sábado, 19 de agosto de 2017

Resenha


    No romance Enclausurado ( Nutshell) de Ian McEwan a narrativa tem um ponto de vista original: ainda no útero, um bebê conta a história de sua mãe e do amante dela que planejam assassinar o seu pai, um poeta fracassado e editor de outros poetas que, assim que conseguem algum reconhecimento, o abandonam sem remorso.
   Livro contundente, desconcertante, provocativo, cheio de humor e sarcasmo, por vezes nos assombra. Cumplicidade,conflito, ódio e amor, rejeição, abandono, traição, mediocridade, desajuste, ânsia pela vida, o perigo da morte, crueldade, vício, beleza,banalidade. Muita coisa está ali. \E tudo é mensurado por alguém que ainda nem nasceu. Por isso mesmo é capaz de sinceridades e,até mesmo, de alguma hipocrisia e cinismo.
   Muito bem escrito e provocativo, o livro faz uma reflexão a respeito do nosso tempo, da condição humana, do talento e da falta dele, dos temores e das ousadias, das incongruências e contradições humanas, com suas fraquezas. Há muito para se observar,perceber,analisar, embora o texto não seja muito longo. Isso é raro na literatura contemporânea, onde há muitos livros corriqueiros com pouca coisa para dizer.
   Pode-se afirmar que é um romance instigante, feito para refletirmos, sentirmos, misto de humor e de espanto.  A história nos prende e surpreende o tempo todo.
   Posso,com certeza, incluí-lo na lista dos melhores livros que li este ano.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Conhecer


Saber
é mais que repetir,
investigar formas,
apontar dardos.

Desconhecer
também é modo,
ainda que ao avesso,
tecer outro de vontades
que se desencontram
nos abismos do vasto,
anelo,
sofreguidão e silêncio
corroendo
os campos do Indizível.

(foto: Google)

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Rosto-Retrato


Estranho espelho
sombra mumifica
fazendo do velho
sua face mais rica
mas o guardado
ainda que monja
ao ser vedado
torna-se esponja
ao ser quebrado
desarranjo provoca:
é redobrado
que cava sua toca:
se algum deles atinge
ambos são esfinge

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Livros

Livros com capas muito interessantes. Vale a pena conferir.







(Fotos: Google)

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Microconto


ECLESIASTES

"Vaidade das vaidades, tudo é vaidade".

ANTES

" Se ela herdar todas aquelas xícaras maravilhosas, vou atirar a bruxa do sétimo andar".

DEPOIS

- É só uma xícara. Pode levar.
Brilharam os olhos da faxineira:
" Minhas vizinhas vão morrer de inveja".

( foto: Google)


domingo, 13 de agosto de 2017

Microconto




     NOTÍCIAS
- Estamos todos bem.-disseram eles.
   As cartas,os e-mails, as redes sociais sabem mentir.
  A adaga,  cravada nas costas, desmentia tudo.

sábado, 12 de agosto de 2017

Plantar


Colho a neve,
guardo em meus bolsos.

Minhas mãos estão queimadas
de tanto semear flores.

(imagem: google)

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Garden Party


- Minha roupa é caríssima!
- Meus sapatos são caríssimos!
- Meu chapéu é caríssimo!
- Minhas joias são caríssimas!
E a criança;
- Olha uma joaninha!

(foto: google imagens)

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

Eremita


Toda busca
acrescenta
mais do que o buscar,
traz e leva
tudo o que nela
nasce e jaz.
Buscar já é caminho,
misto
de encontrar-se e perder-se,
fração que se completa
e é sempre inacabada,
trajeto sem mapa,
outra estrada.

(imagem: Google)

quarta-feira, 9 de agosto de 2017

Resenha


   Pela primeira vez li um romance do escritor Walter Hugo Mãe. Trata-se do livro Homens Imprudentemente Poéticos. Encantei-me desde o primeiro capítulo.
   O escritor sabe explorar maravilhosamente a capacidade expressiva da língua portuguesa, explorando suas possibilidades,nuances,poesia, beleza. Com isso cria um estilo muito peculiar, que acrescenta,diz coisas novas,realiza achados, nos sensibiliza.
   Atualmente existem muitos livros com "linguagem jornalística", para não dizer linguagem fácil,simplória, para que o leitor não tenha de pensar. Está longe de ser o caso de Walter Hugo Mãe,felizmente.
   A história ocorre no Japão. Os personagens moram próximos à Floresta dos Suicidas, que de fato existe. E os fatos se concentram em poucos personagens: Itaro, o artesão, que faz leques; o oleiro Saburo, que faz cerâmica: a criada e a irmã cega. Além de um sábio.
    Todo o livro foge do cunho realista,mas não é propriamente uma fábula. É poesia mesmo. É arte.
E trata a respeito do medo, da morte, do ódio, do amor, da existência humana e seus conflitos,dramas,precariedades.
   Trata-se de obra extremamente original,que nos fascina.
   Excelente e imperdível.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

A ARTE ALQUÍMICA 3


Só no rubedo
prata e ouro,
raiz do segredo
e folhas de louro.

Planta mimética
na justa medida,
caos e estética
da Árvore da Vida.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Encontros

De tempos em tempos
a morte me revisita,
oferece  suas garras e afagos,
oferece-me venenos,beijos.

De tempos em tempos
revisito a morte,
mudo-lhe a face,os traços,
redefino sua postura,suas vestes,
ofereço encantamentos outros.

É certo sempre que nos reencontramos
para um aceno, breve conversa
novas chantagens.
Nunca recusamos cumprimentos,todavia.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Eterno Retorno


Inúmeros, os caminhos
percorridos
e que poderiam ter sido,
que não foram e serão,
que avançaram,
desenharam-se em recuo,
retiradas e vanguardas,
explorações e armadilhas,
as possibilidades
todas e nenhuma,
quadrantes a perder de vista.
Caminhos e jornadas
que se ampliam e expandem
no Eterno Retorno
de nossa própria estranheza.

(foto: Google)


sexta-feira, 28 de julho de 2017

A Arte da Experiência


Nem fazer ou substância,
ação substantiva,
cavidade e saliência
em vanguarda primitiva.

Coisidade de coisa
sem nudez acessória,
intimidade da coisa
em veste originária.

Um tornar-se e ir sendo
a coisa que representa,
sem apresentar o mando
da coisa que a sustenta.

Um fazer e escapar-se
de todo e qualquer ato
num desfazer de catarse
em pureza de feto.


quinta-feira, 27 de julho de 2017

Campo de Batalha



Campo para semear
e campo de batalha,
estrada,atalho,via
todas as coisas
num conjunto de rizomas
que se interpenetram:
luta, floração,
vida,morte.
Tudo é perigo
e caminhamos
a não ser que bebamos
a insalubridade dos pântanos.

(foto: Google imagens)

terça-feira, 25 de julho de 2017

creSCER



É preciso exercer
a correta arte do abandono:
refugar restos,
romper retalhos,
expelir vômitos.

Só importa
o que nunca
conseguimos ser.
Realmente importa
não recolher refugos.

Não armazenar,
acatar fomes e vazios,
 reprisar o nunca acontecido.

Exercer é preciso
a correta arte do desatino
para ter a sensatez
de árvores semoventes.

( foto: Google)


domingo, 23 de julho de 2017

LUTA


Há lutas indizíveis,
intermináveis,
algumas feitas de sangue,
outras de dores insustentáveis,
tão trágicas que, risíveis,
brotam
em nossas veias calcinadas.

Após cada embate,
retiro a armadura
e inicio os trabalhos
de identificação
 do meu corpo.


(foto: Google)



sábado, 22 de julho de 2017

LUZ



Luz de velas,
luz do sol,
claridade.

Luz que brota no âmago
das coisas e dos seres,
irradiando em dentro e fora,
sem dentro e fora,
toda parte.

Luz viva
que nos funda,
que nos funde
ao prisma do existir.

Intersecção de luz
em conjuntos sem sombras
a vencer os abismos
do ventre.

(foto: Cleber Pacheco)


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Luta



Também o dia
tem seu perigos,
não só a noite.
Não só a noite
traz a treva:
há, na claridade,
resquícios de pânico.
Fortes sejamos
para enfrentar
treva e claridade,
o instante.
Cada hora
é degrau
que nos incita.
É longa a escada,
sigamos.

(foto: Google)




terça-feira, 18 de julho de 2017

Roca



O homem,
espelho orgânico do Nada,
anjo selvagem
carcomido
de êxtase e infâmia,
traduz
os Arcanos do medo
em vestes de carne e fúria.
O que engendra,cala ou congela
tece os vestígios do híbrido
em trama que flui e resvala
em cilada de nós e de linhas,
traçando veleidades, funduras,
na teia inconsútil do Cosmos.

(foto: Google imagens)

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Resenha



Ainda faltam cinco meses para terminar o ano,mas posso afirmar com segurança que o romance Ethan Frome de Edith Wharton, com tradução de Chico Lopes e publicado pela editora Penalux, já é um dos melhores livros que li em 2017..
   A história se desenrola num ambiente gélido, descrito magistralmente pela autora. Ambiente que é uma imagem da vida difícil, desolada e desprovida de calor humano onde os personagens se debatem. As muitas camadas de neve nos remetem aos sentimentos soterrados e reprimidos. Debaixo dessas camadas de vida estéril, desenrola-se um drama intenso,mas contido. Não há grandes arroubos, grandes gestos,melodrama. Tudo se passa de modo reprimido, oculto, em que os silêncios soam de modo contundente e avassalador.
   Edith Wharton nos dá uma lição de como construir uma narrativa. Na primeira parte, o narrador se interessa pela figura de Ethan Frome e busca saber algo a respeito. Os moradores hesitam em fornecer detalhes,são econômicos em seus comentários. Depois, conhecemos o passado do personagem central,de sua mulher e da adorável |Mattie e é difícil parar de ler.. Ao chegarmos ao final, fazemos uma descoberta inesperada, um desfecho surpreendente que me fez pensar: Isso é que é saber escrever um final para um romance!"
   Situando-se entre os acontecimentos e o não- acontecido, a história nos faz mergulhar num mundo de conflitos, falta de esperança, ressentimentos,frustrações e falsas expectativas. ´Para existências tão insignificantes, os pequenos fatos, as mínimas alegrias ganham uma dimensão inusitada. E, paradoxalmente, tudo se torna extremamente significativo.
   Edith Wharton foge das caracterizações simplistas e fornece veracidade, profundidade e revela o quanto o ser humano pode ser desconcertante em suas atitudes.Trata-se,em suma, de um livro escrito por alguém que alcançou o completo domínio do seu talento.
    Quem ama literatura de qualidade não pode deixar de ler Ethan Forme. 
 

sábado, 15 de julho de 2017

Sutilezas


Parece fácil abrir
portas.
"É muito simples"
costumam dizer.

Abrir requer
habilidade,perícia,
mãos de mestre.

Não basta abri-las.
É necessário saber
quais devem permanecer
fechadas.

"Nada é simples",
dizem alguns.
"A simplicidade é o maior luxo",
afirmam outros.

Algumas portas
terão de ser construídas,
revelam os arquitetos.

(imagem : Google)



sexta-feira, 14 de julho de 2017

União



   Os amantes,entrelaçados.
Ela está encostando o seu rosto no dele.
 Ele está encostando o seu rosto no dela.
 Beijo. Encontro de lábios superiores e inferiores.
Separam-se.
Arabescos de palavras.

Carta

Cartinha
Michel Miguel,
Não o chamarei de Vossa Excelência porque o mundo todo já conhece Vossa Baixeza e porque não o reconheço como presidente,mas apenas como chefe de uma quadrilha sem ética,sem honra,sem dignidade. Sei que agora é considerado bonito ser vendido e defender corruptos,mas pode ter certeza de que nunca estarei entre os seus capachos sem caráter.

(imagem: Google)

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Desgoverno



 O país se tornou um caos.
 O Governo corrupto compra políticos para se manter no poder.
Ministros e deputados envolvidos em atos ilícitos saem ilesos.
O presidente fala mentiras sem cessar, manipula,compra,corrompe,ameaça para não perder o cargo.
Não há estado de Direito.Isso é uma farsa.
Há,isto sim,um Estado de exceção, beneficiando os já privilegiados, destruindo os direitos trabalhistas que levaram décadas para serem conquistados.
As instituições estão completamente apodrecidas.
Tudo é uma farsa asquerosa, onde a Ética foi demolida.
Em vez de Ordem e Progresso, há Caos e Retrocesso.
A mídia mente.
Mergulhamos na Era das Trevas.

(imagem: Google)


terça-feira, 11 de julho de 2017

Jornada



Em breve estarei
em outro lugar,
usarei sutras
mais curtos,
palavras
mais distantes,
roupas mais leves.

 Ninguém
irá me acompanhar,
ainda assim
inevitável é a jornada,
longo é o caminho.

Dizem,alguns,
que é muito tarde,
que estarei morto
antes mesmo de chegar.
Apenas digo:
ir é minha mais íntima natureza.

(imagem: pintura de Turner).


segunda-feira, 10 de julho de 2017

HISTÓRIAS



   O homem surgiu quando passou a criar e contar histórias. Foi aí que ele passou a construir e a encontrar a sua própria identidade.
    Orais ou escritas, as histórias transmitiram significados,crenças,valores,visões de mundo. E assim conseguiram tecer elos de ligação através do tempo, preservando um legado precioso, a memória da humanidade,suas mudanças,anseios,medos,alegrias,sofrimentos.
    Os escritores têm a capacidade de criar, imaginar, sondar,explorar,inventar realidades.
    Amo histórias.
    Sou escritor porque amo histórias.
     Dizem que tudo já foi escrito. Procuro ,então,contar as coisas como elas estivessem sendo vistas pela primeira vez.
     Toda verdadeira literatura é sempre Adâmica: nomeia e dá sentido ao  mundo.

(foto: Google)

   

domingo, 9 de julho de 2017

Bençãos


Teu nome é bíblico,
são fortes teus punhos,
já podes lutar com anjos.
Mas é para mim que dirás:
"Não te deixarei ir a não ser que me abençoes".

(imagem: Google)

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Travessia


Atravesso
um corredor
que me leva
ao lado
onde não há lados,
onde não há portas
e tudo é porta,
onde a escada
é um sem fim
de degraus,
onde há muitas moradas
e uma só morada
onde Tudo é Nada
e Nada é Tudo..

Nunca é finda
a travessia
justo por ser
exatamente isto:
 travessia.

(Imagem: Google)

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Língua estrangeira


Não entendo o teu idioma
repleto
de consoantes guturais
e vogais exóticas,
mas o dialeto
dos teus olhos
está impresso em meus ossos.

(foto: Google imagens)

terça-feira, 4 de julho de 2017

Poema


Do indizível, o dito,
a fortaleza,
esboroa o mito,
a certeza
de estar no grito
a fineza
desentranhada do rito
da incerteza.

Do indizível, o dito,
a constância
firmada no infinito
da distância,
reverbera no escrito,
mendicância,
coada no aflito
mar da inconstância.

segunda-feira, 3 de julho de 2017

Mandala



O Todo
não é a soma das partes.
Indivisível é o Todo,
Aquilo que É.
Sem antes e depois,
sem fração e fractal,
Uno.
O Todo reverbera
na própria completude:

Eu Sou o que Eu Sou.

domingo, 2 de julho de 2017

Home Sweet Home



Moraram na casa durante muito tempo,sempre mantendo aceso o fogo na lareira. Tendo acabado a lenha, começaram a arrancar as paredes para alimentá-lo.
Quando o viajante chegou, havia enormes buracos não só nas paredes, mas também no teto e no soalho.
- Por que fazem assim? Estão destruindo toda a casa!
- Não podemos deixar o fogo apagar.-responderam.
E continuaram arrancando as tábuas do soalho.


(foto: Google imagens)

sábado, 1 de julho de 2017

Tratado Geral da Insânia



Noé Brasileiro

Noé foi avisado que deveria construir uma arca.
- Primeiro precisa de uma licença para isso.- avisaram as autoridades.- Que será concedida mediante uma propina.
- Antes precisa pagar uma propina para que as madeireiras clandestinas liberem a madeira.- avisaram os profissionais.
- É fundamental pagar uma propina para os traficantes de animais.- avisaram os especialistas.
- Para obter pessoal que construa a arca, é preciso uma propina para as empreiteiras.- disseram os entendidos.
Moral da História:
As chuvas vieram e não houve sobreviventes.


(imagem: Google) 

sexta-feira, 30 de junho de 2017

Livro


  O pequeno livro Como Aprendi a Escrever de Gorki contém ideias  interessantes do autor. Ele divide os escritores em duas correntes básicas: românticos e realistas. E afirma que os melhores escritores conseguem mesclar as duas tendências. E cita como exemplos Balzac, Turgueniev, Tolstoi, Gogol, Leskov, Tchekov. E afirma:

   Esta fusão do realismo e do romantismo é especialmente característica de nossos grandes escritores.

    Daí surge o questionamento: de onde surge a vontade de escrever? A resposta vem de um dos seus correspondentes: para embelezar,por meio da imaginação,uma vida de miséria. Ou do excesso de impressões decorrentes das vivências cotidianas, conforme afirmou outro correspondente.
   E aí Gorki comenta:

    comecei a escrever  devido à pressão  que exercia sobre mim a 'vida de pobreza e tristeza' e porque tinha  tantas impressões que não podia deixar de escrever.

   E assim ele relata algumas lembranças a respeito do que viu e viveu e também prossegue expressando sua opinião a respeito de diversos autores. E, algo interessante, relata algumas de suas experiências de leitura.
   Em suma, trata-se de um livro para quem se interessa pelo ato de escrever,pela literatura,para pesquisadores, estudiosos, para candidatos a escritor e para quem já é escritor.


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Estação

Quanto tempo leva
para que a chuva nos lave
e fecunde, na carne,
pele mais fina,
aguçando a nervura
da filigrana dos dedos,
polinizando o toque,
agora tão raro,
do existente e do extinto?
Quanto tempo leva
para valorizar o que vale,
sugando o supérfluo
em tintas simpáticas,
reescrevendo o visível
em novo idioma?
Quanto tempo leva
para que a vida vele
as duras entranhas
do que se revela
sempre evidente?
Que o aquoso
una o que o homem
separa, propondo liga
aos disjuntos.
Se o aquoso varre
mimético e continuo,
que ela nos trague
em desvario sóbrio.

terça-feira, 27 de junho de 2017

Livro

    ELES,O MINISTÉRIO OU A INSTITUCIONALIZAÇÃO DO ABSURDO

    Alguém ainda duvida de que vivemos num mundo distópico? Se por acaso tal dúvida ainda existir, certamente será dissipada pelos textos deste livro de Cláudio Parreira. Breves e densos, conseguem, em poucas palavras – o que é um mérito- expressar de modo contundente o absurdo deste novo século e da realidade brasileira atual. Mas não é só isso. Conseguem ainda  ser atemporais, remetendo-nos para além de outras obras do gênero como Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, 1984 de George Orwell ou ainda Laranja Mecânica de Anthony Burgess. Seu conteúdo é mais kafkiano, remetendo-nos ao livro O Proces-so, mas contendo indiscutível voz própria, num estilo direto que nos choca.
   Este trabalho revela o quanto a estrutura do poder é, em si mesma, absurda, seja qual for a tendência, a ideologia dominante, as tentativas de legalizá-lo e legitimá-lo. A essência do poder é o seu aspecto manipulador, opressivo, cruel, estimulando a coletividade a tornar-se apenas a manada passiva, obediente, servil. E nos faz refletir a respeito dos conceitos de democracia existentes numa época em que esta mesma democracia é, cada vez mais, apenas uma sombra de si mesma, mero simulacro a encobrir o processo de submissão e escravização, de destruição das individualidades. 

Pode-se adquirir o livro acessando:

https://www.amazon.com/dp/1521585253

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Ler

Todos os dias,
para retornar à Ítaca,
desço os nove círculos
do Inferno,
luto contra os moinhos de vento,
enfrento a fúria de Moby Dick,
como a massa da barata.
Uma vez lá,
não sei se encontrarei
Capitu ou Penélope,
não importa.
Importante mesmo
é a viagem.


(foto: Google)

domingo, 25 de junho de 2017

Cultura


Eles produzem corrupção.
Nós produzimos cultura.
Eles propagam a ganância.
Nós propagamos a reflexão.
Eles incentivam a ignorância.
Nós cultivamos o pensamento.
Eles disseminam a estupidez.
Nós regamos os sentimentos.
Eles cultuam a velhacaria.
Nós cultuamos o talento.
Eles abominam a inteligência.
Nós semeamos a genialidade.
Eles odeiam a cultura.
Nós amamos a criatividade.
Que a incapacidade deles de compreender o humano,a ética e o sublime
 seja o nosso incentivo para valorizar o humano, a sabedoria e reconhecer o sagrado.

sábado, 24 de junho de 2017

Sóis



Encadeamento de sóis
no fulgor do Vivo,
comunhão de claridade
sem aparatos que não luz,
fulgor de Ser
em plenitude sem miasma,
imensidão de mar ardente
no Sumo do Infinito.

(foto: Google)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Poema



No centro da Via,nenhum planeta ou sol.
No caudaloso,movimento,sêmen da rota.
O fecundo do vácuo no atrito do nada.
Fluxo.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Vestígio


Ascende
o dia
entre escombros.
Perdida
está a tardia
aurora.
resta,
no solo,
o vestígio
duma sombra
a marcar as horas.
A vida é além.

(foto: Meteora, Grécia- Google imagens)

terça-feira, 20 de junho de 2017

Ancestral


O Ancião dos Dias
 emerge
do caos à ordem,
trazendo consigo
a força que reitera
a sanidade das coisas,
a insanidade dos homens,
o fiat lux do mundo.
Compor o Cosmos
é um ato de osmose.

( Arte de William Blake)

segunda-feira, 19 de junho de 2017

Metamorfose



Estou me mudando
para uma outra casa,
bem maior e mais ampla,
com jardim e uma fonte.

Ainda estou trabalhando nela,
conferindo-lhe
mais consistência no soalho
e mais flexibilidade
nas paredes.

É uma casa suspensa
com requintes de simplicidade
Seu único luxo é a janela
onde vejo tudo
o que há para ser visto.

Nela até o meu sonho
é desperto e desabrocha
para um mundo mais vivo,
destrancando vidros e porta
e gerindo a infinitude.

Estou me mudando
para uma outra casa
assentada sobre
o além das formas.

Hoje revisito
o desconhecido
 que já me conhecia de outrora.

(imagem Google)

sábado, 17 de junho de 2017

Cruz e Sousa

 CAVEIRA

I
Olhos que foram olhos,dois buracos
Agora,fundos, no ondular da poeira...
Nem negros,nem azuis e nem opacos.
Caveira!

II
Nariz de linhas,correções audazes,
De expressão aquilina e feiticeira,
Onde os olfatos virginais,falazes?!
Caveira! Caveira!!

III
Boca de dentes límpidos e finos,
De curva leve,original,ligeira,
Que é feito dos teus risos cristalinos?!
Caveira! Caveira!! Caveira!!!

(imagem: google)

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Conhecimento


Conheci a noite,seus pesadelos,
o corte na carne,
o suor do sangue
enquanto definhava
nas veias do horror.

Conheci a as astúcias do pesadelo,
seu rosto sem alma,
sua forma esvaída
nos interstícios do medo.

Conheci o medo,o espanto,
o pavor avolumando-se
nos moldes das vísceras,
o grito soldando
crueldade e pânico.

Conheci o amanhecer
e os vestígios do sol
anunciando
que aves inventam as manhãs.

(foto: Google)