segunda-feira, 27 de julho de 2026

Século

 



Vamos louvar a mediocridade,
nau de loucos sensatos
que abanam cabeças
para dizer que estão com fome,
banindo com precisão
os párias para ordenar
o mundo com sua oblíqua
geometria.
Vamos nadar com os loucos
num mar de sargaços
queimando em água viva
a ternura quer os acomete
após o terror noturno.
Vamos celebrar os santos do dia
enquanto as fogueiras ardem
para celebrar a extinção
das corolas em êxtase
no imaginário da flor.
Vamos colocar coroas de louro
nos lobos que farejam
o que restou dos homens
nas florestas incendiadas
pelo estupor da flora em extinção.
Vamos colar cartazes
nas praças para avisar
que estamos mortos
e que comparecemos
ao chá das cinco
vestidos com nossas mortalhas.
Vamos entoar o nada,
mantra que nos nutre
no vazio das artérias estioladas,
enquanto cegos guiam
cegos no insosso caminho
da miséria sem alma.
Vamos carregar pedras
para construir hospícios
no desaguadouro dos estuários
onde a carne transpira
sem poros e deposita
enxames de sustos
em apocalypse inviável.
Vamos, por fim, romper
as artérias dos poetas
para que os chacais entoem
seus cantos fúnebres
e a vida repouse, quieta,
depois do silêncio
das carpideiras

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