
de formas na fragilidade da água,
no precário do portador
que tudo contém
nas esferas da incerteza.

(imagem: pintura de Pierre Bonnard)

sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Conto: ESCOLHA


- Tenho uma teoria.- disse o cientista.- Mas duvido que os meus colegas concordem.
- E qual seria?
- A situação já se estendeu muito mais do que esperávamos.
- Sim. Doze meses. Uma gravidez humana de doze meses é impossível.
-  De fato.
-  E o feto  parou de crescer.
- Exaro.
- Pois bem. Está vivo,saudável e não fosse o fator tempo,poderíamos dizer que é uma gravidez normal.
-Perfeito.
- Há uma possibilidade: a criança simplesmente se recusa a nascer.
- Ou a mãe não quer que ele nasça.-revidou o outro.
- Eles vão exigir uma cesariana.
- Certo. Assim que descobrirem.
- E se os escondêssemos? E os anos passassem? O que aconteceria?
- Fascinante. precisamos saber ,precisamos descobrir isso.
- O que faremos? Revelamos o caso? Ou escondemos?
    Os outros cientistas acabavam de chegar.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

AUTOR CONVIDADO


Lucas Alvim é de Minas Gerais . Graduado em Engenharia Mecânica pela UFSJ.  Até agora escreveu quatro livros e de poesia: Maço de Março, Exergia, Contorcionismo e Cantigas Cotidianas.

FASTIO 

Distendo o espaço
com uma lança cega
que se despreguiça
crescendo seus galhos
até preencher o redondo céu
de meus olhos
jorrando meu peito
que abre as cortinas
para entrar o sol
que mata meus ácaros
seca meu suor
e me deixa
terra morna
neve parada
estômago cheio
e pós-coito.

Esta é minha luta diária.
Uma flecha guardada
para se usar em casa,
e me disparar dela
sem cair.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Homenagem




   Esta semana soube do falecimento do amigo poeta Aricy Curvello.
   Tive o privilégio de entrar em contato com ele por carta há alguns anos. E logo iniciamos uma correspondência. Ele sempre me enviava cartas detalhadas a respeito de suas publicações. Gentil,sempre me enviava exemplares de livros importantes que havia sido publicados,assim como revistas literárias.
   E assim acabei escrevendo diversos artigos a respeito de seus poemas e livros. O que nos levou à decisão de reunir todo o material num livro,que acabou ganhando duas edições.
   O livro foi muito bem recebido pelos melhores críticos brasileiros. E acabou ganhando a Medalha de Ouro.
   É um alívio saber que o projeto foi realizado e teve êxito ainda antes do falecimento de Aricy.
   Espero que sua obra continue sendo estudada ao longo do tempo, pois merece tal consideração.
   Deixo aqui o meu abraço ao amigo poeta que nunca encontrei pessoalmente, mas com quem troquei cartas e emails.
   Que esta pequena homenagem possa alcançá-lo,esteja onde estiver.

domingo, 14 de janeiro de 2018

Ler


Ler
o mundo,
inevitável.

Além
das letras,
o coração,
ainda que selvagem.

(imagem: Google)

sábado, 13 de janeiro de 2018

Chama


estrelas afogando-se no lago
arder de chamas líquidas
no ventre da escuridão

(pintura: Emil Nolde)

segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

Biblioteca


Minha biblioteca é
Arca de Noé.

Minha biblioteca acende
o que não se entende.

Minha biblioteca avança
rumo ao que se lança.

Minha biblioteca funda
um fluir que inunda.

Minha biblioteca entrega
só àquele que navega.

( imagem: Google)

sábado, 6 de janeiro de 2018

Resenha


      A história de E no  Final a Morte de Agatha Christie  ocorre no Egito ,dois mil anos A. C.  Como ela própria salienta, poderia ocorrer em qualquer outra época. O que é um fato. O diferencial é que as superstições e crenças do período têm alguma influência sobre a trama.
   Na primeira parte, a autora, com agilidade, consegue mostrar qual a situação da casa do sacerdote IInhotep sob o ponto de vista de sua filha Renisenb. Quando aquele retorna de viagem, traz consigo uma concubina, que irá alterar o rumo dos acontecimentos, fazendo aflorar o lado oculto ou mais verdadeiro de cada um dos personagens. Entre permanência e mudança , os fatos se desenrolam. Nada mais será o mesmo.
    A psicologia dos personagens é essencial para a história e para desvendar o mistério que toma conta da casa. Há diversos assassinatos, é claro, inicialmente atribuídos  a causas sobrenaturais. O melhor do livro consiste nas questões internas de cada um dos membros da família. Eis a chave de tudo. A autora já havia feito coisa semelhante em outros livros, mas neste em particular ela se sai bem.
   Agatha Christie ,obviamente, não tem o refinamento de uma Ruth Rendell,por exemplo. Mas ,em muitos casos, soube explorar a própria capacidade inventiva. 
 

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Poeta


O que se oculta,
revela
nosso pobre ver,
suor de retina,
cheiro da sombra
poesia é modo
 de estar e ser.
arquitetura do som,
timbre da cor,
renegar é ter.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 30 de dezembro de 2017

Lar


Não há retorno
para casa.
Não ruíram
as paredes,
nem desabou
o telhado.
Não faltaram pedras
para construir
o chão.
Nada varreram
as tempestades.

Casa
nunca
houve.

(foto: Google)

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Resenha


   UM livro breve e esclarecedor, O ESPÍRITO DO ZEN  de Alan Watts consegue realmente elucidar ,dentro do possível,o que é o Zen. Uma raridade,pois mesmo os chamados orientalistas,não raro, não alcançam a verdadeira complexidade,simplicidade e as profundezas do pensamento do Oriente. Trata-se,portanto,de um grande feito.
   Dividindo o livro em cinco capítulos, o autor explica as origens,o segredo,a técnica do Zen e ainda explica como é uma comunidade zen e a influência deste modo de vida em todo o Oriente.
    O texto estabelece,ainda, a ligação com o Taoísmo, suas semelhanças e diferenças, além de estabelecer a distinção entre as principais correntes do budismo.
   Explicar o que é o Zen não é uma tarefa fácil., pois se trata de algo que repudia o pensamento filosófico, a rigidez das religiões, nem se baseia em livros sagrados. Trata-se de uma corrente viva, transmitida de mestre para discípulo, fazendo uso dos koans ( histórias aparentemente absurdas) para se chegar ao Satori (iluminação).
   Afirma o autor:
   (...) para o Zen o problema da vida  é passar além das duas alternativas da afirmação e da negação,pois ambas obscurecem a verdade (...)."
   Pode-se sintetizar a força do Zen no seguinte trecho:
   " (...) a vida nunca poderá ser entendida em sua essência nem possuída ou paralisada à força (...) esse desprendimento é a aceitação da vida como ela é, como algo que não pode ser propriedade de ninguém, que é sempre livre,espontâneo e ilimitado".
    Trata-se de uma grande contribuição para o entendimento do espírito do zen,como propõe o título.

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

METAmorfose


 Um ano a gestar,
padecer de intruso,
inclusão de pérola,
milagre incerto.

A arte
de espalhar
conchas,
recolher praias,
mergulhar na secura
das metamorfoses.

Trilhar.

( desenho: Cleber Pacheco)

domingo, 24 de dezembro de 2017

Nascer


Nascer é ato
de trevas,de luz,
de ousadia e tristeza,
de confinamento.

Nascer
é expansão.

Bom Natal a todos.

(Desenho: Madona com menino Jesus by Cleber Pacheco)


terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Redefinir

Redefino escritas,
penhoro letras,
aprendo a fazer iluminuras,
desinvento a imprensa.

Alfabetizo-me a cada instante
para desaprender tudo
e redimensionar
bibliotecas e volumes.

Espanto-me;
logo,existo.

(imagem: google)

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Sonho

Deus desperta e sonha
universos
em som e senha
engendrados,

limpidez sem gesto,
fluidez de forma,
emanar de fluxo
que recua e contorna,

espírito e sopro
em vibrar de esfera,
absurdo e nexo
feito fruto e corpo,

reverberar do agora
em conversão de espera.

(imagem; google)



quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Viagens

(imagem: pintura de Jeffrey Smart)

Toda viagem
requer traçados,
ainda que tortos,
reverter atalho
é revidar estações,
seguir,ir adiante,
ainda que impossível,
arremata trajetórias
para além do inviável.

Viajar é sempre
mais que viagem,
fundar
de muitos rumos
sem mala e bagagem.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Poema


Na foz da Fronteira,o deslimite.
O maior no incluso do mínimo.
No reverso das coisas,o translúcido.
O que reverbera, anuncia.
Adiante, mares,desertos,florestas,não o excesso.
Apenas aqui o adiante.
O limite.

sábado, 2 de dezembro de 2017

A Arte do Silêncio


Esboça,o silêncio,
um outro esboço,
polpa da inconstância
e seu caroço,

volver do desnutrido
em abundante,
fecundar do castrado
em fruto-instante,

figura sem traço
em nova norma,
cria sem berço,
nudez de forma.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

AUTOR CONVIDADO


   FERNANDO MAROJA SILVEIRA nasceu em Belém do Pará. Estreou nas letras em 2015  com o livro Cinzas. Publicou poemas nas revistas Zunai,Subversa e Caliban.
    O poema selecionado faz parte do seu livro O ESCRAVO DO VAZIO publicado pela editora Penalux  em 2017.

O CANTO DA AREIA

Elevar-se,
mas não pela teia que prende as estrelas
na masmorra do céu.
Não pela escadaria do trovão,
desmantelada no galopar da chuva,
quando as gotas saltam como os cavalos,
para derrubar o homem
no tabuleiro de xadrez.

Elevar-se,
pelo canto da areia
e chegar ao topo da pirâmide,
onde apenas o extremo do vazio se equilibra:
ventania,bailarina.

Elevar-se
pelo canto da areia
e chegar ao deserto,
o único lugar fora do tabuleiro de xadrez.


 

Moinhos




Moer de treva e trigo,
distintos nomes
de fartura e miséria
na mistura das insanidades.

Gerar,colher,triturar
no sem fim dos estigmas
e do abandono.

Eolizar
 do pão e do espúrio
na transubstanciação
das tramas do vivo.

(foto: Google)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Gótico


Atravesso
pântanos,
testemunho
a queda da casa de Usher.

Miram-se
os espelhos
emitindo
mensagens em código.

Murmúrios corroem
as pardes,
sombras apagam
reflexos,
a vida se refaz,
não se constrange.

Nos espelhos
a morte habita
sem nunca pedir excusas.

(foto:Google)

domingo, 26 de novembro de 2017

Arte de escrever


Escrever
é regurgitar
silêncios,
decodificar
enigmas,
despistar
clarezas.

Cada
letra,,
palavra,
verso,
reanima
calor
 de vísceras.

Frase,
página,
eterna viagem
de ir e vir,
entorpecimento
e despertar.

(foto: Google imagens)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Compra e Venda


Compra-se homens
à vista e à prazo,
a perder de vista.

Material barato,
econômico,
reutilizável,.

Vende-se almas,
convicções,
retórica.

A  noite cai
sobre
o mundo
e não respira.

(imagem: Google)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Iminência



Escorregar,cair,
quebrar
os dedos,
expelir
cálculos renais,
morder
o lábio até sangrar.

A qualquer momento
as veias rompem
e a vida vaza
entre estrondo e silêncio.

(foto: Google)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Krajcberg


A natureza da arte
na arte da natureza,
maestria das formas,
o triste transmutado
em beleza,
a vida escavada
nas veias da morte,
o escrutínio
do lúdico
na devastação dos extremos.
Krajcberg,
um hino à presteza
do existente.

(foto: escultura de Frans Krajcberg,falecido ontem. Artista polonês naturalizado brasileiro).

domingo, 12 de novembro de 2017

poeSIA



Há milênios
matam
a beleza.

Ressuscita
a poesia
a cada dia.

(imagem: google)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

TUDO


Tudo acontece em tudo,
tudo é fricção e memória e medo,
tudo devora,constrange, reitera,
tudo acusa,falha,expira
tudo afunda,voa,soterra
em rito,ritmo,rapto,
tudo sequestra,regurgita,é famélico,
tudo expõe,esconde,penetra,
tudo é prestes a ser
um palor de fogueira acesa.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Sinais


Sagradas geometrias
fundam
o reino e suas astúcias,
exigindo chaves,insinuando códigos
para a tessitura
do que ainda não foi composto,
sinais
que desencadeiam
inúmeras moradas.
Benditos os geômetras,
decifradores da clareza,
artesãos do ensaio
do viver quotidiano.

(Imagem: Google)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pontes


Atravesso pontes de neve
sobre lagos de fogo

O céu é devorado pelas nuvens
Meus pés são engolidos pelas chamas

Fenecem flores ao longo do caminho
Colho sementes de gelo

(foto: Google)

domingo, 5 de novembro de 2017

Resenha


   O livro FAUSTO COM RUGAS de Cristina Ohana publicado pela editora Penalux merece ser lido com atenção. Nele a autora revela grande domínio da linguagem e da narrativa,fazendo uso de capítulos curtos,densos,plenos de expressividade. Aliás, sua capacidade expressiva impressiona: as palavras são selecionadas cuidadosamente,os contrastes de luz e sombra possuem força,impacto,nos marcam.
   Esta nova versão do pacto fáustico revela um personagem senil, incapaz de se entusiasmar pela sede de conhecimento,como no clássico goethiano, uma vez que já viu tudo,já experimentou de tudo e padece de cansaço,de fastio,de saturação,embora incapaz de impedir o fascínio que a existência  exerce sobre ele e ainda almeje a juventude eterna. O mundo lhe causa náusea e,ao mesmo tempo, o atrai. Dor e gozo,nojo e fascínio se mesclam,descrente já do humano e no entanto impotente para impedir sentir-se atraído por suas possibilidades.
   Livro contemporâneo e atemporal, faz uma re-avaliação da condição humana, passando por antigos mitos:

   Repetiremos todos os dias a expulsão do Éden.
  
    O diálogo entre Fausto e o diabólico pode,aqui,representar uma divisão interna,um conflito jamais resolvido entre o bem e o mal, entre a bestialidade e o inefável,entre o monstruoso e a beleza existentes em cada um de nós. Apesar da passagem do tempo,os nossos dramas permanecem essencialmente os mesmos. Muda a maneira como os vemos,como lidamos com eles, influenciados pelo espírito próprio de cada período histórico. Deparamo-nos,assim com um Fausto decadente,mas cuja energia vital ainda teima em manter acesa a sua chama.

  Além das referências bíblicas,o livro também se utiliza de um vasto conhecimento, que passa pela alquimia,pelos princípios herméticos, antigas civilizações, a filosofia,sexualidade, Dante Alighieri, Kafka,etc. Apesar de breve, a leitura exige fôlego e conhecimento para a sua completa fruição e compreensão, enriquecendo-a ainda mais.
   Em tudo isso permanece uma das questões centrais do romance de Cristina Ohana: a necessidade de expressar-se,a necessidade do poético num mundo onde a poesia parece não mais ser possível.
    Por tudo isso eu diria que se trata de um texto significativo e é mais uma bela publicação da Penalux.

   

sábado, 4 de novembro de 2017

Rimbaud


Menino poeta
a vislumbrar
realidades outras,
naufrágios,sonhos,
distantes terras,
fulgores infernais.

Menino vidente
a ver o invisível,
a criar
mundos impossíveis
na carcomida carne
do poema.

(foto: Google)


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Silêncio


Afinar-se
no silêncio,
eloquência do mudo
na fineza dos intervalos,
retirar-se
e estar presente
na vibração do vivo.

Sinais
a se fundirem
nas harpas do límpido.

Fundir-se
é calar.

(imagem: a pintura Silêncio de Richard Bergh)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Des-velar


Não está velado
o Real,
quem precisa
se desvelar
é você.

Cada véu
que se retira,
cada olho
que enfim vê,
toda camada
que se penetra,
o infindo fluxo:
perceber.

(foto: Google)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Vísceras


Crueldade
à vista e à prazo,
para todos os gostos,
oferecendo,de modo suculento,
as vísceras do mundo,
suas dores e aromas,
seus cancros e cuspes.

Tudo está dito,
falou alguém
antes de fechar a última página.

O mundo sangra
e não cessa.


sábado, 28 de outubro de 2017

Labirintos


São muitos
os nomes do medo,
maiores são
os tons da tristeza.
Vida é vínculo
e aliteração,
tempo é fragmento
e presteza.
Emaranhados
sempre desnudam
a precariedade
das certezas.

(Arte de Cleber Pacheco)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cuidado; Frágil


Frágil é a forma,
seus recônditos de beleza,
sua insanidade.

Mais frágil
é o instante
que se quebra
agudo e seco,
desfeito
em gestos insepultos.

Exstir
se consuma
na liquefação
dos pontos de fuga.

( foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Díspares


Cibernético e arcaico
se abraçam,se cospem
em mútua adoração,
num rejeitar-se descontínuo,
ramificar
onde o oblíquo
se encontra:
desfazer quimeras, criar monstros,
o fortuito parindo
idênticas desigualdades.

(Foto: Cleber Pacheco- Sombra de uma parabólica incidindo sobre antiga carreta)


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Clarice


Sabes
os sentidos do mistério,
perpétuo enigma,
decifração de tumbas,
pulsação do túmido.
Vives
sempre
em todas as coisas,
mesmo as não anunciadas
e destituídas,
as mais exóticas e banais.
Agora
teu silêncio
é só um detalhe
a ser inscrito
na vibração do vivo.

(foto de Clarice Lispector- Google imagens)

sábado, 21 de outubro de 2017

Tempo



Este não é um tempo
de recatos,de amenidades,
 tempo isento de
 fineza e sobriedade,
gasto,roído,estilhaço
de penúria e cólera,
 tempo de cingir  rins e ranger  dentes,
tempo de naufrágio
sem ilhas,
 de irrisão e ruína
a vasculhar escombros
na brutalidade do agora.

(imagem: Google)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vislumbre


 Nem dia ou noite,
nem luz e treva,
distensão de enigmas
a se entrecruzarem
na abside do instante.

Furor do insidioso
no que não tem norma,
lapso de agora
em desonras de sol e lua.

Entreato,
vínculo do que de tudo
foi desvinculado
em ferocidade de clavícula exposta,
fulgor do opaco
nos descaminhos do íntimo.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Frágil



Tudo
se esboroa,
cai,
fenece.

Todo dia
é dia
de morrer.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

BRUTO


Não bruta é a pedra,
o seixo,mais bruto
é o homem em suas artes de besta,
mais bruta é sua verve
calcinada de veneno,
sua honra espúria,
sua insaciedade de sangue,
mais bruta é a viuvez
da delicadeza em fragilidade
de fio.
Rara é a pedra,
ainda que não lapidada,
em sua aspereza e  crua saliência,
reavivando as ranhuras do corpo
estiolado nas agruras do instinto,
em fragilidade e nudez irrestrita
diante da desumanidade do humano.

(foto: Google)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Árido

 Pode,o árido, ter a sua sina,
embriaguez seca de modos,
fatalidade de discernimento,
sem calor ou brasa ou sumo,
capaz ainda de reverter
o avesso à sua face,
criar raiz e entrave nas frestas
do mundo.
Aridez,
um outro oásis de possíveis.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 14 de outubro de 2017

AUTOR CONVIDADO



   TIAGO PAREDES nasceu em Valpaços, Portugal.  Atualmente está terminando o Curso de Programação de Sistemas Informáticos . A sua grande paixão é a literatura.


Receita para uma vida inspira a luz que te oculta expira a escuridão que te ilumina ofusca os que pensam elevar-se mostrando que entre os homens não existem vales nem tampouco colinas bebe das estrelas que o tempo calcou explode na imensidão do silêncio que pesa faz-te lua colado à planície dos mares e descobre em ti a natureza que por lá navega