quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Viagens

(imagem: pintura de Jeffrey Smart)

Toda viagem
requer traçados,
ainda que tortos,
reverter atalho
é revidar estações,
seguir,ir adiante,
ainda que impossível,
arremata trajetórias
para além do inviável.

Viajar é sempre
mais que viagem,
fundar
de muitos rumos
sem malas e bagagem.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Poema


Na foz da Fronteira,o deslimite.
O maior no incluso do mínimo.
No reverso das coisas,o translúcido.
O que reverbera, anuncia.
Adiante, mares,desertos,florestas,não o excesso.
Apenas aqui o adiante.
O limite.

sábado, 2 de dezembro de 2017

A Arte do Silêncio


Esboça,o silêncio,
um outro esboço,
polpa da inconstância
e seu caroço,

volver do desnutrido
em abundante,
fecundar do castrado
em fruto-instante,

figura sem traço
em nova norma,
cria sem berço,
nudez de forma.

quarta-feira, 29 de novembro de 2017

AUTOR CONVIDADO


   FERNANDO MAROJA SILVEIRA nasceu em Belém do Pará. Estreou nas letras em 2015  com o livro Cinzas. Publicou poemas nas revistas Zunai,Subversa e Caliban.
    O poema selecionado faz parte do seu livro O ESCRAVO DO VAZIO publicado pela editora Penalux  em 2017.

O CANTO DA AREIA

Elevar-se,
mas não pela teia que prende as estrelas
na masmorra do céu.
Não pela escadaria do trovão,
desmantelada no galopar da chuva,
quando as gotas saltam como os cavalos,
para derrubar o homem
no tabuleiro de xadrez.

Elevar-se,
pelo canto da areia
e chegar ao topo da pirâmide,
onde apenas o extremo do vazio se equilibra:
ventania,bailarina.

Elevar-se
pelo canto da areia
e chegar ao deserto,
o único lugar fora do tabuleiro de xadrez.


 

Moinhos




Moer de treva e trigo,
distintos nomes
de fartura e miséria
na mistura das insanidades.

Gerar,colher,triturar
no sem fim dos estigmas
e do abandono.

Eolizar
 do pão e do espúrio
na transubstanciação
das tramas do vivo.

(foto: Google)

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Gótico


Atravesso
pântanos,
testemunho
a queda da casa de Usher.

Miram-se
os espelhos
emitindo
mensagens em código.

Murmúrios corroem
as pardes,
sombras apagam
reflexos,
a vida se refaz,
não se constrange.

Nos espelhos
a morte habita
sem nunca pedir excusas.

(foto:Google)

domingo, 26 de novembro de 2017

Arte de escrever


Escrever
é regurgitar
silêncios,
decodificar
enigmas,
despistar
clarezas.

Cada
letra,,
palavra,
verso,
reanima
calor
 de vísceras.

Frase,
página,
eterna viagem
de ir e vir,
entorpecimento
e despertar.

(foto: Google imagens)

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Compra e Venda


Compra-se homens
à vista e à prazo,
a perder de vista.

Material barato,
econômico,
reutilizável,.

Vende-se almas,
convicções,
retórica.

A  noite cai
sobre
o mundo
e não respira.

(imagem: Google)

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Iminência



Escorregar,cair,
quebrar
os dedos,
expelir
cálculos renais,
morder
o lábio até sangrar.

A qualquer momento
as veias rompem
e a vida vaza
entre estrondo e silêncio.

(foto: Google)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Krajcberg


A natureza da arte
na arte da natureza,
maestria das formas,
o triste transmutado
em beleza,
a vida escavada
nas veias da morte,
o escrutínio
do lúdico
na devastação dos extremos.
Krajcberg,
um hino à presteza
do existente.

(foto: escultura de Frans Krajcberg,falecido ontem. Artista polonês naturalizado brasileiro).

domingo, 12 de novembro de 2017

poeSIA



Há milênios
matam
a beleza.

Ressuscita
a poesia
a cada dia.

(imagem: google)

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

TUDO


Tudo acontece em tudo,
tudo é fricção e memória e medo,
tudo devora,constrange, reitera,
tudo acusa,falha,expira
tudo afunda,voa,soterra
em rito,ritmo,rapto,
tudo sequestra,regurgita,é famélico,
tudo expõe,esconde,penetra,
tudo é prestes a ser
um palor de fogueira acesa.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Sinais


Sagradas geometrias
fundam
o reino e suas astúcias,
exigindo chaves,insinuando códigos
para a tessitura
do que ainda não foi composto,
sinais
que desencadeiam
inúmeras moradas.
Benditos os geômetras,
decifradores da clareza,
artesãos do ensaio
do viver quotidiano.

(Imagem: Google)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Pontes


Atravesso pontes de neve
sobre lagos de fogo

O céu é devorado pelas nuvens
Meus pés são engolidos pelas chamas

Fenecem flores ao longo do caminho
Colho sementes de gelo

(foto: Google)

domingo, 5 de novembro de 2017

Resenha


   O livro FAUSTO COM RUGAS de Cristina Ohana publicado pela editora Penalux merece ser lido com atenção. Nele a autora revela grande domínio da linguagem e da narrativa,fazendo uso de capítulos curtos,densos,plenos de expressividade. Aliás, sua capacidade expressiva impressiona: as palavras são selecionadas cuidadosamente,os contrastes de luz e sombra possuem força,impacto,nos marcam.
   Esta nova versão do pacto fáustico revela um personagem senil, incapaz de se entusiasmar pela sede de conhecimento,como no clássico goethiano, uma vez que já viu tudo,já experimentou de tudo e padece de cansaço,de fastio,de saturação,embora incapaz de impedir o fascínio que a existência  exerce sobre ele e ainda almeje a juventude eterna. O mundo lhe causa náusea e,ao mesmo tempo, o atrai. Dor e gozo,nojo e fascínio se mesclam,descrente já do humano e no entanto impotente para impedir sentir-se atraído por suas possibilidades.
   Livro contemporâneo e atemporal, faz uma re-avaliação da condição humana, passando por antigos mitos:

   Repetiremos todos os dias a expulsão do Éden.
  
    O diálogo entre Fausto e o diabólico pode,aqui,representar uma divisão interna,um conflito jamais resolvido entre o bem e o mal, entre a bestialidade e o inefável,entre o monstruoso e a beleza existentes em cada um de nós. Apesar da passagem do tempo,os nossos dramas permanecem essencialmente os mesmos. Muda a maneira como os vemos,como lidamos com eles, influenciados pelo espírito próprio de cada período histórico. Deparamo-nos,assim com um Fausto decadente,mas cuja energia vital ainda teima em manter acesa a sua chama.

  Além das referências bíblicas,o livro também se utiliza de um vasto conhecimento, que passa pela alquimia,pelos princípios herméticos, antigas civilizações, a filosofia,sexualidade, Dante Alighieri, Kafka,etc. Apesar de breve, a leitura exige fôlego e conhecimento para a sua completa fruição e compreensão, enriquecendo-a ainda mais.
   Em tudo isso permanece uma das questões centrais do romance de Cristina Ohana: a necessidade de expressar-se,a necessidade do poético num mundo onde a poesia parece não mais ser possível.
    Por tudo isso eu diria que se trata de um texto significativo e é mais uma bela publicação da Penalux.

   

sábado, 4 de novembro de 2017

Rimbaud


Menino poeta
a vislumbrar
realidades outras,
naufrágios,sonhos,
distantes terras,
fulgores infernais.

Menino vidente
a ver o invisível,
a criar
mundos impossíveis
na carcomida carne
do poema.

(foto: Google)


quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Silêncio


Afinar-se
no silêncio,
eloquência do mudo
na fineza dos intervalos,
retirar-se
e estar presente
na vibração do vivo.

Sinais
a se fundirem
nas harpas do límpido.

Fundir-se
é calar.

(imagem: a pintura Silêncio de Richard Bergh)

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Des-velar


Não está velado
o Real,
quem precisa
se desvelar
é você.

Cada véu
que se retira,
cada olho
que enfim vê,
toda camada
que se penetra,
o infindo fluxo:
perceber.

(foto: Google)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Vísceras


Crueldade
à vista e à prazo,
para todos os gostos,
oferecendo,de modo suculento,
as vísceras do mundo,
suas dores e aromas,
seus cancros e cuspes.

Tudo está dito,
falou alguém
antes de fechar a última página.

O mundo sangra
e não cessa.


sábado, 28 de outubro de 2017

Labirintos


São muitos
os nomes do medo,
maiores são
os tons da tristeza.
Vida é vínculo
e aliteração,
tempo é fragmento
e presteza.
Emaranhados
sempre desnudam
a precariedade
das certezas.

(Arte de Cleber Pacheco)

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Cuidado; Frágil


Frágil é a forma,
seus recônditos de beleza,
sua insanidade.

Mais frágil
é o instante
que se quebra
agudo e seco,
desfeito
em gestos insepultos.

Exstir
se consuma
na liquefação
dos pontos de fuga.

( foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Díspares


Cibernético e arcaico
se abraçam,se cospem
em mútua adoração,
num rejeitar-se descontínuo,
ramificar
onde o oblíquo
se encontra:
desfazer quimeras, criar monstros,
o fortuito parindo
idênticas desigualdades.

(Foto: Cleber Pacheco- Sombra de uma parabólica incidindo sobre antiga carreta)


segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Clarice


Sabes
os sentidos do mistério,
perpétuo enigma,
decifração de tumbas,
pulsação do túmido.
Vives
sempre
em todas as coisas,
mesmo as não anunciadas
e destituídas,
as mais exóticas e banais.
Agora
teu silêncio
é só um detalhe
a ser inscrito
na vibração do vivo.

(foto de Clarice Lispector- Google imagens)

sábado, 21 de outubro de 2017

Tempo



Este não é um tempo
de recatos,de amenidades,
 tempo isento de
 fineza e sobriedade,
gasto,roído,estilhaço
de penúria e cólera,
 tempo de cingir  rins e ranger  dentes,
tempo de naufrágio
sem ilhas,
 de irrisão e ruína
a vasculhar escombros
na brutalidade do agora.

(imagem: Google)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vislumbre


 Nem dia ou noite,
nem luz e treva,
distensão de enigmas
a se entrecruzarem
na abside do instante.

Furor do insidioso
no que não tem norma,
lapso de agora
em desonras de sol e lua.

Entreato,
vínculo do que de tudo
foi desvinculado
em ferocidade de clavícula exposta,
fulgor do opaco
nos descaminhos do íntimo.

(foto: Cleber Pacheco)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Frágil



Tudo
se esboroa,
cai,
fenece.

Todo dia
é dia
de morrer.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

BRUTO


Não bruta é a pedra,
o seixo,mais bruto
é o homem em suas artes de besta,
mais bruta é sua verve
calcinada de veneno,
sua honra espúria,
sua insaciedade de sangue,
mais bruta é a viuvez
da delicadeza em fragilidade
de fio.
Rara é a pedra,
ainda que não lapidada,
em sua aspereza e  crua saliência,
reavivando as ranhuras do corpo
estiolado nas agruras do instinto,
em fragilidade e nudez irrestrita
diante da desumanidade do humano.

(foto: Google)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Árido

 Pode,o árido, ter a sua sina,
embriaguez seca de modos,
fatalidade de discernimento,
sem calor ou brasa ou sumo,
capaz ainda de reverter
o avesso à sua face,
criar raiz e entrave nas frestas
do mundo.
Aridez,
um outro oásis de possíveis.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 14 de outubro de 2017

AUTOR CONVIDADO



   TIAGO PAREDES nasceu em Valpaços, Portugal.  Atualmente está terminando o Curso de Programação de Sistemas Informáticos . A sua grande paixão é a literatura.


Receita para uma vida inspira a luz que te oculta expira a escuridão que te ilumina ofusca os que pensam elevar-se mostrando que entre os homens não existem vales nem tampouco colinas bebe das estrelas que o tempo calcou explode na imensidão do silêncio que pesa faz-te lua colado à planície dos mares e descobre em ti a natureza que por lá navega

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Efêmero


Desfazer-se
é próprio das coisas inconclusas:
o inacabado tende a despir
as carcaças do abandono
em vestimenta de osso e treva.

É próprio dos acabamentos
a busca pelo destituído,
nutrir de chão sem solo
e céu sem firmamento,
fossilizar de vapor em âmbar.

Restituir
é só um modo
de reiterar a redundância
do ausente.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Saber


Saber
é mais do que modo
ou estar em contato.

Saber
é tornar-se
a coisa,
não só olhá-la ou vê-la.

Saber
é mergulho
e corrente.

Voragem
que assombra e expande.

Saber
não é culto,
é fluxo.

(imagem : Google)

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Salto


Dar o salto
que se desconhece,
onde não se sabe
em que se investe,
pulo,
forja,
ir adiante,
repensar
de escuro
mesmo sem antes,
depois desvestido
em recesso e espanto,
esculpir de fio
em tessitura de abismo,
medo tecido no encanto.

(foto: Google)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Arte


Obre de arte
é a vida,
o instante,
é o que vibra
em foco e sentido,
revelação a nutrir
todos os espaços.

Arte,
a agonia e o êxtase
de existir e ser
na varredura dos quadrantes.

(imagem: pintura de Alexandre Brun)

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mundo


Profano
é o mundo
em sua avidez.

Cegos e tolos
a arder
em vão.

Vida:
misto de Eclesiastes, Gênesis e Apocalipse.

(Foto: A Sagrada Família- Gaudí- Google).

domingo, 1 de outubro de 2017

Fadiga


Limites, êxodos,
circunscrições e circunferências,
âmbitos que se desfazem,
repovoam,
recuam.

Momento
de esgotar-se
em limo,em agonia,em dano,
espírito carcomido
de amplitude e fastio.

Exaurir
de acúmulos
no retinir dos desatinos.

(foto: google imagens)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

ILUSTRAÇÕES E DESIGN

    Já mostrei aqui no blog fotografias de minha autoria,assim como desenhos e pinturas.
    Hoje estou postando as ilustrações de autoria de Fabiano Pacheco Barbieri. Ele  é designer  e reside em Balneário Camboriú-SC.  Já fez capas de livros e cadernos. Ele ciou em primeiro ligar no concurso Fimar 2016 Yacht design & moda náutica  Categoria Profissional.

                                     

















                                        ( Imagem do projeto vencedor- concurso Fimar 2016)




quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Escritas


Do mais antigo,
a escrita
a reavaliar o vivo,
redimensionamento de palavras,
ordens,oráculos,
um fazer fortuito
a desfazer o definido,
a elaborar o novo,
arcaico e vanguarda
em comunhão de tempos.

(foto: google)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Perambular

O mundo
a corroer
almas,
perambular
de drogados,vadias,
aglomerações
de mortos.
Derruir
de corpos
no desnutrir dos vazios,
elisão
de luz
no furúnculo da treva.
Mundo
a se esvair
em ácido,infâmia e nada,
fábrica de ocos
nos descaminhos
da humana miséria.


(foto: Google)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Ir


Ir
aonde
ninguém
foi.

Respirar
debaixo
dágua.

Escalar
o abismo
sem fundo.


o
impossível
remove
montanhas.

(imagem: Google)

sábado, 23 de setembro de 2017

Estigma



Iluminar
a forma
atravessa
camadas de alumbramento e treva,
insanidade
revestida de ordem
e dramaturgia,
saliência,reentrância,
cor que se desvela,
consistência inundada
de impalpável,
redundância
de estigmas
assinalando o mapa do sensível,
transitório
que se desdobra
em dicção e sintoma.

( imagem: pintura de Santiago Rusiñol)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Resenha


ENTES

Este é um prato cheio para os psicanalistas que todos somos.  Cleber Pacheco nos faz ver o que escreve, como um  García Márquez, e é tão... surreal quanto ele e Lorca e Zé Limeira, além de sombrio feito um Augusto dos Anjos ou Poe. Li o livro como se estivesse vi/vendo o thriller de um sonho de garoto,  cheio de visões à Odilon Redon, como Lua olho que tudo penetra tudo vê, ou à David  Lynch, como legiões de entes revirando-se numa toca deflorada no solo, em que se poderia ouvir  lamentos dos danados. Olha só: “Toca boquiaberta”,“o velório da tarde”, “babas do obscuro”, “Bulício da mata,  ganância da noite”:  pepitas na escuridão em que se sente uma inquietação vazando pelas frestas e onde  soam hinos que não são ouvidos.
ENTES é um pesadelo, na verdade . Por que? Porque não se trata de remexer de folhagem ou bicho, de vasculhar de brisa, de fustigação de besta. Não é em volta dele, nem diante ou atrás, é dentro.
Dentro.
Daí que nunca se sabe, nesse suspense, o que de fato se passa, qual a anatomia do acontecimento.  Séculos atrás devorei, no Tesouro da Juventude, tudo aquilo que o garoto Lúcio ouve ao ligar um mero aparelho de rádio que ele torna... estranho.  Dentre chiados zumbidos roncos, regurgitava, o aparelho, uma voz – dizendo coisas que eu lia fascinado, no “Livro dos Porquês”, da coleção:
       
       Você sabia que as minhocas são hermafroditas? De onde veio a água que existe na Terra? Como os favos das abelhas viram hexágonos? Quais são os animais extintos que ainda podem estar vivos?  Qual a idade da Terra?
Mas lá vem o terror:
Corria a menina Alice enquanto gritava a rainha em seu encalço: Cortem-lhe a cabeça.

Comece a ler. Os ENTES de Cleber o esperam. Com gula. 

(Texto de Waldemar José Solha).

quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Abandono


   O olhar irritado do dono da livraria faz com que eu me retire. Nenhum livro levo comigo.Nunca compro.Só preciso estar ali de vez em quando. Ou no local onde fazem sanduíches. Costumo comer sozinho. Ou na praça,onde admiro a chafariz e a seguir me afasto. Visitar sempre os mesmos lugares fornece uma falsa sensação de familiaridade.De fato falsa,pois sempre me olham com hostilidade e acabo me retirando.Mesmo que permaneça sempre num silêncio discreto.
   Vejo agora a mulher solitária a perambular também pelas ruas,sem rumo. Talvez esteja bêbada. Reconheço os solitários a quilômetros. Todos conseguem sustentar o mesmo aspecto devastado de quem não tem para onde ir.
   Então aproxima-se um carro com dois desconhecidos dentro. Eles param e me oferecem uma carona. Algo parecido nunca aconteceu antes. Ambos mantêm aquele ar desolado  semelhante ao meu. Aceito.Entro e damos voltas sem trocar uma só palavra.
  Súbito o carro vai rumando para a saída da cidade. Na calçada avistamos um garoto,com aspecto sujo. O carro aproxima-se dele,um dos passageiros abre a porta,o menino entra.
  Seguimos até nos afastarmos completamente de qualquer vestígio de civilização.
   Na quietude da noite, os pneus deslizam sobre o asfalto.
   Depois de horas, avistamos uma descida e o mar lá embaixo. Sem motivo aparente,estacionamos.
   Desço até a praia,percebo que o garoto me segue. Num impulso,seguro a mão dele e trilhamos o caminho sem olhar um para o outro. Ele aperta os meus dedos.
   Ao chegarmos,descobrimos uma construção de pedra.Abandonada.
  Entramos,explorando o espaço. Ele não larga a minha mão. Não há nada ali para ver.Apenas paredes e janelas trancadas. Pelas vidraças contemplamos o mover das águas.
   Com habilidade,largo-o, puxo a porta emperrada que ele não conseguirá abrir e o abandono sozinho lá dentro.
   Vejo pela última vez o rosto de olhos apavorados.
    Volto a subir.Embarco no carro ainda à minha espera.
    Partimos.

(imagem: Google)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Expansão



Fusão de flores,
cor em expansão,
aroma.

Mulher em atrito
de terra e sementes,
plantar.

Jardim.
magia de rizomas.

(imagem:  pintura de Jacques Tissot)



sábado, 16 de setembro de 2017

Nativo



Também sou nativo,
anterior a Adão,
nutrindo e nutrido
caça e veneno.

Feroz e pacífico,
guerreiro e xamã,
ingênuo e sábio
como quem bebe das fontes.

Restrito e amplo,
sereno e rebelde,
aguardo
a inseminação do genuíno
nas corrupções do mundo.

(foto: nativo brasileiro- Vincenzo Pastore

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Nação


Ratos invadem
o país,
roendo a roupa do rei,
roendo a roupa do mendigo,
roendo os alicerces
do que se esboroa.

Morre
a Nação,
carcomida de podridão , apatia e nojo,
em beatífica imbecilidade.
A verdade definha
nas mentiras vendidas
a peso de ouro.

Danação.

(imagem: google)