sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Arte

 



Não ser compreendido
é minha Arte,
disse o homem à beira
da vida, a cavar
o embrião da morte
a perseguir felinos
na cordilheira dos Andes.
Não respirar
é minha Arte,
disse o homem que suspira
ao ver o inverno tardio
queimando hostes
de demônios.
Não postergar a tristeza
é minha Arte,
disse o homem inaflito,
com discreto sorriso
de sábio, inventando
o modo arcaico
de romper o silêncio
dos átomos.
Não me render
é minha Arte,
disse ao mundo
o homem circunspecto
tratando de arrancar
os dentes para melhor sorver
a seiva do proscrito.

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Resenha

 



A poesia de W. J. Solha tem um olhar amplo, que abarca o todo. criando uma experiência existencial e filosófica a respeito da vida humana. No livro Poema Sobre as Obras da Terra, o autor aborda desde o mundo natural e sua capacidade de criar, faz uma reflexão a respeito da arte e da busca de sentido por meio de uma ânsia de compreender o mundo, forjando religiões que tentam apaziguar a inquietação interior de todos nós.
Essa capacidade de escavar as diversas camadas, tanto no âmbito natural quanto humano, faz do autor uma voz única na Literatura Brasileira. Seu olhar quase oniabarcante traduz a necessidade que temos de resgatar nossa humanidade; encantado e ao mesmo tempo desencantado com o homo sapiens. Solha traz à tona as antíteses que lutam entre si, mas também se completam e, paradoxalmente, revela a nossa incompletude, nossos desejos, nossa infindável procura. Por isso mesmo, é da incompletude que se faz poesia, arte, literatura, é ela que nos permite criar, nos desenvolver e trilhar caminhos novos, sem jamais deixar de lado a consideração com os caminhos que já foram trilhados por outros.
Dividida entre natureza e cultura, a História se move porque temos necessidade de desbravar o mundo e tentar compreendê-lo.
Solha é um mestre e deve ser lido por todos aqueles que apreciam poesia de qualidade

quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Resenha

 


Em seu mais recente livro, Não Derramarás o Vinho, publicado pela editora Litteralux, a escritora Cecília Kemel resgata o eu lírico, criando versos com forte intensidade emocional, explorando sensações, experiências e efetuando uma reflexão a respeito da vida.
A autora sabe selecionar palavras e, de modo sintético, consegue dizer o que pretende. Seus versos são precisos, frutos de uma verdade interior que se expressa com autenticidade:
Vaga/ na memória/na vaga insone/nave afundada/no fundo mar/ que amarra./Na onda brava/palavra cava/que o mar apaga./
Cecília almeja compreender os sentimentos que o mundo desperta, os relacionamentos humanos, usando todos os sentidos para experimentar aquilo que a vida tem a nos oferecer. Nessa travessia, tudo é importante, tudo tem significado, ainda que às vezes obscuro. Seu olhar atento busca, interroga e mergulha nas possibilidades inatas do nosso viver:
O livro é dividido em duas partes: "Por dentro a pele" e " Por fora, o alvoroço." Tal estrutura nos revela a inquietação de entrar em sintonia com seu eu e com o universo circundante, resultando daí a busca de um possível equilíbrio em meio aos movimentos da emoção e da razão. Ela questiona:
O que nos resta / de tudo que termos?/O segredo da vida:/ o que não vemos.
Trata-se de um livro pleno de sensibilidade e delicadeza, que nos faz sentir e pensar.

domingo, 16 de agosto de 2026

Florbela Espanca

 



Amar o que não
pode ser amado ,
ser a moça mais linda do povoado ,
vida a almejar simplicidade
costurada na crueldade
e angústia do imolado,
viver sem saciedade,
o circunscrito
nas vagas cegas do proscrito,
poeta, âmago da verdade
na inquieta incisão da realidade
que se descostura
perante o porvir da desventura,
sentir: teia iníqua da vontade.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

Blavatsky

 



Levantar o véu dos mistérios,
sondar o oculto
naquilo que se revela,
mar de enigmas
a se desvendarem
no mergulho abissal
do íntimo, o Único
além da soma das partes,
revelar o enigma
de ser e existir
na geomancia do mundo
a se desdizer diante
da fraternidade dos opostos,
saber que o Mistério
é o coração do Cosmos,
verdade cifrada
na criptografia do infinito.
(Helena Petrovna Blavatsky resgatou, no século XIX, a espiritualidade num mundo cada vez mais materialista . Foi perseguida e caluniada, mas cumpriu sua missão)

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Santa Teresa de Ávila

 



Muero porque no muero
después que muero de amor,
viver aos pés do Senhor
e em Seu coração,
Seu Sopro e Alento,
morrer de viver por dentro
para viver além de si,
saber que existe em Ti
o doer-se de amor
ao extremo, só o extremo
entende o fulgor
de entregar-se ao Supremo.
Anjos de misericórdia y dolor,
esgotar-se no Inesgotável,
poesia do Imponderável,
sofrer no esplendor,
na agonia do êxtase,
volitar além do mundo
porque muriendo el vivir
me asegura mi esperanza,
muerte do el vivir se alcanza.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Frida Kahlo

 



Quebrar-se
para ser inteira,
desafiar a dor,
o impedimento,
arte de retratos
que se consumam
dizendo ao mundo:
eis-me aqui a escavar
carne e alma
na contrafação
que é estar viva,
quebrar-se
para além das vértebras
é meu modo de sorver
o mundo em goles
de vitríolo.

terça-feira, 11 de agosto de 2026

Um Poema para Vivien Leigh

 



Pode a beleza ser salva?
Não se petrifica o talento
no pomar dos sonhos,
digere a própria polpa ,
nutre os olhos do cardíaco.
Pode a beleza ser salva?
indaga o mundo
de talento desprovido
a dilacerar-se em retalhos.
Se possível fosse, quem a salvaria?
relutam os incréus .
A dor transita entre esferas
e cristaliza o que se quebra e trinca.
Se possível fosse, quem o faria?
emulam os incautos.
Estrelas também fenecem,
atesta o diagnóstico.
( A atriz Vivien Leigh sofria de transtorno bipolar e foi muita incompreendida, morrendo de modo dramático)

segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Vertigo

 



Vertigem na espiral
do vazio, vazio que espuma
nas vagas do insólito,
sombra a perecer
nas frestas do estranho,
busca, alimento
que o sólido mata.
Vertigem e viagem
nas sombras calcinadas
pelo grito estridente
que inflama e incinera
a forma almejada, susto,
espanto, transtorno
do vácuo amoroso
dos caminhos estreitos.
Vertigem, voragem
que consome
o estrídulo vórtex
a regurgitar o insano
na miragem das córneas,
pálpebras que se fecham
sobre as sobras do abismo.
Vertigem, morte
que se desfigura e desmente
na iniciação dos pesadelos.
(Poema inspirado pelo filme Vertigo, de Alfred Hitchcock. Na foto, a atriz Kim Novak)

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

A Morte de Virginia Woolf

 


Cada pedra em seu bolso
é uma pedra pensada,
pedra que afunda a perda
de uma vida cansada,
pedra que sintetiza
o pesadelo, o sonho, o nada.
Cada passo principia
o fim duma outra estrada,
caminho sem volta, retorno
que cria e desmente a jornada.
Jornada, silenciosa tormenta
nas crateras do insidioso,
vida a submergir no limbo,
vida, placebo do nada


terça-feira, 4 de agosto de 2026

A Cicatriz de Ulisses

 



Minha verdadeira cicatriz
é Ítaca, que carrego
a todos os lugares
onde ela não se encontra,
desde sempre marcado,
mesmo no instante
ainda por emergir,

náufrago do mundo,
sobreviver é minha arte,
estratagema traçado
na vanguarda dos abismos ,
carregando na carne
desassossego e alento.

Ítaca é só um modo
de infringir o infinito