segunda-feira, 22 de junho de 2026
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Cidade Submersa
Chove sobre
a cidade submersa,
liquefazendo o que já é aquoso,
dobras do ventre grávido
de peixes e criaturas
que nunca dormem.
Chove na cidade sub-
mersa, o que dela escorre
é mais que água :
miríades que se alastram
em estranheza e escamas.
Chove no mundo que se funde
em imersão perene
e em insanidade reabilita
tudo o que teme.
Chove sobre o oceano,
chove, e a vida representa
o seu papel mais ignaro :
mal sabe a água
que se repetir
é um modo de se des-
encontrar e quando
a água se abate
sobre a água,
os peixes nadam com mais afinco
e o abissal abre
sua tumba para engolir
os que se atrevem
terça-feira, 16 de junho de 2026
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Lar
Entre os quadros do pintor de rua descobriu um que lhe despertou especialmente a atenção.
Obra simples,composta de uma casa,mas onde as formas,disposições de cores, tonalidades de luz e sombra continham encanto único.
Comprou-o e levou-o.
Colocou na parede da sala e admirava a imagem todas as vezes que por ali passava.
O artista captara alguma coisa ali que o fascinava à beira da obsessão.
Na hora de dormir, fechava os olhos e de imediato enxergava o quadro com toda nitidez.
Cada vez ficava mais tempo parado contemplando-o de modo que todas as atividades do dia ficaram sendo prejudicadas.
Preocupado, procurou pelo pintor, até que o viu na praça ,diante de um chafariz.
Perguntou a ele qual havia sido a inspiração para aquela pintura.
O homem sorriu e disse: Volte para casa
terça-feira, 2 de junho de 2026
Reinos
Onde começa e termina
a pedra,
sonho pétreo
que consuma
a coluna vertebral da terra
em minério insano?
Onde começa e termina
a planta,
fosso de luz e treva
que se consome
em fruto e furta
a raiz do mundo?
Onde começa e termina
o bicho,
coisa de ventre
que se fecha e abre
na placenta do mistério
e se funda
em suor e sangue?
Onde começa e termina
o homem,
cria das coisas
que se contemplam
e se mastigam
na ruminação do tempo?
Onde começa e acaba
o anjo,
que principia
etéreo e eterno
e se concentra
em nitidez translúcida
e desafia
os estigmas da carne?
Onde inicia o nunca,
onde termina o sempre
na aurora inaugurada
na matriz do imensurável?
Os estratagemas do silêncio
tornam-se audíveis
num instante
e em sua armadilha
nos quedamos,
para inspirar
o Sopro do intangível.


