quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Fluxo


É sempre distante a nuvem
ainda que líquida.
Encharcar-se na chuva
não é tocá-la.
Sorver o aquoso
não é ingeri-la.
Mirar a nuvem
não é retê-la.
Nunca a nuvem
se regenera:
degenerada dissolve
o que a declara:
nada nega o maciço,
recuperar-se é ser rara.

( foto: Google imagens)

domingo, 24 de novembro de 2019

Resenha


   AS NOVE PÁGINAS DE ALBERTO SILVA  do escritor ÁDLEI CARVALHO foi o primeiro romance publicado pela Editora Coralina.
   O livro abarca vários anos  e narra  tanto a história de Alberto Silva  quanto do seu pai, um português que embarcou clandestinamente para o Brasil e aqui constituiu família.  São trajetórias marcadas por acontecimentos históricos  em que a política acabou interferindo de modo decisivo na vida dos personagens., deixando marcas  impossíveis de serem apagadas.
   Tanto na época do governo de Getúlio Vargas quanto nos anos 60, períodos caracterizados por ditaduras, as histórias são contundentes e muito significativas.  Ninguém fica impune aos acontecimentos: nem personagens nem os leitores. A leitura, aliás, vai nos envolvendo e acompanhamos com nítido interesse  as peripécias e as dificuldades enfrentadas, os desafios e perigos , assim como todas as emoções suscitadas.
   À medida que os fatos se sucedem,  nossa curiosidade é aguçada e a tensão aumenta, gerando expectativas. A narrativa prende do começo ao fim.
   Todavia, o romance não é apenas um apanhado histórico, vai além. É, sobretudo, uma história  muito humana, de sofrimentos,  conflitos e sentimentos marcantes. Em meio a tanta violência, o amor permanece e vai costurando os acontecimentos , conduzindo a narrativa até o final marcante.
    Dentre todos os personagens, a meu ver, Sumiço é um grande destaque. Pode-se afirmar que já é um dos personagens inesquecíveis da  Literatura Brasileira.
   O final do livro comove. Confesso que acabei indo ás lagrimas. Não há como evitar.
   Um romance significativo, necessário e corajoso neste período de obscurantismo e de democracia fragilizada, denunciando o horror da prepotência e de qualquer ditadura.
   Merece nossa leitura e atenção.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Conto: Panorama


   Restam apenas doze mirantes para se admirar a vasta paisagem. Os outros já ruíram faz tempo. Dos doze, três encontram-se em estado precário. Sua instabilidade é visível. Podem desabar a qualquer momento.Melhor evitá-los. Os outros nove mirantes  são utilizados por algumas pessoas. Ou melhor, dos nove restantes, um foi coberto pela hera e pelo musgo; outro foi ocupado por um grupo que se recusa a sair dali; o terceiro é disputado por dois grupos diferentes; o quarto ficou esquecido; o quinto está sendo dilapidado aos poucos, servindo como lenha; o sexto  está sendo devorado pelos cupins; o sétimo foi comprado por alguém que mandou fechá-lo para uso exclusivo; o oitavo serve de abrigo aos poucos animais restantes; o nono é visitado aleatoriamente por um poeta chinês  que contempla as crateras da lua.

terça-feira, 5 de novembro de 2019

Ondas


Flores de espuma dissolvendo-se
num jardim líquido.
Prisma de rumores ecoando
na carne do instável.
Entrecruzar-se de escritas
anunciando  abismos.
Sinfonia assimétrica
de rumores e ritos.

Ondas, polinização do efêmero
nas colmeias do eterno.

(imagem: Google)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

FRIO

Vento, chuva, neve
redesenham a floresta.
Cada árvore é travessia
de seiva e assombro.
Sobre o branco cintila
a noite transfigurada.
O viajante desbrava os ritos
de uma novidade ancestral.
Cada rota é um delírio
de neve e  nuvem. 

( foto: Google imagens)

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

Resenha


 
    No ano passado li os romances distópicos. Ainda faltava FAHRENHEIT 451 de Ray Bradbury, que encontrei somente agora.  Havia assistido à versão cinematográfica dirigida por FrançoisTtruffaut e gostado muito. Nesta leitura é possível observar detalhes omitidos no cinema.
   Bombeiros cuja tarefa não é mais a de apagar incêndios e sim incendiar livros, considerados inúteis e perigosos numa sociedade de um futuro próximo é o plot da história. 
   O personagem  Montag, um dos bombeiros, incomodado com sua tarefa, tem a curiosidade despertada: o que haveria nos livros que incomoda as autoridades e as pessoas? Totalmente alienada, a população acha perfeitamente normal destruir aquelas coisas perturbadoras. Quando, num gesto de revolta, Montag decide ler um poema para as amigas de sua esposa  Mildred, uma completa desmiolada, causa diversas reações: repulsa, revolta, choro convulsivo. Elas preferem acompanhar tolices apresentadas nos telões, que transmitem programas imbecilizantes, lembrando os reality shows de hoje em dia.
   Em ADMIRÁVEL MUNDO NOVO, de Huxley, os livros também são hostilizados. Bebês são condicionados a jamais se aproximarem deles. Fechados numa sala, recebem descargas elétricas quando tocam um livro. Nas distopias, cultura e conhecimento, pensar e refletir tornam-se coisas odiosas e dispensáveis. É preciso criar rebanhos obedientes e tolos para a dominação e controle.
   Montag acaba entrando em contato com Faber, apto a lhe orientar e ajudar em seu difícil despertar. Outro personagem importante é Beatty, chefe dos bombeiros, capaz de citar obras de cor e capaz também de destruí-las sem o menor constrangimento.
   Significativamente são duas mulheres que aceleram o processo de Montag de ir se conscientizando a respeito da sociedade onde habita: Clarisse, uma jovem considerada maluca, mas muito provocativa, consegue incitar sua razão e sua sensibilidade. E uma mulher cuja biblioteca é queimada pela equipe. Recusando-se a abandonar seus amados livros, prefere ser queimada viva junta com eles. O contato com mundos tão diferentes do seu faz Montag repensar o vazio de sua existência e buscar mais do que lhe é oferecido pelo sistema.
   O tempo passou, mas o romance não perdeu a atualidade. Ao contrário, sua leitura se faz cada vez mais necessária e urgente. 
 
 

 

domingo, 8 de setembro de 2019

Habilidade


Minha arte
não é importante,
disse Vincent
descascando batatas.

(pintura: Comedores de Batatas- Vincent Van Gogh).

quinta-feira, 5 de setembro de 2019

Amazônia

    A destruição da Amazônia não é um acidente, não é um acaso, não é um descuido. É um projeto. Projeto movido pela ganância, por aqueles que estão dispostos a liquidar com tudo: índios, árvores, águas, animais. Empresas estrangeiras, fazendeiros, grileiros, fazendeiros.  E um (DES)governo  hipócrita que fala em patriotismo mas vai liquidando o país e entregando nas mãos de empresários e corporações que arrancam nossa pele, nosso sangue, nossa alma.
    A destruição da Amazônia faz parte de um projeto que inclui a destruição do Ensino, da pesquisa científica, das manifestações culturais, dos direitos trabalhistas e do pensamento. Fascismo.
   A monstruosidade que está ocorrendo no Brasil em todas as áreas é um dos piores ataques à democracia, à cultura, ao ser humano que já vi.
   O mundo está cada vez mais ciente desses fatos e precisa divulgar, denunciar,  ter atitudes firmes e sérias.
   Não é mais possível permitir que isso continue.
   O Brasil pede socorro.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

EDITORA CORALINA

quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Resenha


    Mais uma releitura. Desta vez se  trata da novela AURA do escritor mexicano Carlos Fuentes.  Aprecio tanto romances longos quanto relatos curtos. Esta novela, fascinante e mórbida ao mesmo tempo, nos prende desde o início.
    Atraído por um anúncio de jornal, o personagem vai em busca do trabalho oferecido e se depara com um ambiente sombrio em todos os sentidos. Numa casa sempre imersa na penumbra, ele encontra Consuelo e a jovem Aura, cujos olhos verdes e beleza influem em sua imediata  decisão de ficar no lugar e realizar o trabalho proposto. 
    Lugar, aliás, cheio de mistérios e estranhezas, a casa e as moradoras acabam por envolvê-lo por completo, muito mais do que os decepcionantes manuscritos deixado pelo militar, marido de Consuelo. Completamente hipnotizado por Aura, ele se revolta com a atitude sempre submissa que ela mantém em relação à dona da casa. Por sua vez, envolve-se completamente com Aura, com quem estabelece um relacionamento  altamente erótico por meio de encontros não tão fortuitos quanto imaginava.
   O autor cria um clima de tensão e envolvimento com grande habilidade e suas descrições nos fazem mergulhar naquele mundo cheio de esquisitices, cada vez mais desconcertante:

   Allí, essa  figura pequeña se pierde  en la inmensidad de la cama; al extender la mano  no tocas otra mano, sino la piel  gruesa, afieltrada, las orejas de  ese objeto que roe con un silencio  tenaz y te ofrece sus ojos rojos(....)  

   Ou como neste outro trecho:

   Tú sientes el agua tibia que baña tus plantas, las alivia, mientras ella te lava con una tela gruesa, dirige miradas furtivas al Cristo  de madera negra, se aparta por fin de tus pies, te toma de la mano, se prende unos capullos de violeta al pelo suelto, te toma entre los brazos y canturrea esa melodía, ele vals que tú bailas con ella, prendido al susurro de tu voz (...)  

    Mergulhamos junto com o protagonista neste jogo de sombras fantasmagóricas a nos conduzir para uma situação crescentemente assustadora até a surpreendente revelação final.   
   O texto nos remete às antigas histórias góticas, misturando religiosidade com erotismo e fenômenos sobrenaturais. 
   Vale a pena ler e se encantar com esta pequena pérola de Carlos Fuentes.


   
      

 


   

terça-feira, 30 de julho de 2019

Resenha


   Reli recentemente Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres  e gostei ainda mais do livro. Clarice narra a trajetória do casal Lóri e Ulisses que gradativamente  tenta se aproximar, vencendo suas barreiras internas. Para isso precisam efetuar realmente uma aprendizagem.  Lóri, cujo nome é Lorelei, nos remete à personagem do folclore alemão que entoava um canto irresistível, fazendo os navegantes conduzirem seus barcos até o rochedos e naufragarem. Também nos remete à mitologia grega,  às perigosas sereias que podiam acabar com a vida dos marinheiros. E nos faz relembrar a passagem da Odisseia onde Ulisses  tapa os ouvidos dos marinheiros com cera e é amarrado ao mastro do navio para poder ouvir a beleza do seu canto sedutor. 
  No livro da autora, Ulisses é um professor de filosofia e adota certo tom professoral para com sua amada, ora se aproximando, ora se afastando, ensinando-a a superar os próprios limites, desafiando-a a experimentar a dar um passo sempre além. Assim como ela o atrai pela beleza exótica, ele também a seduz, invertendo os papéis. Por seu lado, ele precisa vencer a necessidade de racionalidade e defesa mental, enquanto Lóri tem de vencer o medo de  sentir a dor de existir, pois  pode encontrar a alegria de existir apesar ou graças à esta mesma dor. .
   Ambos precisam vencer suas próprias limitações, cada um tendo de avançar um pouco para que esta aproximação se torne possível. Trata-se de uma espécie de educação sentimental, mas é mais do que isso: é, na verdade, uma educação existencial. Aprender a viver, a sentir o sagrado e o profano e aceitar o poder e a fragilidade próprias do ser humano.
 
     Eu estou sendo, dizia a árvore do jardim. Eu estou sendo, disse o garçom que se aproximou. Eu estou sendo, disse a água  verde na piscina. Eu estou sendo, disse o nosso mar verde e traiçoeiro.

    É imprescindível entrar em contato com a vida nua e crua, desfazendo as estruturas internas defensivas. Só assim será possível mergulhar no mistério e no êxtase da comunhão com o Outro . Então não haverá Eu nem Outro, mas apenas Nós.

      Eu sou tua e tu és meu, e nós é um. 
    
      Vencer a dualidade para alcançar uma unidade, a fusão e obter a aceitação das capacidades e limitações de nossa humana condição. 

   

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Microconto; DISTOPIA

Entrou para fora. Saiu para dentro.
Subiu para baixo. Desceu para cima.
 Para sobreviver, morreu.

quarta-feira, 17 de julho de 2019

Upanishad Brihadaranyaka

Morrer sempre
para morrer nunca,
esvaziar a morte
para preenchê-la
nas intermitências
da floração do vivo,
raiz sem frutos
no pomar do Nada
que tudo engendra,
aroma de húmus
na destilaria do Infinito.

(foto; Google)

sexta-feira, 12 de julho de 2019

Resenha


   Édipo Rei é certamente a tragédia grega mais emblemática de todas. Não só por ter uma estrutura perfeita como por ter sido utilizada por Aristóteles em sua Arte Poética e estar presente nas teorias psicanalíticas de Freud.  Dizem também que a referida tragédia é a primeira história policial escrita, em que o detetive é também o assassino.  Já Édipo em Colono nos relata acontecimentos posteriores ao momento mais crítico da vida de Édipo. Os fatos agora ocorrem no período da velhice da personagem e possuem um outro tom. 
    Amparado pelas filhas Antígona (protagonista de outra tragédia emblemática) e de Ismene, expulso pelos filhos Polinice e Etéocles,  ele busca refúgio no santuário das Eumênides e busca ainda o apoio de Teseu para enfim morrer em paz. Todavia os conflitos causados pela disputo por poder entre  Etéocles e Pilinice  irão perturbar esse período final.
    Édipo recusa-se  a apoiar Polinice. Não só não suporta tamanha hipocrisia como também já não está mais interessado em acontecimentos passageiros. Seu foco agora detém-se sobre os mistérios da morte. Para ele o mais importante é a sabedoria adquirida devido ao sofrimento do que as ilusões proporcionadas pela ambição e pela tirania. A ação já não tem a prioridade em seus derradeiros passos. A reflexão  ganhou prioridade.  E em vez da intempestividade própria do gênero masculino  o que lhe toca é a afetividade do mundo feminino, pois é a atitude maternal de Antígona que lhe fortalece. Prefere também o senso de justiça de Teseu do que  o desejo comandado pela ambição de Polinice.  Se na tragédia anterior a cegueira de |Tirésias possibilita a vidência e a sabedoria , que tanto incomadavam Édipo, desta vez a cegueira do próprio Édipo lhe proporciona uma visão muito mais clara a respeito da existência humana.
   As palavras do Coro no quarto episódio da peça sintetizam maravilhosamente as questões apresentadas por Sófocles :

 Quem, ao transgredir o comedido, 
aspira ao excedente na vida  
cultiva inquestionavelmente  
a insensatez  aos meus olhos. 
Ricos em anos, 
prosperamos em dores. 
Foge o prazer de quem 
rompe as fronteiras 
do devido. 
Igualando todos, 
emerge do reino sombrio ,
o fim, 
sem bodas, sem lira, sem danças, 
a morte, derradeiro limite. 

      
   

quarta-feira, 3 de julho de 2019

Vasos Canópicos


Extrair
entranhas, ingeri-las
no âmago do provisório,
escavar
o oco, reter
o vivo nos estertores
da morte,
destilar
o eterno na conservação
dos invólucros,
mumificar
o agônico, liberar
solar barca
na longa viagem
ao coração do Abismo.

(foto: Google imagens).

sábado, 29 de junho de 2019

Resenha


   A Redoma de Vidro de Sylvia Plath é o romance escrito pela famosa poeta e narra o processo de formação da personagem Esther Greenwood, que enfrenta percalços em suas tentativas de encontrar algum caminho para sua vida.
    Tendo vencido um concurso, Esther passa um mês em Nova York, num ambiente supostamente cheio de glamour.  No entanto, a realidade é bem outra. Tudo é descrito de uma forma bem crua, sem grandes ilusões. Futilidade, vulgaridade à sua volta, pessoas interesseiras, tornam a personagem cada vez mais desnorteada. Moda, mulheres correndo atrás de homens e vice-versa, desejo de fama. Nada que possa realmente acrescentar algo à sua vida. Junte-se isso a decepção amorosa e tudo ainda fica pior. A sensação de vazio vai se agravando a cada dia.
   Esse mundo de aparências e de possibilidades trazem inúmeras dúvidas. Qual o melhor caminho a seguir? Qual a sua vocação? Vale a pena escrever poesia?
    As situações se sucedem de um modo nem um pouco lírico ou romantizado. Até mesmo testemunhar um parto não transmite nenhuma sensação maternal ou de afeto. É uma cena meio grotesca e sem sentido.
As escolhas das outras pessoas sempre possuem um caráter de estupidez, de falta de sentido, adquirindo, no máximo, um caráter  simplesmente tosco. A vida é uma sucessão de acontecimentos que parecem não levar a lugar algum.
   O resultado de tudo isso é que, ao retornar para casa, Esther sente-se completamente perdida e sem rumo. O péssimo relacionamento com sua mãe agrava ainda mais a situação. Então ocorrem as diversas tentativas de suicídio, sempre difíceis ou meio ridículas.
   Passando por mais de uma clínica psiquiátrica, a melhora da personagem é uma incógnita.  Houve mesmo recuperação?  A resposta é bem duvidosa.
   Inicialmente promissora, a trajetória de Esther desanda rapidamente em direção ao abismo, de onde, pressentimos, não há retorno. Em 1963 a autora cometeu suicídio, encerrando tragicamente uma vida tão atormentada quanto a de seu alter ego. 
 
   
 

quinta-feira, 27 de junho de 2019

Moledro (2)


Apanhar a pedra
é devolvê-la
ao que poderia ter sido,
é imprimir trajetória
nos territórios do sentido,
tocar piano mudo
e música só de ouvido, expiar toda memória
no intestino do esquecido,
expirar qualquer história
após tê-la construído,
renegar nome e glória
para acolher só o perdido.

(foto: Google imagens)

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Moledro


Apanhar a pedra
é devolvê-la
em rito e resgate,
acúmulo
de ato e retiro
que acrescenta e reparte
o espólio de opaco e estrela
no coração do contraste,
gesto de inscrevê-la
nos domínios do bruto e da arte. 

(foto: Google imagens)

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Internacional




Fui selecionado e participo desta antologia publicada na Índia.
São 360 poemas de  360 poetas ao redor do mundo.
Represento o Brasil.

sábado, 15 de junho de 2019

Resenha


   Seguindo  as releituras, desta vez escolhi o romance Sob O Sol de Satã, de Georges Bernanos, um livro importante de um autor católico, que aborda o tema do mal e da salvação.
    Trata-se da narrativa da trajetória do abade Donissan, homem simples, com dificuldades para compreender as finezas do pensamento teológico e para fazer os seus sermões, pois expressar-se bem não é o seu ponto forte. Mas é o abade que se tornará o santo de Lumbres. E seu objetivo é salvar as pessoas, os fieis mergulhados no pecado, no vício, na luxúria, na ganância. 
   Recebendo o dom de enxergar as profundezas da alma humana, Donissan sofre. Não ter paz é o peso a carregar por toda sua vida. Ele consegue perceber o jogo impiedoso de Satã, carregando sempre almas para si. As pessoas comuns simplesmente caem em suas garras com a maior facilidade. Seu ódio, explica o narrador, dirige-se aos santos, capazes de resistirem aos seus apelos. 
    Donissan está disposto a sacrificar sua própria salvação em benefício dos outros. E esta é a missão dos padres e dos santos, conforme o ponto de vista de Bernanos. Enfrentar o mal a atravessar milênios, sempre perverso, é uma tarefa assombrosa, causadora de grande sofrimento. Com inúmeros riscos e tentações, diga-se de passagem.
    Tendo outros padres como personagens, nos deparamos com o abade Menou-Segrais, que optou pela comodidade e acompanha as dificuldades e limitações de Donissan, mas é capaz de reconhecer a santidade dele. Diferente do cura de Luzarnes, cético, envolvido momentaneamente pela atmosfera mística e pela possibilidade de um milagre. No entanto, sua entrega é passageira, causando ressentimento e retornando à sua postura anterior de ceticismo.
   O maior contraponto de Donissan é o intelectual Antoine Saint-Marin, inteiramente cínico e desiludido, cuja velhice é atormentada pelo medo da morte. Vendo a si mesmo como um grande farsante, copiado pelas novas gerações de escritores, tenta encontrar algo onde se apoiar, um refúgio ou consolo diante da possibilidade do fim iminente.  Sua presença concluirá a história de modo marcante. E o seu encontro com Donissan nos causa grande impacto.
   Francamente não sei o quanto Bernanos é lido hoje em dia, nesta época de modismos, de consumismo e hedonismo. Estou convicto, porém, que sua obra continua sendo fundamental.
 

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Microcontos

Casamento Sologâmico 1
A dificuldade sempre surgia na hora de Discutir a Relação.

Casamento Sologâmico 2
Uma semana depois cometeu adultério.

Casamento Sologâmico 3
Três dias depois pediu o divórcio.

(imagem : Google).

sábado, 25 de maio de 2019

Paramashiva


Desvestir os nomes,
reconfigurar as nuvens,
provisório é o paradeiro
do Verbo, 
 rito do obscuro e do ígneo,
espírito sobre as águas
sem águas,
inviabilidade das formas.

O que não está dito
articula o anônimo,
inverso de antônimo,
engenho e arte
do que não foi inscrito
em todo e parte.

(foto: Google imagens)

quinta-feira, 23 de maio de 2019

Tisana

Macerar o sumo,
extrair
essência , abdicar
do diverso
para engendrar
o íntimo
caldo
de partes
em concatenação do todo,
espírito de planta
em amálgama
de carne e flora,
fornalha de seivas
em simbiose líquida,
cerzir de misturas
na alquimia dos díspares.

(foto: Google)

sábado, 11 de maio de 2019

Resenha



   Estou numa fase de reler livros lidos há muito tempo. E chegou a vez de reler Leviatã, do escritor francês  Julien Green, que eu também havia lido durante o curso de Letras.  Aliás, estou focado nos autores franceses,por ora.  Por necessidade de reavaliar textos dos quais já não me lembrava com clareza.
    Trata-se de um romance angustiante,   cujos personagens não possuem nenhuma possibilidade de redenção.  Para o autor, a existência humana é marcada pelo absurdo, pelo desespero, pela completa falta de sentido. Violência, tensão, tristeza num mundo incapaz de qualquer afeto  percorrem cada página do livro.
   Guéret aparentemente apaixona-se por Ãngela,apesar de ser casado. E mergulha numa tentativa de relacionamento cada vez mais estranho, conflitante, sem esperança. Na verdade podemos questionar se há de fato qualquer espécie de amor entre eles. Há mais uma tentativa  desesperada de buscar uma saída para vidas tão vazias. Criar amores imaginários  para buscar algum alívio acaba por trazer uma situação ainda pior. Nada melhora.Muito pelo contrário, tudo vai se tornando cada vez mais sombrio e beirando o trágico.
   Trata-se de um mal sem remédio, onde o monstro da desespero vai destruindo todos  sem a menor piedade. Como é o caso da temível sra. Londe, dona do restaurante onde manipula seus clientes numa interminável ansiedade por vasculhar suas vidas insignificantes e medíocres, ávida por saber tudo a respeito de cada um. Sua decadência é notória, num livro onde todos caminham na beira do abismo até caírem definitivamente nele. Também é o caso da sra. Grosgeorge, aniquilada pelo tédio, pelo ódio, pelo desprezo e cujos atos serão decisivos no destino de Guéret. 
   Circulando num universo marcadamente feminino, Guéret é incapaz de compreender as mulheres. E os outros homens, personagens secundários na história,mas importantes no contexto,  são igualmente incapazes. No máximo tentam usá-las para seus fins egoístas  e vivem de rivalidades mesquinhas entre si. Já as mulheres, com exceção da esposa de Guéret,  são intensas e se debatem furiosamente nas garras de uma existência cruel que as esmaga sem piedade.
   Os capítulos finais são exasperantes e magistrais., tornando a leitura inesquecível e nos deixam um sabor amargo que o autor não faz nenhuma questão de atenuar. Trata-se,portanto, de um livro para leitores capazes experientes e dispostos a se defrontarem com um autor implacável e sem concessões.
 
   .

quarta-feira, 8 de maio de 2019

Novo Livro


   A escritora e pesquisadora da  Fundação Biblioteca Nacional apresenta meu  mais recente trabalho: O Livro dos Livros. 

   "  Na melhor tradição de Umberto Eco, Italo Calvino e Jorge Luis Borges,  Cleber Pacheco apresenta a seus leitores uma enciclopédia de obras fantásticas , das quais a simples descrição provoca  assombro e deslumbramento. A cada página se desvendam novas e infinitas possibilidades : livros escritos sobre pedra, metal ou no próprio ar , que tanto abrigam palavras quanto sentimentos,  experiências ou mesmo o vazio absoluto . Livros que revelam segredos arcanos , que relatam batalhas eternas, que transcendem as fronteiras  do tempo e do espaço. Livros que podem conter o universo - e ainda assim se ocultar, invisíveis e insuspeitados,  nas estantes de uma biblioteca imaginária." 
   O livro está à venda na livraria virtual da editora Penalux.
   

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Livro



Mergulhar
na página,istmo
no desobedecer
do senso,
desencavar
de histórias
nas entranhas
do limbo e do sonho,
ênstase
a desventrar
o desatino dos calígrafos,
estigma
de Caim e de anjos
a se darem as mãos,
enlace
de poro e medula
nos abismos do raso.

(foto: Cleber Pacheco).

sábado, 27 de abril de 2019

Criatura


Tudo quanto vive,
vive vem aviso ,
no inencontrado 
descobre seu juízo
e, no entanto sabe
quanto é impreciso,
ainda que seu ventre
tenha sido inciso 
para desvendar-se
espelho e Narciso.

domingo, 21 de abril de 2019

Resenha



   Li Os Moedeiros Falsos de André Gide  quando ainda estava no curso de Letras. Agora releio percebendo melhor a dimensão do significado e da importância deste livro essencial. Nele o autor trouxe importantes inovações, influenciando os escritores de sua época e das gerações futuras. É inegável a ousadia de Gide ao escrever um livro que critica abertamente o realismo então ainda em voga. Critica os enredos bem acabados, personagens definidos, enredos artificiais E cria uma narrativa ousada e em aberto, que busca as possibilidades, como se vagasse sem uma direção definida, ao acaso. Em seu diário o personagem Edouard, que é escritor, comenta:
   a realidade me interessa como uma matéria plástica; e tenho mais olhos para o que poderia ser, infinitamente mais do que para o que foi. Inclino-me vertiginosamente sobre as possibilidades de cada ser e lastimo tudo o que o manto dos costumes atrofia. 
    O autor busca não mais os tipos e caricaturas costumeiras de uma tradição literária e suas convenções. Segundo ele, a literatura deve buscar a essência. E esta seria a tarefa do autêntico romancista. 
   Também podemos encontrar no decorrer dos acontecimentos e reflexões, uma sátira ao mundo literário, com suas vaidades e rivalidades, de modo que o projeto da revista de Passavant se torna uma enorme farsa sem sentido, em vez de uma proposta de vanguarda . Passavant representa os vícios de um sistema literário ávido pela glória passageira e a vaidade, enquanto Edouard é o escritor a realmente buscar uma nova compreensão da vida e da literatura. 
    Para Gide a realidade é fluida, pois cada pessoa a interpreta de um modo diferente ou se debate com as elucubrações que costuma criar para si mesmo, como se apresenta em todo o livro e em especial nos personagens La Pérouse, Boris e Bronja e até mesmo nos equívocos pretensamente terapêuticos de Sophroniska. No final, são muito significativas  as palavras de La Pérouse , sintetizando os dramas e conflitos humanos de um modo geral:
   Sabe o que pensei? É que não podemos saber, durante toda esta vida, o que realmente é o silêncio. Nosso próprio sangue faz em nós uma espécie de ruído contínuo,não dostinguimos mais esse ruído porque nos acostumamos a ele desde a infância...Mas penso que há coisas que,durante a vida,não chegamos a ouvir,harmonias...porque esse ruído as encobre. E, penso que só depois da morte é que poderemos ouvir realmente...

   Outra questão importante, pelo viés do personagem Bernard, é a necessidade de se libertar das convenções sociais e buscar viver a vida por si mesmo, buscar o seu próprio caminho, estabelecer suas próprias regras, mergulhar na experiência de estar vivo, efetuar descobertas e inventar a si mesmo. 
   Em suma, Os Moedeiros falsos é leitura das mais importantes para obtermos uma visão das transformações literárias do início do século passado e para compreendermos melhor o próprio século XX.

sábado, 20 de abril de 2019

Novo livro



   No mês de maio lanço o meu mais recente trabalho: O Livro dos Livros. A escritora e bibliotecária Ana Lúcia Merege comenta:
   " Na melhor tradição de Umberto Eco, Italo Calvino e Jorge Luis Borges, Cleber Pacheco apresenta a seus leitores uma enciclopédia de obras fantásticas , das quais a simples descrição provoca assombro e deslumbramento.  A cada página se desvendam novas e infinitas possibilidades : livros escritos sobre pedra ou metal  ou no próprio ar, que tanto abrigam palavras quanto sentimentos , experiências ou mesmo o vazio absoluto,. Livros que guardam segredos arcanos , que relatam batalhas eternas, que transcendem as fronteiras do tempo e do espaço. Livros que podem conter o universo- e ainda assim se ocultar , invisíveis e insuspeitados,  nas estantes de uma biblioteca imaginária."

(Foto: editora Penalux). 

domingo, 14 de abril de 2019

Poema de Li Po


Vocês me perguntam o que vejo nessas montanhas azuis.
Sorrio, mas não respondo.
Oh a minha mente não quer o debate.
Flores de pessegueiros e regatos
fluentes passam sem deixar vestígio.
Que diferença do mundo discursivo!

terça-feira, 9 de abril de 2019

História


A criança brinca
com o seixo,
o seixo contém
toda a história do mundo,
a crua verve primitiva,
o alicerce dos impérios.
A criança brinca
e seu brincar contém
a força motriz
do movimento ancestral
e todas as possibilidades do humano. 
A criança e o seixo convergem
como convergem vida e morte
no encontro de carne e nous  
no primeiro alento
e no instante do derradeiro
sopro. 
( foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 2 de abril de 2019

Resenha



   As narrativas curtas de Kafka são muito impressionantes. Difícil classificá-las. Seriam fábulas sombrias? Literatura fantástica? Contos góticos? Na verdade, são inclassificáveis. Melhor assim, pois é exatamente isto que comprova a sua riqueza.
   A primeira história de Um Artista da Fome relata o caso de um trapezista que se recusa sair do trapézio, aprimorando cada vez mais suas habilidades. E acaba por exigir um segundo trapézio ao seu empresário.
   O segundo conto,  Uma Pequena Mulher é ainda mais inquietante. Um narrador nunca completamente identificado relata sobre essa mulher que se irrita com a existência dele, Sem razão, ela não o suporta e seu sofrimento é infindável por não suportá-lo, embora ele nada faça para merecer tanto ódio.
   Um artista da fome conta o caso de um homem cuja arte é jejuar, permanecendo preso numa espécie de jaula e se tornando atração e fonte de lucro para seu empresário. Aos poucos o público vai perdendo o interesse  por essa estranha atração, relegando-o a mero coadjuvante num circo qualquer até ser ignorado por todos.
   Josefine,a cantora ou O Povo dos Ratos  é tão extraordinariamente bem escrito que nos fascina e desconcerta ao mesmo tempo.
   O mais sombrio de todos  os relatos é Na Colônia Penal, uma história de absurdo e crueldade, um dos melhores textos escritos pelo autor. Verdadeira obra-prima.
   Evito aqui fornecer qualquer interpretação ou chave de interpretação, pois creio caber ao leitor mergulhar nesses contos fascinantes e extrair deles toda a riqueza que oferecem.
   Um pequeno grande livro que deveria ser lido por todos os fãs de Kafka e da grande literatura.
   

sexta-feira, 29 de março de 2019

Florbela Espanca


 A poeta portuguesa nasceu em 1894 e falecer em 1930. Era exímia sonetista. Este é um dos meus poemas preferidos.

RÚSTICA

Ser a moça mais linda do povoado,
Pisar, sempre contente, o mesmo trilho,
Ver descer sobre o ninho aconchegado
A benção do Senhor em cada filho.

Um vestido de chita bem lavado,
Cheirando a alfazema e a tomilho...
Com o luar matar a sede ao gado,
Das às pombas o sol num grão de milho...

Ser pura como a água da cisterna,
Ter confiança numa vida eterna
Quando descer à "terra da verdade"...

Meu Deus, dai-me esta calma,esta pobreza!
Dou por elas meu trono de princesa
E todos os meus reinos de ansiedade.

(foto: Google)




terça-feira, 26 de março de 2019

O Recurso do Método


É impreciso tatear a claridade
onde o preciso é obscuro,
meio de testar sua lealdade
e conceder o prematuro
modo de conceber a castidade
do certeiro e do inseguro,
embustes de inventar verdade,
apalpar aonde vão as coisas no escuro.

(foto: Google imagens)

domingo, 24 de março de 2019

A Cerimônia do Chá


O espírito do chá
alastrando-se
em silêncio e gesto,
folha e água
na infusão dos sentidos,
cor e aroma
desenhando
o invisível
em arabescos de vapor,
códigos do cavo
nas saliências do impalpável,
transliteração do irrevelado
a fundir-se
em instante e rito.

(foto: Google imagens).


sexta-feira, 22 de março de 2019

Autor Convidado

SONIA MOREIRA LOBATO é escritora,  professora de artes e uma das fundadoras da Associação de Arte Educadores do Rio de Janeiro. Natural de Cachoeiro do Itapemirim, no Espírito Santo. Atualmente reside no Rio de Janeiro. Sempre foi apaixonada pela escrita.
Email para contato: sonia.moreira.lobato@gmail.com

POEMA

encantamentos reais,
vivos ao longe,
mesmo desfocados,
asas transparentes
tremem
delicada a "flor esqueleto"
existência em cor-leite-cristal
,               sustenta meus voos silenciosos

                                           (foto: Cleber Pacheco)

POEMA 2

"Web":
posso ver e rever das nuvens
 as estradas do mundo
ouvir dos que nunca vejo
o recolher das pedras que a vida lança
com ou sem delicadeza
o querer que escolhe
o que vence delicado ou impetuoso
o que se arranja sem arrogância
pouco a pouco copiando
a beleza dos tons
daqueles seixos
rolados nas águas distantes



terça-feira, 19 de março de 2019

Resenha



   Depois do sucesso de A Garota no Trem, a escritora Paula Hawkins  publicou o romance Em Águas Sombrias ( Into the Water),que li recentemente.
   Agora ela reafirma sua capacidade para lidar com os sentimentos humanos conturbados e vai mais longe. O livro é muito interessante. Tudo gira em torno do Poço dos Afogamentos de Beckford e das mulheres encrenqueiras da cidade, encontradas mortas em suas águas. Tais mulheres movem a trama, mas as figuras masculinas não são desprezadas. Há personagens intensos e fortes, carregando também fraquezas e culpas. Todos estão envolvidos em dramas pessoais e coletivos, lutando e emaranhando-se cada vez mais, buscando saídas e soluções,tentando entender os acontecimentos. Lena, Jules, Nickie , assim como Sean e Patrick despertam nosso interesse. Nem mesmo os personagens secundários são insignificantes. A história vibra intensamente o tempo todo e nos prende, com o mesmo fascínio que o Poço dos Afogamentos exerce sobre os moradores, ainda que de maneira um tanto mórbida.
   A morte de Lena, inicialmente dada como suicídio e depois como assassinato desencadeia uma série de conflitos que na verdade já estavam latentes ou se desenrolavam sob os bastidores, numa localidade marcada pelo fluxo tentador das águas a exercerem sua influência sobre todos. Emoções fluidas, consciências turvas e atormentadas perpassam cada página, fazendo da narrativa não apenas uma história policial ou de suspense. Como Ruth Rendell ( que consegue ir ainda mais além), Paula Hawkins comprova a vocação das escritoras inglesas para desenvolver bons livros envoltos por mistérios e paixões humanas.
 
 

 

quinta-feira, 14 de março de 2019

Verbo


A Linguagem da Vida
articula
a linguagem das palavras,
o inquebrantável
na medula do sonoro,
diapasão além
da síntese: integração
a vibrar
a coluna vertebral do sentido.
( foto: Google imagens)

terça-feira, 12 de março de 2019

Nova Editora



   No final do ano passado nasceu uma nova editora, disposta a publicar bons autores e textos de qualidade.  Interessados podem enviar seus originais para o email acima.
   Faço parte do Conselho Editorial  e estou entusiasmado com este trabalho. Os primeiros livros da Coralina já começam a aparecer.


                                                  Livro de contos.

 
                                         Livro infantil.


                                                Livro de poesia.

quinta-feira, 7 de março de 2019

Poesia


Acender o Sol,
moldar a terra,
inspirar a morte,
ressuscitar o tempo,
recortar a sombra,
costurar o vento,
insuflar vida
no que ela tem por dentro.

Iluminar a Lua,
clarear a luz,
molhar a água,
alagar o oceano,
recolher a note,
estender o dia,
saber qye tempo
é mais que cada ano.

Escavar o Eterno,
desdobrar o Infinito,
remendar as horas
em sua ossatura,
modelar o instante
em outra anatomia,
tempo não é corpo,
é só fratura;
reatar o todo,
transfusão de sangue,
Cosmos em curvatura.

(foto: Cleber Pacheco)



sexta-feira, 1 de março de 2019

Regaço


Pedras e sóis
em minhas mãos
acolho,
mais
do que em mãos,em mim;
sem escolha,
apenas recato,
aberto regaço
sem omissão.
"Pedras e sóis", digo
sem palavra e conceito;
o acontecido,
provisório aluvião.
Pedras e sóis
distribuo;
faz-se o mundo
Verbo e Silêncio.
Ninguém nunca recusou.

(foto: Cleber Pacheco)

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

Resenha



   A literatura do século XX produziu grandes romances distópicos. Huxley, Orwell, Burgess criaram visões muito interessantes a respeito de sociedades opressoras,injustas,desumanas. Agora o século XXI já tem um grande romance nos mesmos moldes. trata-se de O Conto da Aia ( The Handmaid's Tale) de Margaret Atwood.
   Não vi a série televisiva para efetuar comparações. Mas o livro é suficiente. Diz tudo o que precisa dizer. E poucas vezes li algo tão contundente.
   A história ocorre numa sociedade teocrática estabelecida neste século em data indefinida. Leituras da Bíblia são obrigatórias. As pessoas exercem funções específicas, determinadas pelo sistema. Às aias cabe servir como reprodutoras, uma vez que uma série de problemas acabou por causar infertilidade. Sua única função é engravidar, com o consentimento das esposas, que são obrigadas a "ceder" seus maridos com o intuito de cumprir deveres de Estado.
   Longe do próprio marido e da filha, sem liberdade, impedidas de realizar escolhas,  sua vida é sem perspectivas. Num meio assim tão deprimente resta à personagem deter sua atenção nas pequenas coisas, nos detalhes, em ninharias tornadas preciosas como modo de resistência.
   Com ênfase na condição feminina, a autora nos remete às sociedades patriarcais , estabelecendo uma aguda análise das relações entre política e sexualidade. Desumanizadas, resta às mulheres buscarem brechas, ainda que mínimas, onde possam respirar um pouco. Mas é necessário estar sempre vigilante. Há riscos e perigos. Punições pesam constantemente sobre suas cabeças.
    Aos poucos a protagonista descobre as transgressões e a hipocrisia do "novo" sistema, deixando ainda mais explícita a crueldade ao seu redor. 
    Entre invejadas e desprezadas, as aias não possuem nenhuma escolha. Caso não ocorra uma gravidez, podem ser  afastadas de todos e declaradas Não-mulheres.
   Margaret Atwood faz uma análise fina, profunda, sutil e detalhada a respeito do passado, do presente e dos riscos futuros, pois os fundamentalismos estão aflorados em nossa época, assim como os extremismos, as discriminações e preconceitos. Trata-se, portanto, de uma obra muito pertinente, capaz de analisar os riscos e as ideologias dominadoras existentes em qualquer tempo e lugar.
   Quem gosta de ler e está atento ao mundo de hoje não pode perder a oportunidade de conhecer este livro.
 

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Frestas


Conheço gente que não sabe nem fritar um ovo.
Conheço gente que não entende a mais simples metáfora.
Conheço gente que não consegue colocar água sem trincar o copo.
Conheço gente que sempre morre antes de despertar.

Não indico nenhum manual de instrução.
Reverencio  o que cada um não sabe.
É ali que cada um duvida do seu próprio nome.

( foto: Google imagens)

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Poema em dupla


(Poema escrito em parceria com a poeta indiana Sarala Ram Kamal).

SIGNS

On the water
flowers and shadows
draw
the mysteries of the liquid
in singular art,
forms expelled
in the curvature of the instant
where wonder arises.

(foto: Cleber Pacheco) 

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Frágil


Desfazer-se
em leveza,
desmentir
a consistência,
esperar a espera
sem reter,
fluir, volátil.
até o limiar,
destecer
a trama secreta
 urdida
no coração dos mortos.

(foto: Cleber Pacheco)

sábado, 9 de fevereiro de 2019

Resenha


   Em 1882 Ibsen, dramaturgo norueguês,  publicou Um Inimigo do Povo. A peça só foi encenada no ano seguinte, obtendo grande repercussão. Após escrever teatro de caráter histórico sem sucesso, o autor deu uma guinada em sua trajetória, passando a fazer um teatro realista. A partir daí, sua carreira dramatúrgica ganhou realmente a importância que tem até hoje.
   A peça em questão aborda os acontecimentos ocorridos com o dr. Thomas Stockmann e sua família quando ele revela o problema da contaminação da água na estação balneária de sua cidade.  Inicialmente recebendo apoio da imprensa ( cujos interesses são, na verdade, políticos, sem nenhuma preocupação com a saúde das pessoas ), rapidamente a situação vai se modificando. Quando os interesses da classe dominante são desafiados, todas as informações são manipuladas de modo a opinião pública voltar-se contra Stockmann. E é exatamente o que acontece. Suas boas intenções e sua atitude ética são proclamadas como insanidade, jogo de interesses, etc. Seu objetivo de evitar que a população adoeça é distorcido e essa mesma população passa a tratá-lo com hostilidade. A campanha contra ele inicia com seu próprio irmão, prefeito da cidade. E vai se estendendo até chegar à classe operária.
   O texto de Ibsen é bem claro: a unanimidade é estúpida. A visão da maioria não é a melhor, pois a multidão avilta a iniciativa individual, anula o pensamento próprio, é mesquinha e cruel, não dando lugar ao diferente, não permitindo discordâncias, agindo por medo da opinião pública, além de facilmente manipulável:
   Não! A maioria nunca tem razão! Esta é a maior mentira social que já se disse! Todo cidadão livre  deve protestar contra ela (...) em se considerando o globo terrestre como um todo, os imbecis formam uma maioria esmagadora." 
   Ora, em tempos de total manipulação midiática, de fake news, manipulação de eleições ,  e de grandes corporações engolindo cérebros, como é o nosso, nada mais atual do que esta peça. Lida ou vista nos palcos, o importante é conhecer o texto e refletir.
 
   
 
 
 
 
 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Lago


Sussurros da outra
margem,
placidez
na sofreguidão do espelho,
miragem
de raízes do aquoso,
voragem
de límpido e lodo,
imagem
do etéreo
na carne da superfície,
estiagem
do tangível
no íntimo do exposto.

(foto; Cleber Pacheco)




terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Descontinuidade


Efetuei estranhas costuras
cosendo o desigual;
atando árvore e estrela,
engendrei novos bordados
em levíssima tessitura,
desencontrei botão e casa
tecendo outra túnica,
desinventei a roda
para fiar uma roca,
destituí as lagartas
para descobrir o fio.
vestido e nu pisei
por onde não há trilha,
caminhos são suaves
quando mais que desencontram.

(foto: livro antigo de corte e costura- Google imagens)

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

Quadrantes


Todos os crimes
já foram cometidas.

A morte se reinventa,
também o vivo.

Dormir e despertar,
tubos de ensaio.

Todas as estranhezas
cabem
no mero existir.

(foto: Cleber Pacheco)