sexta-feira, 22 de junho de 2018

Lançamento


Participei deste novo projeto da editora Penalux. São contos de Jack London ainda inéditos no Brasil. O livro apresenta um aspecto do autor quase desconhecido por aqui: histórias de cunho sobrenatural e de ficção científica.
Não sou o responsável  por traduzir o livro. Fiz a revisão da tradução. Também escrevi o prefácio e as notas de rodapé. 

quinta-feira, 21 de junho de 2018

3 Histórias Breves



   1- Caminhando pela campina,o Peregrino encontrou uma gota de orvalho.Encheu o seu cantil.

   2- Atravessando a jângal, o Peregrino deparou-se com um tigre. Reinventaram a arte de brincar.

   3- Vendo a planta parasita estrangulando a árvore, transmutou-a, o Peregrino, em orquídea.

(imagem : Google)

terça-feira, 19 de junho de 2018

Microcontos

DISTOPIA

Seres andando por Metrópolis, etiquetas de preços penduradas nos pescoços.
Todos estavam à venda.
Liquidação.


O ESTRANGEIRO

Certa vez,pernoitando numa caverna,o Estrangeiro viu pessoas que usavam imensos colares  e andavam de quatro.
"Ouro", diziam.

domingo, 17 de junho de 2018

Carta de Li Po à Lua



( Texto extraído do meu livro Cartas Imaginárias)

   Contemplo a imagem sobre o lago, só um reflexo. Iludo-me dizendo a mim mesmo é ela, a própria; alcancei-a. Quem diria.
   Na noite seguinte, retorno ao mundo líquido, saudoso de sua luminescência e, inacessível, lá do alto, assombra-me o seu fantasma enquanto insinua és tu o verdadeiro espectro. 
   Silente, ao recolhimento torno, consciente de que só em sonho tocarei seu âmago de precioso jade.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Tradução



A postagem a seguir é minha tradução do poema do escritor e professor indiano Dr. Ampat Koshy.

ROLETA RUSSA

Nenhuma fenda na porta
Para permitir uma flecha através
Da escuridão da noite.

Nenhum alfinete pica minha pele
Para esclarecer o enigma
Num tamborilar ou tatuagem da chuva ou pecado

Nenhum raio de luz
Em seus seios
Para guiar meus lábios

Dois vazios são deixados
Beijo seu quarto frio

Ardo

Para não esquecer

(foto: Google imagens)





terça-feira, 12 de junho de 2018

Signo



Das delicadezas do frágil,
o escopo;
do taciturno e do insosso,
o indelével.

Expelir de ramo.
De raiz, consistência;
  quebrar de pedra na treva,
 definir da fome.

Genética de abismos
na superfície das insignificâncias,
gesto, compaixão e lume.

(foto: Cleber Pacheco)




domingo, 10 de junho de 2018

Nataraj




Apocalipse, Gênesis, Apocalipse,
Gênesis, Apocalipse, Gênesis,
Fim e Começo
,Começo e Fim
Do SemComeçoSemFim
Do Eterno,

Shiva Nataraj,
a Cósmica dança
do que Foi, É, Será.

Ciclo
que se cumpre,
Existir que nutre,
Coreografia da Bem-aventurança.

(Foto: Google imagens).

terça-feira, 5 de junho de 2018

Cenotáfio



Estar aqui é só um modo
de residir em lugar outro,
um lugar outro que apresenta
as lonjuras do aqui.

Não me olhes como se me visses,
como se morto ainda estivesse;
o que vês oculta o não visto
e o não visto é todo o visível.

Jogo de luz e sombra
em fatias lavradas de sol,
estar sem reter, só retendo
o que nunca se pode deter.

(imagem: Google)

sábado, 2 de junho de 2018

Plantar



Colho a neve,
guardo em meus bolsos.

Minhas mãos estão queimadas
de tanto semear flores.

(Foto: Cleber Pacheco)

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Vibração


Beijo a boca do silêncio,
que não quer ser conhecido,
divisão de águas sem marés
na língua do desconhecido,
encontrar de desencontros em sincronia
no assimétrico constante
da irrepreensível convergência
da geometria do inconstante,
ritmo irregular do sinfônico
em mudez de gesto e libras
na harmonia do cacofônico.

domingo, 20 de maio de 2018

Resenha



   Na livraria que frequento encontrei este exemplar do romance A Livraria, de Penelope Fitzgerald. Nunca havia lido nada da autora,mas fiquei interessado. Acabei de ler o livro, satisfeito por ter escolhido bem. Foi uma belíssima descoberta,confesso.
   Texto simples,preciso,econômico e certeiro. Com humor e ironia, Fitzgerald consegue criar uma situação aparentemente simples,mas muito reveladora do comportamento humano, das pequenas cidades, das mentalidades estreitas, além de criar personagens muito interessantes utilizando-se de poucas palavras.
   A solitária Florence ,por questões de sobrevivência, decide abrir uma livraria em Hardborough. E se depara com a resistência de Violet Gamart, a poderosa local, cheia de pretensão e veneno, muito consciente de sua própria importância. Florence não age como uma heroína romântica, tampouco sabe lidar direito com negócios e contabilidade. Curiosamente também não se interessa muito por livros e é incapaz de julgá-los se ,de fato,são bons. No entanto, ela resiste,a seu modo, à letargia , à ignorância e às pressões sociais. É uma personagem sui generis, como o é também o sr. Brundish, o único que realmente lhe oferece apoio.  Outra personagem,Christine, é adolescente que se torna sua assistente e vem da classe baixa. Rude e implacável,mas capaz e organizada. Ambas conseguem uma boa sintonia,embora Christine se revele , no final, tão implacável quanto antes.
   Os clientes da livraria estão interessados em livros sobre a rainha, a realeza, relatos de experiências de guerra,floricultura,etc. Não são exatamente amantes da literatura. O único romance que causa certa repercussão é Lolita, de Nabokov, embora o sr. Brundish a avise de que ninguém ali seria capaz de entender o livro. E se avaliarmos os habitantes da cidade,por certo não devem ter entendido mesmo.
   A Livraria é um romance realmente imperdível graças ao talento da autora, que consegue dizer tanto com tão pouco e pode extrair dos pequenos detalhes singularidades,riquezas e misérias humanas.
   
   
 
   

terça-feira, 15 de maio de 2018

Raso



São excesso
avanço e recuo;
pedido ou recusa,
extravagância.
Surdos,mudos,mendigos:
pura insolência.
Desentendem-se
acúmulo e solidão.

sábado, 12 de maio de 2018

Poema




O candente, o vibrátil nas fímbrias do caudaloso.
Silêncio.
Eclosão de coisas.
Para além dos oceanos,universos.
O que nunca chega a atingir.
Desproporção.
No caudaloso, a vibração do Agora.

domingo, 6 de maio de 2018

MIcroconto : SONHOS

   Escrevia romances no estilo Barbara Cartland com títulos similares: "Ingênua Sedutora", "O Duque Galanteador", "A Princesa Plissetskaya" e assim por diante.
   Sentava-se à mesa da cozinha para rabiscar as histórias enquanto os cinco filhos demoliam o restante da casa e o marido arrotava suas três dúzias de garrafas de cerveja.
   Entre um suspiro e outro, baixava as pálpebras sobre seus olhos sonhadores.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

Existir



Assimétrica é a dissonância
entre os segredos,
pausa de instante vertida
na comunhão que exclui
semente e víscera
de tudo o que existe.
Palavra,parábola,
istmo que se consome
no desidratar do sumo das coisas.
Existir é um insulto
e um fluxo que se regenera
no ápice das contundências.
Acontecer é sempre um  risco
que às vezes até vinga.

(foto: Cleber Pacheco)

sexta-feira, 27 de abril de 2018

Voz



Atravessa o sopro
certa colmeia,
reinventando o corpo
poliniza a ideia
resgatando a flor
- joia rara -
repõe a cor
e se repara
em algodão e dor
para ir vertendo
o que vai pedindo e perdendo

terça-feira, 24 de abril de 2018

Concha


(poema do meu livro VIDA REINVENTADA)

Se é apenas ofício
criação crosta ou resto
nega ato e todo gesto
e se faz só orifício
para o que consiste
naquilo que existe
para o que responde
naquilo que esconde
uma concha não é a causa
de sua caligrafia
mas só ela tem a pausa
do que é ocioso e fia

(desenho: Cleber Pacheco)

domingo, 22 de abril de 2018

Resenha


   Estava em outra cidade quando me deparei com o evento de venda de livros usados na rua. Evidentemente fui conferir,como não poderia deixar de ser. E realmente havia algumas coisas interessantes por lá. Entre elas, encontrei o romance japonês  DIÁRIO DE UM VELHO LOUCO de Jun'ichiro Tanizaki., editora Estação Liberdade, 2002.
   Não conhecia nada do autor,mas admiro os romancistas japoneses. Eles escrevem ótimos livros. E minha intuição não falhou. Trata-se de um livro escrito num estilo simples, mas com grande força.
   O personagem principal é Tokusuke Utsugi, um senhor idoso nada respeitável,por assim dizer, que anota em diários a sua obsessão pela nora Satsuko. Ex-corista e com uma conduta não exatamente exemplar, ela o cativa pela beleza e consegue manipulá-lo e se deixa usar para obter vantagens materiais. Doente,velho,impotente, Tokusuke sofre de dores atrozes em sua mão,além de outros problemas de saúde e está sempre às voltas com remédios e problemas físicos. Mas até mesmo as dores são uma fonte de prazer para ele, que busca maneiras alternativas de se excitar e encontrar alguma satisfação.
  Uma narrativa contundente, amoral e chocante para os padrões ocidentais, revela um modo de vida que pauta pelo corpo, com toques sádicos e de voyeurismo que pode levar até um comportamento herético.
   Nas páginas 41 e 42 há uma referência ao filme Orfeu Negro,do diretor francês Albert Camus e ao ator brasileiro Breno Melo no papel de Orfeu, que desperta o interesse de Satsuko, esposa infiel, mulher egoísta e com um toque de perversidade que a torna ainda mais atraente aos olhos do sogro.
    Tratando a respeito da velhice, vida e morte,prazer e dor, Tanizaki nos faz pensar a respeito do humano e de até onde as pessoas podem ir em sua necessidade de experimentar os próprios limites. Não podemos ignorar,é evidente, que estamos muito distantes dos valores do cristianismo e da cultura ocidental,pois o autor manteve-se bastante distanciado desta influência. E assim temos oportunidade de entrarmos em contato com uma outra concepção de mundo e compreensão da vida.
   A literatura oriental possui suas peculiaridades e cabe-nos conhecê-la sem pré-julgamentos e já produziu muitas obras-primas para encantamento dos admiradores do fazer literário.   
   

quinta-feira, 19 de abril de 2018

Rio



Só quem mergulha nos sonhos
verdadeiramente ama os rios
e torna-se correnteza.

Aprendi a nadar em águas perigosas
e a morrer todos os dias em jardins floridos.

Posso irrigar-me no lodo
e fenecer em oásis paradisíacos.

Aprendi a escavar rios
na esterilidade das catacumbas
dos sonos mais abissais.

Meus rios são transitórios e eternos
em busca de fronteiras desconhecidas.

Meus rios são translúcidos e obscuros
e podem imitar o Amazonas,Nilo e Ganes.

Só quem mergulhas nos pesadelos
pode navegar todos os rios
e nascer e morrer todos os dias.

(foto: Google)



terça-feira, 17 de abril de 2018

Resenha


   Alguns livros precisam realmente ser lidos. Tendo visto uma versão cinematográfica  há alguns anos, percebi que era o momento de conhecer o texto. E então encontrei numa livraria esta edição de O Diário de Anne Frank,  publicado em 2017 pela BestBolso.
   Pode-se dizer que se trata de um livro que nunca perde o seu impacto,força e intensidade ao longo do tempo. E continua atual,se pensarmos nas lamentáveis guerras que ainda ocorrem, nos diversos genocídios que aconteceram antes e depois e parecem não ter nenhuma pressa em serem extintos.
   Acompanhar a trajetória daquelas pessoas no Anexo Secreto sob o ponto de visto da jovem Anne Frank tem uma capacidade de nos envolver,emocionar e fazer refletir. Viver dois anos sem poder sair às ruas, em permanente tensão e medo fazia os conflitos virem à tona constantemente. Isso sem falar nos problemas referentes à alimentação,higiene,roupas,etc.
   As descrições e narrativas de Anne, que desejava ser escritora e jornalista, nos toca profundamente. Podemos acompanhar o seu percurso conhecendo seu olhar arguto,crítico e,algumas vezes melancólico e nos faz pensar a respeito do humano,da sociedade e suas constantes injustiças, do preconceito que se mantém atual neste doentio século XXI.
   É impressionante acompanhar o processo de amadurecimento e as transformações da jovem, a sua insegurança e capacidade para olhar para dentro de si mesma,analisando-se o tempo todo, assim como a sua religiosidade e conexão com a natureza. E ainda assim, podemos nos divertir com o seu senso de humor e vivacidade.
   Já li alguns diários,cartas,biografias e memórias. Mas este é um exemplo particularmente significativo e que deveria ser lido por todos nesta época de intolerância,de discriminação, dividida entre dois extremos: globalização e isolacionismo xenofóbico.
   O Diário não é apenas um documento histórico, é um documento humano cujo valor nunca se perde e que ainda tem muito a nos ensinar. .
   

sábado, 14 de abril de 2018

Ascensão


Não raro a lua
era só um reflexo
dissolvendo-se na água.
Outras vezes
ver o sol
era só vislumbrar
o desenho das sombras.
Arranhando o ar,
desfolhando vazios,
cortando ocos,
escavei
as cavidades da sombra
para incendiar lâmpadas
em direção ao topo.
Ascender
requer sangue e ossos
convergindo ao coração da luz,
redefinindo os átomos do medo,
fatiar a morte
engolida pelo tempo,
apagar estrelas
necessitando de buracos negros.
Atando o cordão umbilical
da lua e do sol,
mergulhei
em vertigem e voragem
e agora acendo
seus dias e noites,
duplo farol
bordando claridade
nos abismos.

(imagem: Google)




sexta-feira, 13 de abril de 2018

Enigmas



FOME

Um homem caminhando num pomar. Encontra uma laranjeira e,nela,uma laranja. Sem casca. Colhe-a.Abre-a. A casca é por dentro. Come a laranja. Fica com a casca. Precisa comer a laranja.

SONHO

Cinco mulheres dormindo. Lado a lado,silenciosas,cobertas por um véu. Ninguém sabe se elas comem. Ninguém sabe o que elas sonham. A primeira estende a mão, a quinta restaura o véu.

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Sobrevivência




Meus pés podem ter sobrevivido
depois de caminharem sobre fogo e brasas
e se queimarem nas cinzas.

Minhas mãos podem ter sobrevivido
ao frio selvagem
congelando meus gestos
  novos e frágeis.

Minha mente pode ter sobrevivido
aos fantasmas e duendes
querendo edificar  masmorras
na prisão da minha carne.

Meu corpo pode ter vencido
a travessia de infernos e vales
reinventando meus ossos
com nova medula.

Mas meu coração necessita
da transfusão de seus olhos
para vibrar e viver.

(foto: Google)

segunda-feira, 9 de abril de 2018

Microconto: Alta Sociedade


A criada verificou todos os itens:

* Vestido Yves Saint Laurent;
* Sapatos e bolsa Louis Vuitton;
* Broche de diamantes Dior:
* Três gotas de Chanel número 5.

- Chiquérrima! avaliou.

Então os homens vieram,colocaram a patroa no caixão e a levaram.

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Por que


Nunca escrevi nada que não fosse
para dizimar as sementes da morte
florescendo no jardim abissal
inundando cavidades de tristeza.

Nunca escrevi nada que não fosse
colheita nos pomares da morte
ofertando frutos de espanto
em casca,polpa,sumo.

Nunca escrevi nada que não fosse
explorar as selvas da insanidade
onde tigres vagam à espreita
de exploradores e de caças.

Nunca escrevi nada que não fosse
incendiar desertos de angústia
escavando tórridas areias
onde poços ocos transbordam sede.

(foto: Google)



terça-feira, 3 de abril de 2018

Farsa


Estão podres
os donos do mundo,
podres em podridão
de arrogância corrupta,
 malícia bebendo
dos que bajulação babam.
Podres estão
os donos do mundo,
podres em podridão
forjada na moeda
da miséria das mentes,
no arremedo de vida
de hipocrisia espúria,
comprando,vendendo-se,mentindo
em prepotência de farsantes
que forjam armaduras
de estúpida empáfia,
cadáveres da ética,
piolhos da práxis,
escória fantasiada de príncipes.

(imagem: Google)





sábado, 31 de março de 2018

Nação

O país crucificado
em angústia e ganância
expira em agonia.

Vertem suas veias
o sangue dos danados
que o ódio veneram,,
as delícias da infâmia aclamam
em fúria ,som, desgraça.
Agoniza o país dilacerado
em mortes que viralizam,
em silêncios de Pilatos,
em beijos de tantos Judas
em miséria e cacofonia.
Expira o país em lamúria,
terra devastada e insana,
onde só progridem
roubo,traição, farsa.

sexta-feira, 30 de março de 2018

Via Crucis



Morrer,a arte suprema
das travessias,
avesso  do convexo
onde a claridade convoca
as agruras do Enigma,
cavidade onde nasce
a aurora circunscrita
 na carne do intangível;
no cerne do improvável,
reversão de Estigmas.

(pintura: Salvador Dalí)




terça-feira, 27 de março de 2018

Dilema



Uma só gota
não remove ou avaria,
não marca memória,
nem nada anula.

O aguaceiro,
se destrói e arrasta,
nada nega
que já silente não fosse.

sábado, 24 de março de 2018

Tempo



Arqueólogo do Impossível,escrevo
as curvaturas do Universo,
desvendo
as fundações do Presente
atando
abismos de Prístina Luz.
Escriba do Indizível,
crio
as iluminuras do Agora,
escrevo
no idioma do Eterno.

(imagem: Google)

sexta-feira, 23 de março de 2018

Sol

 O Sol acende
o rumor das coisas,
atinge o ígneo
de cada nome,
incinera silêncios,
clamores cresta
em volúpia
de fartura e fome.

Cada coisa,
se insalubre,
reluz e arde
em pureza  infecta,
tornada arte,
estranheza e rito,
aniquilada e ressurrecta.
aniquilada e ressurrecta.

(foto: Cleber Pacheco)







quarta-feira, 21 de março de 2018

Resenha


 
 Há algum tempo recebi uma caixa de livros do escritor Rafael Bán Jacobsen. Primeiro li o seu romance SOLENAR, que achei muito bem estruturado ao narrar uma situação trágica. Pouco depois li este UMA LEVE SIMETRIA, publicado em 2009 pela não editora de Porto Alegre.
 Demonstrando mais uma vez domínio narrativo e de linguagem, Rafael novamente conta uma história com aspectos trágicos, agora ambientada na cultura e religião judaica, mas que é,no fundo,universal.
 A simetria do título ocorre em diferentes níveis: no relacionamento do pai do personagem Pedro que será descoberta a certa altura, na ligação entre o caso de pai de Pedro e o relacionamento de Daniel com seu amigo Pedro e,ainda, na história de Davi e Jonatã,do Antigo Testamento.
 Dividindo os capítulos de acordo com as letras do alfabeto hebraico, a narrativa vai mostrando o desenvolvimento do interesse de Daniel por Pedro e as diversas consequências ocorridas a partir do momento em que os sentimentos ocultos são expressos. A partir daí,nada mais será o mesmo. Sentir e,mais do que tudo,dizer o que se sente, desencadeia reações que se tornam cada vez mais pesadas,agressivas,conflitantes,difíceis.  Até chegar ao final patético próprio das grandes tragédias em que o irreversível se faz presente e define os rumos das vidas de todos os envolvidos.
   Um texto belo,corajoso, tocante,sem  dúvida. O autor consegue ser poético sem ser piegas. Vasculha as emoções humanas com sensibilidade e cuidado,evitando os maniqueísmos. 
   O livro revela um escritor maduro e capaz de criar um caminho próprio muito interessante em termos de Literatura do Rio Grande do Sul e Brasileira. Em suma, um autor cuja trajetória merece ser acompanhada com atenção e interesse. 
 

segunda-feira, 19 de março de 2018

Velho Beethoven


A ti,velho Beethoven,
não só os mistérios
da orquestração;
sobretudo,a essência do sonoro,
o vibrar que a tudo move,
a luz no escuro do acorde,
o íntimo da nota
que cala e acende
o âmago das coisas,
a reminiscência do inencontrado,
o calar da anagnórise,
o redescobrir da enteléquia,.
Beethoven,
teu ritmo é o átomo
do que não poderia ser
e,no entanto,é.
Tua força sobrepuja
o inviável e faz,da vida,
o lugar do possível.
Tua miséria é a nossa,
a dádiva que te tornou,
aquele que tocou,
por um instante,
o átimo da perfeição.
(imagem: Google)

domingo, 18 de março de 2018

Poema em língua inglesa

Protest
You say I should not exist
and my breathing is a protest.
No cry is necessary,
no words need be pronounced.
When my eyes see,
they sow sparks through the darkness.
You say I'm useless
and my silence announces great challenges.
I use my broken fingers
to feel the unusual and the unknown.
I use my bleeding wrists
to water the roots of the mystery.
You say I should die
and my heart whispers invitations.
I should not be here,
I should not have a face,
but my hands are growing
toward the Infinite.
I know everything you say.
and then my insignificance
ignites the hearts of stars.

sexta-feira, 16 de março de 2018

Bharatanatyam

Além do abismo,
o movimento,
o que conta e tece
revestindo de gesto
o anônimo.

Da velha Índia
a forma
que redefine o mundo
na gênese do Caos.

O corpo,a mudra
na aparição
do instante.

(Desenho: Cleber Pacheco)

terça-feira, 13 de março de 2018

Resenha



   Inspirado em Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e no famoso delírio narrado no referido romance,, o escritor Cláudio Parreira escreveu uma paródia que vai além da mera paródia : o romance A Lua é um Grande Queijo Suspenso no Céu, editora Penalux, 2017
   Brincando com a ideia  de um autor defunto ou de um defunto autor, Parreira nos remete aos antigos romances,com títulos de capítulos enormes, que sintetizam os acontecimentos ali narrados, como era de praxe no século XVIII e XIX, mas nos remete à irreverência do Modernismo, por vezes nos fazendo lembrar de Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade. No entanto, Serafim parodiava os diferentes estilos e gêneros literários, como Diário, Carta, etc, mesclando uma linguagem parnasiana, criticada e execrada pelos modernistas e a linguagem mais popular, unindo o elevado com o vulgar, como o nome do navio onde Serafim viaja: Steamship Rompenuve.
   Parreira vai ainda além, pois utilizando com habilidade palavras,palavrinhas e palavrões, cria uma linguagem própria , colocando em xeque a Literatura, a Vida e a Morte, questionando o próprio fazer literário, o sentido da vida e o significado da morte.
    Durante a leitura, deparamo-nos com o realismo, com o sobrenatural próprio dos romances góticos, com um arremedo de romance espírita, com o gênero fantasia, tão em voga atualmente. Misturando tudo, o personagem vai em busca da Panaceia Universal, utopia dos antigos alquimistas que buscavam a cura para todos os males. O resultado final é revelador da proposta do livro, mostrando que aquilo que parecia ser só uma brincadeira traz uma visão contundente a respeito da existência humana. O riso revela nossas fragilidades, nossas expectativas, as angústias próprias de nossa condição e,em particular, as agruras de todo escritor. É um riso que faz pensar.Como já disse alguém, não há nada mais trágico do que a comédia. Grande verdade.
   Ao leitor cabe não apenas a diversão, mas  refletir e ser refletido neste jogo de espelhos meio borgeano que o livro nos propõe. 
   
   

segunda-feira, 12 de março de 2018

Caronte


Não preciso que me digam
quantos dormem sob a terra,
fui eu que coloquei
moedas sobre seus olhos.

É inútil traduzirem
lamentos e litanias,
fui eu que escandi
a assimetria dos versos.

Tempo perdido invocar
aparições e avantesmas,
a vida só fossilizou,
nas entranhas, a ausência.

sábado, 10 de março de 2018

A Arte dos Espelhos (III)


Quem vê e o visto
realizam mesma entrega,
encontrando,no misto,
um receber que cega
o desencontro e encontra
um novo olho e mira
que enfim descentra
presente e agora
em reunião dispersa
na sincronia do ponto,
expansão inversa
do retornar ao porto.

quarta-feira, 7 de março de 2018

Leitor



O leitor Jorge Olimpio Gonçalves comenta meu livro ENTES:

Caro Cleber Pacheco, perdoe mas rabisquei bastante o teu livro.
Como faço sempre, fico sublinhado as passagens que mais me encantam nos livros que leio. À medida em que devorava as páginas de ENTES, capitulei! 
Teu livro é puro encantamento.
As palavras que recriaste, a supressão de alguns conetivos causam estranheza, a princípio, depois fluem beleza.
Parece até que a história foi escrita por um ser de outra galáxia. Alguém que aprendeu nosso idioma por telepatia ou, outro método mais surpreendente. A magia fez-se!
Nem sabia se lia ou, eram os ENTES que liam minha alma tal a surreal magia que salta das palavras reinventadas que vicejam no teu romance repleto de lirismos.
Houve momentos, enquanto lia, essa fantástica aventura, em que as personagens, não gente, pareciam deslizar pelas páginas do livro em diminuta proporção. Depois, saltavam precisas para o nosso imaginário.
Enfim, meu caro Cléber Pacheco, tens o brilhantismo dos grandes mestres Contadores de Histórias.
Histórias que nos envolvem, hipnotizam e nos transcendem para um universo além do além.

terça-feira, 6 de março de 2018

Poema


Tudo,todos,redor.
Circunferência de ritos.
Intersecção.
Ao redor tudo compensa,requer.
Ao redor as coisas espumam vertentes,reflexos.
Ao redor, desmistificação de mapas.
Todo local é quadrante.




domingo, 4 de março de 2018

Resenha


   
   Hoje em dia não são muitos os escritores que trabalham a linguagem em vez de se utilizarem de um texto simplista para facilitar a vida do leitor.  Por isso aprecio especialmente aqueles que evitam o seu empobrecimento, demonstrando,ainda, domínio sobre a arte das palavras. É o caso de Alberto Lius Caldas neste belo romance VENEZA, editora Penalux, 2016.
   Trata-se de um livro com um estilo barroco, repleto de significados. Veneza, cidade do belo, assenta-se sobre a sua própria miragem, flutuando sobre águas sujas e limosas. Como uma flor de lótus, que nasce em águas lodosas e permanece como símbolo da  pureza, a cidade é um contraste entre o ideal de beleza e do sublime e lado obscuro da vida humana. É um romance que se desvencilha das aparências para revelar o aspecto sombrio da existência sem, no entanto,perder de vista o ideal que nos leva a seguir adiante e trilhar caminhos em busca do inalcançável.
   A história remete aos romances libertinos do século XVIII,mas não é isso. Simula ser uma história de aventuras e também não é. Parece relato de viagem e subverte as regras do gênero. Poderia ser um romance de formação e vai muito além.  VENEZA é um livro labiríntico. Uma jornada de ilusão e desilusão que destitui as cômodas classificações. Há uma busca que nunca chega a alcançar resultados, ao menos não aqueles que preencheriam as expectativas do personagem e do leitor. O texto transita pelas incertezas, pelas frustrações. Beleza e prazer são miragens que resultam em sabor amargo. Ainda assim o autor evita o tom trágico. Trata-se mais de um despojamento, de um desnudamento onde as diversas máscaras vão caindo uma a uma, revelando o vazio de qualquer empreendimento humano:
     Sendo feita de água,de areia,de lama,de vento,de bruma não é jamais uma cidade apenas.A minha Veneza está sempre entre esses muitos que fui,os muitos que sou e as ilimitadas metamorfoses das suas substâncias vaporosas.E na multidão de todas essas faces continuamos a ter um rosto.Todos feitos de spro e sonho de mar. 
   Em suma, trata-se de um livro para quem aprecia escrita de qualidade e boa literatura.
 
   

quinta-feira, 1 de março de 2018

Verbo


São estranhas as palavras,
até sentido fazem
se cultivadas,
num cultivo que é,de fato,poda,
germinar de semente
entre pedra e espinho,
nem sempre gerando
canteiro e jardim,
só escura terra basta
na intimidade dos desígnios,
daninha erva que se veste
mais que Salomão e lírio,
fulgor do vulgar,carinho
da vegetal escória,abismo
de esporo, rizoma e lume.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Miragem


Minha cidade é feita de pedra
escavada e esculpida
nas névoas do tempo,
sonho sólido liquefazendo
os mistérios da sombra.

Nada é mais sólido
do que esta miragem
erodindo paredes de sonhos.

Minha cidade é minério e espírito
entrelaçados
em raízes de pedra
e flores de espuma
acolhendo a imensidão
da concha onde moro.

(Imagem: Google)

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Enigmas


VIGÍLIA

   Velório. O homem,vestido de preto.A mulher,também. Ela, de olhos fechados. Ele,também. O sebo da única vela escorre para o chão. Quatro olhos se abrem. Trevas.


PRAGA

   Um menino procurando um grilo.A mãe procurando pelo menino.O avô do menino procurando por ela. N a relva,um gafanhoto.

domingo, 18 de fevereiro de 2018

A Arte de Ser e Existir


O desencontro encontra
sua proporção,
medida que aponta
para a própria mão.

Um modo unido
de desfazer
o acontecido
para acontecer.

Acontecimento sem injúria
que destece
riqueza e penúria
e depois se tece.

Um desvalimento
sem coisa perdida,
seu retraimento
é tornar-se vida.

Uma história
sem escrita ou linha,
persongaem ilusória
que se conta sozinha.

Quase relato
na mesma proporção
em que o fato
torna-se invenção.

Narrador e narrado
em perfeita sincronia,
pergaminho dobrado,
mil e uma noites num só dia.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Internacional



    Meu poema King Lear and The Fool  Foi selecionado e faz parte da antologia Shakespeare Sings.      O poema também teve destaque especial. recebi o certificado FOR WINNING THE JURY'S SPECIAL APPRECIATION.
    O concurso foi promovido pelo Departamento de Inglês do Farook College, do estado de Kerala, na Índia.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

Resenha



    A peça teatral o Mercador de Veneza de William Shakespeare é uma de suas melhores comédias.  A história gira em torno do casamento de Pórcia  e o enigma que seus pretendentes precisam solucionar corretamente. Fazendo a escolha certa, o pretendente  conseguirá desposá-la.  Para que toda a situação tenha um final adequado,no entanto, Pórcia terá de resolver a questão referente a Shylock e questões financeiras. De modo engenhoso, mais uma vez ela obtém a solução para os conflitos. De modo que, neste caso que ,desde o início, envolve questões de casamento e dinheiro, ela é a protagonista. Aliás, as mulheres são decisivas na história,pois a filha de Shylock foge de casa para se caras e por não suportar o pai, cuja vida transcorre sempre em torno dos bens materiais.
   Shakespeare consegue criar situações, problemas e respostas para as dificuldades de um modo cômico,crítico,sagaz e ,ao mesmo tempo,de certo modo, revela também os preconceitos de sua época ( e que transcendem sua época,diga-se de passagem).
    Como sempre, os diálogos são brilhantes. Diz Shylock:
     Se vocês nos furam,não sangramos?Se nos fazem cócegas,não rimos?Se nos envenenam,não morremos?
    Nem é necessário dizer : Shakespeare é sempre indispensável. Nesta época de bestsellers fúteis e fabricados com o único propósito de vender, ler os clássicos é fundamental.
  
   

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Flora




A raiz
do intenso vibra
no vórtice do irrestrito,
realinhando
istmos
no continente da flora.

Árvore
anêmica de medos
a respirar
o fúlgido
em coreografia de folhas.
Insano
que se repara
na instabilidade
do estático.

Flora.

(Foto: Cleber Pacheco)


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Carta


Recebi carta do escritor Enéas Arthanázio, de Santa Catarina, comentando o meu livro ENTES:

"Comecei a ler Entes e não consegui parar antes do fim.(...)Você criou uma atmosfera sufocante que vai do início ao fim(...)E não poderia haver melhor resultado para uma obra surreal.A linguagem é muito rica,personalíssima e marcante.Uma das novelas melhores que li. Meus parabéns!"

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

Resenha


    O livro de contos A Tumba e outras histórias de H. P. Lovecraft, publicado pela L& PM, contém histórias anteriores ao período em que o autor elaborou um mundo mais particular, com relatos de seres monstruosos anteriores ao homem,querendo a todo custo retornar à Terra. O chamado horror cósmico, que gerou um livro inventivo como O Chamado de Ctulhu.
   As histórias presentes no volume mostram um autor cheio de fantasia,quase delirante, querendo causar pavor e medo a qualquer custo, o que acaba soando forçado. Tudo tem de ser espetacular. E acaba no espetaculoso. Querendo ser horripilante, acaba caindo num homor involuntário.
   A avalanche de adjetivos soa meio cômica. Não há um substantico sem dois ou três adjetivos grandiloquentes. Isso torna a leitura cansativa,causa desconfiança no leitor mais atento.Como resultado, o estilo não convence.
    Não por acaso o melhor conto é O Clérigo Diabólico. Texto curto,com final impactante, consegue realizar o seu propósito.
    Uma coisa é certa: Lovecraft não é Poe. Sequer chega perto do refinamento e  da maestria de  escritores ingleses que souberam explorar o gótico. O seu interesse se mantém pela capacidade imaginativa de suas fantasias.