domingo, 21 de abril de 2019

Resenha



   Li Os Moedeiros Falsos de André Gide  quando ainda estava no curso de Letras. Agora releio percebendo melhor a dimensão do significado e da importância deste livro essencial. Nele o autor trouxe importantes inovações, influenciando os escritores de sua época e das gerações futuras. É inegável a ousadia de Gide ao escrever um livro que critica abertamente o realismo então ainda em voga. Critica os enredos bem acabados, personagens definidos, enredos artificiais E cria uma narrativa ousada e em aberto, que busca as possibilidades, como se vagasse sem uma direção definida, ao acaso. Em seu diário o personagem Edouard, que é escritor, comenta:
   a realidade me interessa como uma matéria plástica; e tenho mais olhos para o que poderia ser, infinitamente mais do que para o que foi. Inclino-me vertiginosamente sobre as possibilidades de cada ser e lastimo tudo o que o manto dos costumes atrofia. 
    O autor busca não mais os tipos e caricaturas costumeiras de uma tradição literária e suas convenções. Segundo ele, a literatura deve buscar a essência. E esta seria a tarefa do autêntico romancista. 
   Também podemos encontrar no decorrer dos acontecimentos e reflexões, uma sátira ao mundo literário, com suas vaidades e rivalidades, de modo que o projeto da revista de Passavant se torna uma enorme farsa sem sentido, em vez de uma proposta de vanguarda . Passavant representa os vícios de um sistema literário ávido pela glória passageira e a vaidade, enquanto Edouard é o escritor a realmente buscar uma nova compreensão da vida e da literatura. 
    Para Gide a realidade é fluida, pois cada pessoa a interpreta de um modo diferente ou se debate com as elucubrações que costuma criar para si mesmo, como se apresenta em todo o livro e em especial nos personagens La Pérouse, Boris e Bronja e até mesmo nos equívocos pretensamente terapêuticos de Sophroniska. No final, são muito significativas  as palavras de La Pérouse , sintetizando os dramas e conflitos humanos de um modo geral:
   Sabe o que pensei? É que não podemos saber, durante toda esta vida, o que realmente é o silêncio. Nosso próprio sangue faz em nós uma espécie de ruído contínuo,não dostinguimos mais esse ruído porque nos acostumamos a ele desde a infância...Mas penso que há coisas que,durante a vida,não chegamos a ouvir,harmonias...porque esse ruído as encobre. E, penso que só depois da morte é que poderemos ouvir realmente...

   Outra questão importante, pelo viés do personagem Bernard, é a necessidade de se libertar das convenções sociais e buscar viver a vida por si mesmo, buscar o seu próprio caminho, estabelecer suas próprias regras, mergulhar na experiência de estar vivo, efetuar descobertas e inventar a si mesmo. 
   Em suma, Os Moedeiros falsos é leitura das mais importantes para obtermos uma visão das transformações literárias do início do século passado e para compreendermos melhor o próprio século XX.

sábado, 20 de abril de 2019

Novo livro



   No mês de maio lanço o meu mais recente trabalho: O Livro dos Livros. A escritora e bibliotecária Ana Lúcia Merege comenta:
   " Na melhor tradição de Umberto Eco, Italo Calvino e Jorge Luis Borges, Cleber Pacheco apresenta a seus leitores uma enciclopédia de obras fantásticas , das quais a simples descrição provoca assombro e deslumbramento.  A cada página se desvendam novas e infinitas possibilidades : livros escritos sobre pedra ou metal  ou no próprio ar, que tanto abrigam palavras quanto sentimentos , experiências ou mesmo o vazio absoluto,. Livros que guardam segredos arcanos , que relatam batalhas eternas, que transcendem as fronteiras do tempo e do espaço. Livros que podem conter o universo- e ainda assim se ocultar , invisíveis e insuspeitados,  nas estantes de uma biblioteca imaginária."

(Foto: editora Penalux). 

domingo, 14 de abril de 2019

Poema de Li Po


Vocês me perguntam o que vejo nessas montanhas azuis.
Sorrio, mas não respondo.
Oh a minha mente não quer o debate.
Flores de pessegueiros e regatos
fluentes passam sem deixar vestígio.
Que diferença do mundo discursivo!

terça-feira, 9 de abril de 2019

História


A criança brinca
com o seixo,
o seixo contém
toda a história do mundo,
a crua verve primitiva,
o alicerce dos impérios.
A criança brinca
e seu brincar contém
a força motriz
do movimento ancestral
e todas as possibilidades do humano. 
A criança e o seixo convergem
como convergem vida e morte
no encontro de carne e nous  
no primeiro alento
e no instante do derradeiro
sopro. 
( foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 2 de abril de 2019

Resenha



   As narrativas curtas de Kafka são muito impressionantes. Difícil classificá-las. Seriam fábulas sombrias? Literatura fantástica? Contos góticos? Na verdade, são inclassificáveis. Melhor assim, pois é exatamente isto que comprova a sua riqueza.
   A primeira história de Um Artista da Fome relata o caso de um trapezista que se recusa sair do trapézio, aprimorando cada vez mais suas habilidades. E acaba por exigir um segundo trapézio ao seu empresário.
   O segundo conto,  Uma Pequena Mulher é ainda mais inquietante. Um narrador nunca completamente identificado relata sobre essa mulher que se irrita com a existência dele, Sem razão, ela não o suporta e seu sofrimento é infindável por não suportá-lo, embora ele nada faça para merecer tanto ódio.
   Um artista da fome conta o caso de um homem cuja arte é jejuar, permanecendo preso numa espécie de jaula e se tornando atração e fonte de lucro para seu empresário. Aos poucos o público vai perdendo o interesse  por essa estranha atração, relegando-o a mero coadjuvante num circo qualquer até ser ignorado por todos.
   Josefine,a cantora ou O Povo dos Ratos  é tão extraordinariamente bem escrito que nos fascina e desconcerta ao mesmo tempo.
   O mais sombrio de todos  os relatos é Na Colônia Penal, uma história de absurdo e crueldade, um dos melhores textos escritos pelo autor. Verdadeira obra-prima.
   Evito aqui fornecer qualquer interpretação ou chave de interpretação, pois creio caber ao leitor mergulhar nesses contos fascinantes e extrair deles toda a riqueza que oferecem.
   Um pequeno grande livro que deveria ser lido por todos os fãs de Kafka e da grande literatura.
   

sexta-feira, 29 de março de 2019

Florbela Espanca


 A poeta portuguesa nasceu em 1894 e falecer em 1930. Era exímia sonetista. Este é um dos meus poemas preferidos.

RÚSTICA

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A benção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Das às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma,esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa
E todos os meus reinos de ansiedade.

(foto: Google)




terça-feira, 26 de março de 2019

O Recurso do Método


É impreciso tatear a claridade
onde o preciso é obscuro,
meio de testar sua lealdade
e conceder o prematuro
modo de conceber a castidade
do certeiro e do inseguro,
embustes de inventar verdade,
apalpar aonde vão as coisas no escuro.

(foto: Google imagens)

domingo, 24 de março de 2019

A Cerimônia do Chá


O espírito do chá
alastrando-se
em silêncio e gesto,
folha e água
na infusão dos sentidos,
cor e aroma
desenhando
o invisível
em arabescos de vapor,
códigos do cavo
nas saliências do impalpável,
transliteração do irrevelado
a fundir-se
em instante e rito.

(foto: Google imagens).


sexta-feira, 22 de março de 2019

Autor Convidado

SONIA MOREIRA LOBATO é escritora,  professora de artes e uma das fundadoras da Associação de Arte Educadores do Rio de Janeiro. Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Atualmente reside no Rio de Janeiro. Sempre foi apaixonada pela escrita.
Email para contato: sonia.moreira.lobato@gmail.com

POEMA

encantamentos reais,
vivos ao longe,
mesmo desfocados,
asas transparentes
tremem
delicada a "flor esqueleto"
existência em cor-leite-cristal
,               sustenta meus voos silenciosos

                                           (foto: Cleber Pacheco)

POEMA 2

"Web":
posso ver e rever das nuvens
 as estradas do mundo
ouvir dos que nunca vejo
o recolher das pedras que a vida lança
com ou sem delicadeza
o querer que escolhe
o que vence delicado ou impetuoso
o que se arranja sem arrogância
pouco a pouco copiando
a beleza dos tons
daqueles seixos
rolados nas águas distantes



terça-feira, 19 de março de 2019

Resenha



   Depois do sucesso de A Garota no Trem, a escritora Paula Hawkins  publicou o romance Em Águas Sombrias ( Into the Water),que li recentemente.
   Agora ela reafirma sua capacidade para lidar com os sentimentos humanos conturbados e vai mais longe. O livro é muito interessante. Tudo gira em torno do Poço dos Afogamentos de Beckford e das mulheres encrenqueiras da cidade, encontradas mortas em suas águas. Tais mulheres movem a trama, mas as figuras masculinas não são desprezadas. Há personagens intensos e fortes, carregando também fraquezas e culpas. Todos estão envolvidos em dramas pessoais e coletivos, lutando e emaranhando-se cada vez mais, buscando saídas e soluções,tentando entender os acontecimentos. Lena, Jules, Nickie , assim como Sean e Patrick despertam nosso interesse. Nem mesmo os personagens secundários são insignificantes. A história vibra intensamente o tempo todo e nos prende, com o mesmo fascínio que o Poço dos Afogamentos exerce sobre os moradores, ainda que de maneira um tanto mórbida.
   A morte de Lena, inicialmente dada como suicídio e depois como assassinato desencadeia uma série de conflitos que na verdade já estavam latentes ou se desenrolavam sob os bastidores, numa localidade marcada pelo fluxo tentador das águas a exercerem sua influência sobre todos. Emoções fluidas, consciências turvas e atormentadas perpassam cada página, fazendo da narrativa não apenas uma história policial ou de suspense. Como Ruth Rendell ( que consegue ir ainda mais além), Paula Hawkins comprova a vocação das escritoras inglesas para desenvolver bons livros envoltos por mistérios e paixões humanas.
 
 

 

quinta-feira, 14 de março de 2019

Verbo


A Linguagem da Vida
articula
a linguagem das palavras,
o inquebrantável
na medula do sonoro,
diapasão além
da síntese: integração
a vibrar
a coluna vertebral do sentido.
( foto: Google imagens)

terça-feira, 12 de março de 2019

Nova Editora



   No final do ano passado nasceu uma nova editora, disposta a publicar bons autores e textos de qualidade.  Interessados podem enviar seus originais para o email acima.
   Faço parte do Conselho Editorial  e estou entusiasmado com este trabalho. Os primeiros livros da Coralina já começam a aparecer.


                                                  Livro de contos.

 
                                         Livro infantil.


                                                Livro de poesia.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Poesia


Acender o Sol,
moldar a terra,
inspirar a morte,
ressuscitar o tempo,
recortar a sombra,
costurar o vento,
insuflar vida
no que ela tem por dentro.

Iluminar a Lua,
clarear a luz,
molhar a água,
alagar o oceano,
recolher a note,
estender o dia,
saber qye tempo
é mais que cada ano.

Escavar o Eterno,
desdobrar o Infinito,
remendar as horas
em sua ossatura,
modelar o instante
em outra anatomia,
tempo não é corpo,
é só fratura;
reatar o todo,
transfusão de sangue,
Cosmos em curvatura.

(foto: Cleber Pacheco)



sexta-feira, 1 de março de 2019

Regaço


Pedras e sóis
em minhas mãos
acolho,
mais
do que em mãos,em mim;
sem escolha,
apenas recato,
aberto regaço
sem omissão.
"Pedras e sóis", digo
sem palavra e conceito;
o acontecido,
provisório aluvião.
Pedras e sóis
distribuo;
faz-se o mundo
Verbo e Silêncio.
Ninguém nunca recusou.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Resenha



   A literatura do século XX produziu grandes romances distópicos. Huxley, Orwell, Burgess criaram visões muito interessantes a respeito de sociedades opressoras,injustas,desumanas. Agora o século XXI já tem um grande romance nos mesmos moldes. trata-se de O Conto da Aia ( The Handmaid's Tale) de Margaret Atwood.
   Não vi a série televisiva para efetuar comparações. Mas o livro é suficiente. Diz tudo o que precisa dizer. E poucas vezes li algo tão contundente.
   A história ocorre numa sociedade teocrática estabelecida neste século em data indefinida. Leituras da Bíblia são obrigatórias. As pessoas exercem funções específicas, determinadas pelo sistema. Às aias cabe servir como reprodutoras, uma vez que uma série de problemas acabou por causar infertilidade. Sua única função é engravidar, com o consentimento das esposas, que são obrigadas a "ceder" seus maridos com o intuito de cumprir deveres de Estado.
   Longe do próprio marido e da filha, sem liberdade, impedidas de realizar escolhas,  sua vida é sem perspectivas. Num meio assim tão deprimente resta à personagem deter sua atenção nas pequenas coisas, nos detalhes, em ninharias tornadas preciosas como modo de resistência.
   Com ênfase na condição feminina, a autora nos remete às sociedades patriarcais , estabelecendo uma aguda análise das relações entre política e sexualidade. Desumanizadas, resta às mulheres buscarem brechas, ainda que mínimas, onde possam respirar um pouco. Mas é necessário estar sempre vigilante. Há riscos e perigos. Punições pesam constantemente sobre suas cabeças.
    Aos poucos a protagonista descobre as transgressões e a hipocrisia do "novo" sistema, deixando ainda mais explícita a crueldade ao seu redor. 
    Entre invejadas e desprezadas, as aias não possuem nenhuma escolha. Caso não ocorra uma gravidez, podem ser  afastadas de todos e declaradas Não-mulheres.
   Margaret Atwood faz uma análise fina, profunda, sutil e detalhada a respeito do passado, do presente e dos riscos futuros, pois os fundamentalismos estão aflorados em nossa época, assim como os extremismos, as discriminações e preconceitos. Trata-se, portanto, de uma obra muito pertinente, capaz de analisar os riscos e as ideologias dominadoras existentes em qualquer tempo e lugar.
   Quem gosta de ler e está atento ao mundo de hoje não pode perder a oportunidade de conhecer este livro.
 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Frestas


Conheço gente que não sabe nem fritar um ovo.
Conheço gente que não entende a mais simples metáfora.
Conheço gente que não consegue colocar água sem trincar o copo.
Conheço gente que sempre morre antes de despertar.

Não indico nenhum manual de instrução.
Reverencio  o que cada um não sabe.
É ali que cada um duvida do seu próprio nome.

( foto: Google imagens)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Poema em dupla


(Poema escrito em parceria com a poeta indiana Sarala Ram Kamal).

SIGNS

On the water
flowers and shadows
draw
the mysteries of the liquid
in singular art,
forms expelled
in the curvature of the instant
where wonder arises.

(foto: Cleber Pacheco) 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Frágil


Desfazer-se
em leveza,
desmentir
a consistência,
esperar a espera
sem reter,
fluir, volátil.
até o limiar,
destecer
a trama secreta
 urdida
no coração dos mortos.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Resenha


   Em 1882 Ibsen, dramaturgo norueguês,  publicou Um Inimigo do Povo. A peça só foi encenada no ano seguinte, obtendo grande repercussão. Após escrever teatro de caráter histórico sem sucesso, o autor deu uma guinada em sua trajetória, passando a fazer um teatro realista. A partir daí, sua carreira dramatúrgica ganhou realmente a importância que tem até hoje.
   A peça em questão aborda os acontecimentos ocorridos com o dr. Thomas Stockmann e sua família quando ele revela o problema da contaminação da água na estação balneária de sua cidade.  Inicialmente recebendo apoio da imprensa ( cujos interesses são, na verdade, políticos, sem nenhuma preocupação com a saúde das pessoas ), rapidamente a situação vai se modificando. Quando os interesses da classe dominante são desafiados, todas as informações são manipuladas de modo a opinião pública voltar-se contra Stockmann. E é exatamente o que acontece. Suas boas intenções e sua atitude ética são proclamadas como insanidade, jogo de interesses, etc. Seu objetivo de evitar que a população adoeça é distorcido e essa mesma população passa a tratá-lo com hostilidade. A campanha contra ele inicia com seu próprio irmão, prefeito da cidade. E vai se estendendo até chegar à classe operária.
   O texto de Ibsen é bem claro: a unanimidade é estúpida. A visão da maioria não é a melhor, pois a multidão avilta a iniciativa individual, anula o pensamento próprio, é mesquinha e cruel, não dando lugar ao diferente, não permitindo discordâncias, agindo por medo da opinião pública, além de facilmente manipulável:
   Não! A maioria nunca tem razão! Esta é a maior mentira social que já se disse! Todo cidadão livre  deve protestar contra ela (...) em se considerando o globo terrestre como um todo, os imbecis formam uma maioria esmagadora." 
   Ora, em tempos de total manipulação midiática, de fake news, manipulação de eleições ,  e de grandes corporações engolindo cérebros, como é o nosso, nada mais atual do que esta peça. Lida ou vista nos palcos, o importante é conhecer o texto e refletir.
 
   
 
 
 
 
 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Lago


Sussurros da outra
margem,
placidez
na sofreguidão do espelho,
miragem
de raízes do aquoso,
voragem
de límpido e lodo,
imagem
do etéreo
na carne da superfície,
estiagem
do tangível
no íntimo do exposto.

(foto; Cleber Pacheco)




terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Descontinuidade


Efetuei estranhas costuras
cosendo o desigual;
atando árvore e estrela,
engendrei novos bordados
em levíssima tessitura,
desencontrei botão e casa
tecendo outra túnica,
desinventei a roda
para fiar uma roca,
destituí as lagartas
para descobrir o fio.
vestido e nu pisei
por onde não há trilha,
caminhos são suaves
quando mais que desencontram.

(foto: livro antigo de corte e costura- Google imagens)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Quadrantes


Todos os crimes
já foram cometidas.

A morte se reinventa,
também o vivo.

Dormir e despertar,
tubos de ensaio.

Todas as estranhezas
cabem
no mero existir.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Antologia no Canadá



   Alguns poemas curtos de minha autoria que estão no livro ON THE WORDS OF LOVE, publicado no Canadá:

LOVE

I sit under
the sun
without clouds
and seeds germinates
on the rocks
with tenderness.

TYPHOON

My eyes filter
your breeze
and a brainstorm is born
in my calm.

LOVERS

You are my reader.
I am your masterpiece.


quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Carta a Jorge Luis Borges



                                                                                                           Amigo.

   Bem sei que não mais você próprio  lê as suas cartas, mas estou ciente de que possui quem as leia, traduzindo cada sinal, sílaba  e palavra em sons e que poderá, assim, convertê-los em imagens suas,  muito particulares, com peculiaridades somente possíveis às suas idiossincrasias e, uma vez tendo feito isso, esta minha carta simplesmente deixará de existir, transmutada em indefiníveis hieróglifos e arcaicas escrituras, incompreensíveis  aos outros, todavia perfeitamente  claras apenas para si mesmo.
   Sei,portanto, que esta carta perderá por completo o sentido para mim, nunca tendo obtido significado algum para o ser intermediário que a lerá para você e que Adolfo terá alquimicamente  transmigrado para Borges.
   Isso quer dizer o seguinte: esta carta não existe , portanto jamais poderá ser lida por alguém,  ou seja, nunca a receberá, obrigando-me,enfim, a tentar escrevê-la. Caso contrário,  acabaria por tornanr-me um sonho de Borges.
                                                                                   Atenciosamente,

                                                                                 Adolfo Bioy Casares.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Resenha


 
   Reler é tão importante quanto ler. E posso afirmar que, neste caso, depois de anos, foi uma sábia decisão pegar este livro da minha biblioteca e mergulhar em suas páginas mais uma vez.
   Com praticamente apenas três personagens conduzindo a história, Carson McCullers consegue, em A Sócia do Casamento ( The Member of the Wedding), criar um mundo intenso, em que as conversas entre Frankie, Berenice e o pequeno John Henry na cozinha nas tardes de verão refletem suas angústias, inquietações, experiências, limitações, sentimentos. São cenas de grande intensidade, reveladoras e nos tocam de modo profundo.
   A adolescente Frankie, sentindo-se deslocada, sozinha, deseja ardentemente pertencer a algo, a alguém, fazer parte do mundo, de um grupo e,em suas ilusões um tanto ingênuas, acredita que seu irmão, prestes a se casar, a levará para morar junto com o novo casal. Mal ela sabe o golpe a ser sofrido em seus planos.
      Eles são o nós de mim. Na véspera, e em todos os doze anos de sua vida, fora apenas Frankie. Era uma pessoa eu. que tinha de se virar e fazer as coisas sozinha. Todas as outras pessoas tinham um nós a reivindicar, todas, menos ela. (...) Todos os sócios dos clubes  têm um nós a que pertencem, e a respeito do qual falam. Os soldados no exército podem dizer nós e até mesmo os criminosos,acorrentados uns aos outros. Mas a velha Frankie não tinha nenhum nós a reivindicar, a menos que fosse o terrível nós de seu verão com John Henry e Berenice-e  aquele era o último nós do mundo que desejava.
   Na primeira parte do livro, ela faz seus planos. Na segunda, vive suas "aventuras" pela cidade contando a estranhos sua partida iminente. Subdividida em três momentos- manhã, tarde e noite-, é um dos pontos altos do romance. As expectativas da adolescente vão se intensificando e ela se mete em confusões. Há trechos espetaculares, construídos graças ao grande talento da autora e o ponto alto do livro é o instante em que a jovem Frankie senta-se no colo de Berenice, que é também abraçada pelo menino e há um instante de grande desamparo, de tristeza, de estranhamento do mundo e da vida, onde tudo parece hostil, distante e enigmático e todos buscam o mais próximo possível  de um acolhimento. Poderia soar piegas,mas não acontece. A cena nos comove por sua intensa humanidade, pelo revelar das fragilidades e da nossa humana condição.
   A terceira parte ocorre rapidamente, como um anticlímax e os fatos, anteriormente se desenrolando de modo lento e angustiante, sucedem-se em profusão até o final desconcertante.
   A Sócia do Casamento é, sem dúvida, um ótimo livro e merece nossa leitura e atenção. Escreveu Tenessee Williams a respeito da autora:
    Encontrei em seu trabalho uma intensidade e uma nobreza de espírito que não tínhamos em nossa prosa desde Herman Melville.
 
     

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Tradução



   O poema a seguir é de autoria de Elizabeth Esguerra Castillo e Jonathan Aquino.
   Elizabeth é escritora das Filipinas, publicada e premiada internacionalmente. Ela é membro da American Authors Association, Asia Pacific Writers and Translators, etc.
   Jonathan também é das Filipinas e tem livros e artigos publicados em sites, jornais e revistas. Escreve peças, ensaios, histórias.


SINAIS

Elizabeth:
sinais vindos dos céus
pedindo a Deus clemência
nos gritos de um'alma esbelta,condenada
ecos atravessando a noite negra como um trompete,
como os ritmos do jazz, saxofone solitário
driblando através das orelhas do amado.

Jonathan:
Borrifou-me o mar  ao sentar-me sobre a rocha,
tirei meus sapatos, enrolei meu jeans,
sentindo-me grato pela chance de conversar,
só, com Deus, a fonte do meu ser.

Elizabeth:
símbolos semelhantes a mãos
apontando a direção certa,saindo do nada,
uma nova fronteira, onde o homem abraça o amanhã,
e alguns  apenas olham-
e continuam andando em círculos
enquanto outros adentram as portas de novos horizontes.

Jonathan:
Contei-Lhe tudo, tudo o que passei,
enquanto olhava meu amado mar,
pedindo sabedoria  além daquilo que conheci
e soube: Ele realmente se importa comigo.

Elizabeth:
minha bela borboleta-
aquela que trouxe sol ao meu jardim.

metamorfose-
o fim de todo sofrimento
esperado por todos-

o fim da minha velha vida-
indo pacificamente
atravessando  a estrada para
a eternidade.

Jonathan:
Todas as minhas preces são,agora, agradecimentos.
Não peço favores, digo apenas obrigado 
pelas lições aprendidas e todas as bençãos ,
mas sobre aquela rocha pedi algo novo.

Elizabeth:
Amo o cativante arco-íris
e preferiria banquetear meus olhos em seu esplendor,
encantadores matizes como as estações mutantes
da vida  de alguém-
um sinal de esperança de novas coisas por vir.

Eu te amo

Jonathan:
Durante o tempo sagrado quis um sinal:
uma ave voando da esquerda para a direita  sobre mim.
Sua trajetória a dizer: Tudo ficará bem. 
Demorou um minuto.
Levou só um minuto, ainda assim mudei por completo.

(foto Google)
  


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Conhecimento



Redimensionar mundos
em novas órbitas
e diferentes hemisférios
é mais que projetar lunetas,
reconfigurar geometrias,
é esculpir o som do silêncio
nas crostas do impensado,
é abrir  o olho ocluso
dilatando a pupila do entendimento,
num ver que desonera
circunferência e curvatura,
retina a desinstalar o real,
pétala que desconfigura
a anatomia da flor,
arte de rastrear o raro
em singular vocabulário,
pedra de toque do abismo
na quadratura do círculo,
constelação de buracos negros
na gematria do Cosmos.

(tofo: Google imagens)

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Vertical



Estridente algazarra
de felinos no telhado.

Sob o teto,
arrastar de sussurros.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

A Arte Alquímica


Cada elemento
ou seu conjunto
traça um traço,
menos que um terço,
então dissolve,
embora ressalve,
o seu tributo,
farto rebento
e o recupera
sem apara
em novo dote,
ainda que acate
jeito antigo
em oposto âmago,
carne da sombra,
vulto da Obra,
feto do arcaico,
ancião do proteico,
ostra lacrada
em vastidão cerzida,
vingar da pérola
no antro da pedra.

 


segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Mimetismo


Os cálices,
na cristaleira,
equilibram-se
precariamente,
enquanto cintilam
à luz do sol.

Sua opacidade,
na penumbra,
restitui,
ao restante da mobília,
imprevista verossimilhança.

(foto: Google imagens)

sábado, 22 de dezembro de 2018

Resenha


    O livro A Arte do Romance é, na verdade, uma compilação de nove textos que a autora publicou em diferentes meios, como o Times Literary Supplement , por exemplo. E é um grande prazer ler todos eles. Com inteligência, humor e um olhar afiado, a autora fez reflexões a respeita da leitura e da escrita.
   Uma questão fundamental  é o prazer da leitura. Para ela resgatar isso é mais importante do que a erudição. O leitor comum (nem especialista ou sedentário, isolado do mundo, vestido com seu roupão e meio misantropo), é aquele que lhe interessa. O leitor que sabe mergulhar num livro, encantar´-se com a narrativa, com o poema, com a vida de outras pessoas ou personagens, que consegue saborear capa palavra e cada página é precioso. O encantamento com o livro é a sua tônica e, no mundo de hoje isso é ainda mais necessário.

    (...) estar numa grande livraria , cheia de livros tão novos que as páginas ainda estão quase coladas e o dourado das lombadas ainda está fresco, desperta um entusiasmo tão prazeroso quanto o velho entusiasmo da banca de livros usados.

   Virginia também escreve a respeito de poesia, teatro, biografias, romances escritos por mulheres com sagacidade e de modo prazeroso, principalmente para quem também sente um autêntico amor pelos livros.
   Outro trecho importante que encontramos num dos textos:
 
   O romancista - tal é seu mérito e seu risco - está tremendamente exposto à vida.

   Então ela afirma a respeito do valor de um texto literário:

   Para sobreviver, cada frase precisa ter uma pequena centelha  em seu cerne, e essa centelha, por arriscada que seja, o romancista precisa extrair das chamas com as próprias mãos.

   Com muios trechos memoráveis e páginas deliciosas,  A Arte do Romance deveria ser lida tanto por escritores quanto por leitores apaixonados por literatura.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Negativo


Minha sombra procura
meu corpo ausente
na cadeira vazia
que não está lá.

A cadeira sustenta
quatro pernas dementes
no chão abrasivo
onde solo não há.

O chão recupera
memória e mobília
na forma esquecida
que ainda virá.

(foto; Cleber Pacheco)

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Internacional

 Sou um dos ilustradores da antologia poética Aatish, que será lançada na Índia em 2019. O livro é fruto de um concurso literário. Será um dos lançamentos mais importantes do mercado editorial indiano.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Revista



A partir de agora, sou um dos colaboradores da revista bimestral SOPHIA, que trata de temas nas áreas de Ciências, Religião e Filosofia.
 A revista pode ser adquirida nas bancas ou por assinatura.
 O número 76 traz um artigo meu intitulado Dualidade e Unidade.  
 

segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Escritas


Às vezes é necessário
escrever sob
a chuva.
Enquanto alfabetizamos
poças d'água,
deciframos
o palimpsesto da lama.

Às vezes é necessário
escrever sobre
a areia,
para que possamos recriar
a lucidez do vidro.

Às vezes é necessário
utilizar a neve
para que o frio
 calcifique
a aprendizagem dos ossos.

(foto: Cleber Pacheco)


quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Intimidade


Para ir ao trabalho
estou sempre atrasado.

Passear no sol
pode ser um sacrifício.

Mergulhar no lago
é uma impossibilidade.

Fecho os olhos,
abro todos os portais.

(imagem: google)

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Sonho


O espelho sonha
com o eco das sombras
sondando reflexos
no inacontecido,
compondo quadros
ao inexistente,
escavando esculturas
ao nunca.

O espelho sonha
com o sonoro,
converte o intervalo,
compõe o impossível,
sinfonia do silêncio
no alfabeto dos cegos.

(foto: Google)

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Deserto



Sol de areia e ossos
cozendo
o calcinado cerne do nada,
desventrando
o nu,
o avesso do escaravelho
fundindo
a carcaça do vazio
em vestes de grão e medula.
Areia e ossos
a engendrar
um outro sol
nas entranhas do ermo.

(foto: Google imagens)

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Livro


Estou inscrito
em tuas córneas,
impresso
em teu aroma,
encadernado
em tua história,
recitando
as tuas Escrituras.
Estou traduzido
em todas
as línguas arcaicas e modernas.
Lemos
um ao outro
(inclusive em código morse
e snais de fumaça)
como os videntes
leem
as folhas de chá.
Rupestres, cibernéticos,
escrevemo-nos
na Biblioteca do Tempo.

(imagem: Google) 

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Microconto: Teologia


Os Doutores da Lei discutiam entre si. Um grupo defendia que é preciso usar apenas dois dedos para abençoar enquanto o outro afirmava categoricamente que se deveriam usar três dedos.
Enquanto isso, o menino colocou a sua mão sobre a testa do homem doente e o abençoou.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Sombra


Um mundo escavado na sombra
que se dissolve
no concreto das coisas
dissimuladas.

Um aviso
feito de assombro
recorrendo aos espasmos
do esquecimento.

Um soluço ígneo
na intimidade do claro
tatuando o obscuro.

(foto: Cleber Pacheco)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Súbito


A vida é tão antiga
que perdeu sua validade.
Tão velha quanto,
a morte se aposentou
por invalidez.

O dia é neutro
e veste roupa branca
para quarar ao sol.

A terra incha
seu ventre,
o abismo abre
fundas goelas.

Nunca e sempre
despem-se
 disfarçados em quando. 

(foto: Cleber Pacheco)

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Mito de Cassandra


Dito foi. Mais uma vez
e outra.Não adiantou.
Nem profetizar preciso.
Basta ter olhos,como Tirésias.
Mas não veem nem ouvem
os homens. Falar não sabem.
Lascivas são suas línguas.
Dito foi e tanto que confundida
se tornou toda pronúncia.
Babel e monólogo, o homogêneo
inverossímil. Nem os criptógrafos
decifram-me. Mais feliz
foi a esfinge. E o que havia
para ser entendido? Mínimo
deveria ter sido o esforço; eis
a chave.Bastaria.Ninguém
 ousou. Do simples não se extrai
o sumo,dizem.

(imagem: Google)


segunda-feira, 12 de novembro de 2018

A Grande Obra (IV)


Há um desvendar-se
na gratidão
de desconjuntar-se
sem a disjunção,

modo de abrir-se
refazendo o jeito
de enfim cobrir-se
com o não-feito.

Há um desvendar-se
refinado no apuro
ao contaminar-se
com o que há de puro,

modo de lacrar-se
desfazendo o feito
e enfim tonar-se
o avesso do direito.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

Coração



Para que a noite amanheça
inaugura e rememora
é certo que o agora
é corpo sem cabeça
sabe que um poço
é um olho e um pescoço
e então repete
setenta vezes sete
à esquerda outro zero
à direita o tom sincero
assim anima e tolhe
o que planta e o que colhe

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Resistência



Eles posam para retratos
armados até os dentes,
sorriem e,aplaudidos,
escancaram a sanha dos brutos
no insano cio das bestas
que fecundam as presas da barbárie.

Não farei retratos,
não portarei armas,
não venderei a alma ao diabo.
Portarei livros
e a sanha da escrita,do verso
na seiva fina da poesia.

Estarei vertido em pedra e nuvem,
destilando o tremor e a treva
até verter todo o orvalho
que só o fardo do sutil carrega.

Estenderei, com firmeza, os braços
sobre a matéria fria do intangível
cravando o espírito da carne
na transubstanciação das entranhas
até fazer nascer a chama do poema. 

(foto: Cleber Pacheco)

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Save

#SaveBrazilianDemocracy

Resenha

   Rainha de Katwe escrito por Tim Crothers surpreendeu-me. Não se trata de um livro com preocupações literárias, mas preocupações humanas. Pensei que seria a clássica história de alguém que supera as dificuldades e se torna um grande vencedor, ressaltando a meritocracia e o louvor ao sucesso. Felizmente foge aos estereótipos.  Não vi o filme. Talvez este se enquadre  dentro do sistema típico de Hollywood.
   Felizmente o autor consegue mostrar todas as dificuldades de um país esquecido que o mundo insiste em fazer de conta que não existe. E entre os párias, a favela de Katwe, onde muitos não têm água, energia elétrica e fome é uma realidade diária. Pária entre párias, está a menina Phiona, que luta para sobreviver num ambiente sem perspectivas ou esperança.
   Sua história é narrada de modo comovente e sem sentimentalismos, sem final apoteótico e todo mundo batendo palminha como se tornou comum no patético imaginário fake criado pelos padrões vigentes. Trata-se de uma realidade crua,dura, incerta, repleta de pessoas com trajetórias sofridas, em situações aparentemente inacreditáveis para aqueles preocupados com o mundinho fashion, carros importados e clubes da moda, celebridades vazias que nada têm a acrescentar.
   Katende, o treinador e Phiona, a discípula, são exemplos de pessoas que nunca tiveram nenhuma facilidade em seu caminho,mas possuindo capacidades e talentos adormecidos, que nunca viriam à tona se não houvesse alguém para valorizá-los e que  vão sendo trabalhados, passando por superação, descobertas, iniciativas e, no caso dela, a miséria sempre presente, mas sem nunca esquecer a generosidade.
   Trata-se de um livro capaz de resgatar os rejeitados deste mundo, ainda que fique em aberto quanto aos rumos futuros. E isso traz ainda mais vida ao relato, tornando-o um convite à reflexão e fazendo com que voltemos nosso olhar a um continente injustiçado, com guerras civis,morticínios, exploração cruel de empresas multinacionais e que ainda serve como depósito de lixo de países que se dizem civilizados. 
   Um livro para quem ainda não perdeu sua humanidade.