terça-feira, 23 de novembro de 2021

GEMA

 


Sol, pai 

de minério e sombra, 

brotar 

do estéril e do instante 

na geometria do Caos,  

embrião de treva e luz

no corpo do inconcluso.


cristalizar 

de imagem em relâmpago ,

esquartejar 

de consistência e cor 

nos ritmos do estático.  

Sopro de brisa  

na calmaria  do desacontecido. 


O que existe 

gesta o parir 

de  prematuro e insano.

Ancião é o Não-Tempo ,

avô de todas as coisas 

expiradas e por nascer, 

sementes 

da lavoura  fecunda 

do  incerto. 


Mais séria é a Morte 

a engendrar 

os arabescos do Espaço, 

arte de inventar 

pedras macerando nuvens  

nas saliências do ausente, 

círculo a converter-se em círculo 

nos estratagemas do silêncio,,

repouso  a rastejar  

as agruras do inquieto. 


Estilete  de gelo é o dia 

a liquefazer

a alvura do branco 

 a sedimentar o claro: 


nascer 

é tão improvável 

que nunca cessa.  

Respirar

o denso  é outro modo 

de liquidar o sólido. 


Deus 

é areia a escorrer 

nas fissuras do  límpido. 

É imprescindível 

criar 

o que já foi inventado.  




quarta-feira, 17 de novembro de 2021

POESIA


 Acender o Sol, 

moldar a Terra, 

inspirar a morte,

ressuscitar o tempo, 

recortar a sombra,

costurar o vento, 

insuflar  vida 

no que ela tem por dentro. 


Iluminar a Lua, 

clarear a luz, 

molhar a água, 

alagar o oceano, 

recolher a noite ,

estender o dia, 

saber que tempo 

é mais que cada ano. 


Escavar o Eterno, 

desdobrar o Infinito, 

remendar as horas 

em sua ossatura, 

modelar o instante  

em outra anatomia, 

tempo não é corpo, 

é só fratura: 

reatar o Todo , 

transfusão de sangue, 

Cosmos em curvatura. ,


sexta-feira, 12 de novembro de 2021

Entrevista

sexta-feira, 5 de novembro de 2021

Bharatanatyam


 Além do abismo,

o movimento,
o que conta e tece
revestindo de gesto
o anônimo.
Da velha Índia
a forma
que redefine o mundo
na gênese do Caos.
O corpo, a mudra
na aparição
do instante.

quinta-feira, 4 de novembro de 2021

Novela


 

"Deixo as folhas caírem,  o vento soprar,  o gelo vir.  Absurdamente permito acontecer.  Cada vez que uma folha cai,  o vento sopra  e  o gelo  vem.  Vanessa acontece.  É isso.  Outro segredo não posso revelar. 

   Recuso as missas de corpo presente,  os cantos fúnebres,  os epitáfios,  os belos discursos,  a leitura do inventário. 

   POuco me importa saber quantos  quilos de alimento  foram por ela consumidos., quanto pesava,  qual sua altura,  quais  suas cores preferidas,  quantas palavras pronunciou  durante toda a sua vida, que doença  a matou,  como vive uma pessoa que está morrendo.  

   Importa-me  u, jeito único de sentar-se que tinha , um relance de olhos,  uma expressão  de rosto,  o modo de caminhar,  o retiro e silêncio." 

( Livro publicado em  2005). 

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Tradução

 



   Tapeshwar Prasad  tem escrito uma mistura de  livros de poesia surrealista e realista.  Seu trabalho  tem sido  divulgado   no Camel Saloon , no Reino Unido,  Cordite Poetry  Review (Austrália),  Crushing Waves,  The  Aquillrelle , nos Estados Unidos e  várias outras  revistas .  Ele foi incluído  como ICOP  : Roll of Honour  por sir  Louis  Kasatkin  (Reino Unido). 


O BROTAR DE UM SORRISO 

Todas essas palavras joeiradas 

desfazem, num turbilhão 

de silêncio truncado, 

os recursos  do meu prelúdio 

que eu não poderia obter 

com a folhagem 

perdida 

onde

uma vez

você ondulou 

e fez brotar 

um sorriso em mim. 



terça-feira, 26 de outubro de 2021

Outono


 

Flores secas:

cadáveres poliglotas

traduzem

a agonia do  jardim. 


(Foto: Cleber Pacheco). 

sábado, 23 de outubro de 2021

Poema


 

POEMA
Toalha branca sobre a mesa.
Vaso de cristal , duas ou três flores inflamadas.
Folhas em branco, invioladas.
Sol na vidraça.
Onde, a tinta?

(Pintura: Cesar Bravo).

quinta-feira, 21 de outubro de 2021

Os Nomes da ´Índia


 

"Trecho da novela que está  disponível do site  Clube de  Autores). 

Bhuvaneshwari - Tiruvannamalai 

" Contara-me Anant : no templo  de Bhuvaneshwari ou Trinomalee, dedicado à deusa Durga,  na cidade de Tiruvannamali,  no estado de Tamil Nadu,  desde o século  XVI, talvez ainda antes,  os monges dedicavam-se  a uma única e exclusiva tarefa: realizar ao recenseamento de todos os deuses hindus, escrevendo em pergaminhos o nome  de cada um deles.  Além, é claro,  de registrar a sua origem, função e relações  de parentesco entre si. 

  Poderiam facilmente ultrapassar  os trezentos  e trinta milhões  e chegar a um bilhão.  " 

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A Arte de Ser


 

Na Arte do Puro 

não há intervalo,

é justo o intervalo 

a pureza do escuro.


Na Arte do Puro 

não há escureza, 

a própria escureza

é seu futuro. 


Em plena pureza

não há futuro, 

o seu futuro 

é acatar a incerteza. 


Em plena pureza

não há incerto, 

devolve o incerto 

a pura clareza.  


(Livro publicado em 2010). 

domingo, 10 de outubro de 2021

Domingo


 Domingo, fermento do ócio.

Delírio do calendário,
Domingo nunca está lá :
Oco de árvore sem árvore,
Miragem em lago sem água,
Domingo é dicionário a ser escrito
em alfabeto a ser inventado.
Domingo é provisório
como são definitivas as segundas.
Domingo é mendigo
farto de esmolas.

quinta-feira, 7 de outubro de 2021

Criatura


 

Tudo quanto vive,
vive sem aviso,
no inencontrado
descobre seu juízo
e no entanto sabe
quanto é impreciso,
ainda que seu ventre
tenha sido inciso
para desvendar-se
espelho e Narciso.
(Livro publicado em 1998. Na verdade, o primeiro livro de poemas publicado).

terça-feira, 28 de setembro de 2021

O Livro dos Sonhos


 

Desvendar a Grammáthica dos Sonhos  é tarefa a ser realizada  pelo sonhador. 

Cada sonhador precisa decifrar a sua. 

Não há um Dicionário Universal  dos Sonhos. Há  alguns sonhos universais. 

Uma mesma flor tem um significado diferente para cada ser sonhante. 

Construir o próprio Dicionário dos Sonhos é tarefa fascinante e perigosa.  Pode ser tentador embrenhar-se  por completo em seus meandros. 

Corre-se o risco de não mais acordar. 

(Livro publicado em  2019- Editora Penalux). 

sábado, 18 de setembro de 2021

Meio-Dia


 

Luz que corta
e tudo estende,
tudo é inteiro,
nunca fatia,
pedra que se expande ,
flor que fossiliza,
nudez da noite,
carne do dia.
Cortar que desmente
qualquer anemia,
sangrar do inconstante
em lâmina esguia,
desmentir do miolo
da sombra, aorta:
eterno é instante
que costura e corta.
(Foto: Cleber Pacheco).

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Eco


 

Tudo está no lugar 

de uma outra coisa.

Tudo substitui 

uma coisa que não pode

ser substituída 

e que nunca acontece. 

Todo corpo é sombra 

do que não tem corpo. 

Todo pensamento é mímica 

do que nasceu mudo. 

O mundo é só uma esfinge 

isenta de enigma.  


(Livro publicado em 2020). 

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

Invernia


 

Há um momento 

em que o mundo se recolhe, 

sequer ladram os cães.

Tudo se retira e se desventra, 

viver se torna concha 

no abissal do estéril: 

deixa de ser vidro o vidro, 

deixa de cortar , a faca, 

mimetizam-se  as coisas 

para se tornarem nulas: 

não mais  há musgo ou pedra, 

só o sintoma, 

desritualiza, o mundo,  

a agudeza do instante: 

raça, instrumento, nome 

se desmentem 

com inconsistência 

de sombra sobre a água: 

tudo é instinto e espanto 

nos descaminhos  

do rigoroso,  

tudo é  inverno e cavidade 

nas intimidades do mínimo: 

não há face nem totem 

nos recônditos do escuro, 

viver é anonimato 

a destituir o denso, 

instante de amolar lâminas 

para sangrar silêncios, 

carne do vibrátil 

 a render-se ao imóvel.  


(foto; Cleber Pacheco). 



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Resenha


 

    Mundialmente famoso devido ao polêmico romance Lolita. o escritor russo Vladmir Nabokov, deve ainda ser melhor conhecido no Brasil. O livro A Defesa é um ótimo motivo para desbravar  a literatura do autor. 

   O inquietante personagem Luzhin é uma grande criação, sem dúvida. Sempre deslocado, desajustado em qualquer ambiente, quase incapaz de expressar sentimentos, sem nunca conseguir compreender o mundo à sua volta, o personagem  se mostra sempre distante de tudo e de todos, incluindo os pais,  por quem nunca demonstra o menor afeto. Ainda menino, seu pai nutre esperanças de que ele realize grandes feitos,se destaque pelo talento e genialidade. O menino, no entanto, não consegue se interessar por nada. Na escola se revela medíocre, não consegue conviver com os colegas nem se interessar por nenhuma disciplina. Por mera casualidade, descobre  o jogo de xadrez e enfim desenvolve habilidades. Torna-se, finalmente, alguém de destaque por sua perícia e por algumas jogadas assombrosas. No entanto, durante um torneio, acaba entrando em colapso. 

   É nesse período que conhecerá aquela que se tornará sua esposa, a única pessoa a quem parece dedicar algum afeto. Nabokov vai desenvolvendo a narrativa com extrema habilidade, com um estilo cheio de humor e fina ironia, criando situações desconcertantes que nos fazem rir, pensar, intrigando-nos com a criatura taciturna e chamada de  palerma pelos amigos da esposa.  Esta, movida por um vago romantismo e algo próximo da compaixão,  busca mantê-lo afastado  dos jogos de xadrez, tentando despertar o seu interessa para outras áreas sem  nenhum sucesso.  Luzhin não está apto para mais nada.  Não entende a política, os negócios, as artes. Na verdade, não entende coisa alguma a não ser  o mundo do xadrez onde se recolhe, mesmo quando deixa de jogar. E é com este ponto de vista  que ele passa a observar e a sua própria vida, tentando escapar  das armadilhas da existência como se houvesse um adversário sempre prestes a derrotá-lo, a prejudicá-lo de um modo misteriosos até que consegue enxergar um padrão: as repetições devem ser evitadas e para isso ele sente que precisa criar uma defesa a fim de derrotar a animosidade do mundo e da existência contra si mesmo.  

   De forma magistral , Nabokov vai  desdobrando os temores  do personagem, acentuando-os e revelando  a crescente gravidade da situação e seu desfecho trágico. 

   Figura incômoda, canhestra,  incompreendida, Luzhin revela a inaptidão para viver num mundo que considera como absurdo e sem sentido. 

    A Defesa é uma  obra-prima a desafiar os limites da racionalidade, revolvendo as vísceras da estranheza do existir. 

   

     

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

Os Mortos


 

   Os mortos nunca morrem. Apenas têm uma vida mais delicada. Optaram pela discrição , comunicando-se através de sussurros . Seus gestos são mais autênticos, jamais se desmentem. Seus olhos reverberam no escuro enquanto tateamos entre sombras. Sentam-se diante de nós e bebem apenas um gole de chá, lembrando-nos que o sabor ainda existe. Desnudam a lima para nos lembrarem que o aroma é indelével. Tocam somente uma nota no piano para não nos deixarem esquecer que a música é possível.


Recebemos a visita dos mortos como quem se prepara para uma missa. Ajoelhamo-nos e reluzem os vitrais na concupiscência do Sol. Curvamo-nos, atentos ao Kyrye Eleison Regurgitamos hóstias de tristeza no áspero atrito dos dias. Enfim cedemos ao silêncio o dom de cantar mais alto.
(Foto: Cleber Pacheco).

  

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Os Anciãos


 

Livro para o público jovem adulto. Trata-se de um romance  no gênero fantasia  com muita ação, mistério, suspense ,  marcado ainda pelo misticismo. O Livro está disponível no site Clube de Autores.

"O antigo povoado de Sadira tinha  como marco central  um Templo circular  completamente abandonado. Assemeçhava-se a uma torre  de doze andares  inteiramente escavada na rocha.  Como o restante  das obras realizadas pelos habitantes locais, era de cor ocre, , com a diferença  que as moradias  enconrravam-se ocupadas por famílias  e ali ninguém  ousava entrar havia muito tempo, diziam.  Apesar de impressionante e ainda apresentar  muitas de suas  características originais, causando grande impacto  por sua imponência e beleza,  estava decadente e esquecida." 

quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Resenha


 Resenha de Eliane Pantoja Vaidya, uma carioca batalhadora pela cultura, apaixonada por livros e que gosta de escrever poemas. 

Terminei a leitura do extraordinário A Missa dos Insetos Mortos ,
livro de Cleber Pacheco publicado pela editora Penalux 2021.
Explico .o que encontrei de surpreendente nele.
O livro introduz um novo tipo de narrativa .Poderíamos chamá-la de teatro- poético ou poesia- teatro. Aqui os personagens vão aparecendo sem que saibamos seus nomes e vão agindo, atuando a cada nova cena. Os personagens estão soltos , são vozes soltas , livres.
Do mesmo modo não há necessidade de cenários.Eles surgem naturalmente em nossa imaginacão à medida que o enredo vai se desenrolando.
As vozes dominam tudo e constroem o espaço- tempo da ação. Um espaço mítico indefinido, indeterminado. As vozes são como um rio , como um fluxo. Neste universo de sombras, fanáticos, crentes e leprosos podem nos lembrar do Apocalipse de São João e também de tempos atuais, neste pais onde em meio a uma nova peste( a pandemia de covid-19) surgiu uma praga de gafanhotos que destruíram plantações e lobos que tendo a floresta destruída voltaram e ameaçar os pequenos vilarejos onde moram os agricultores deste imenso território
Assim poderíamos dizer do livro de Cleber Pacheco que é uma fábula moderna.
Um romance?Não me parece.Volto a dizer que penso mais um teatro, teatro do absurdo ,teatro absurdo projetado para tempos de horror,onde a selvageria campeia e a grande arte se faz presente e nos salva.
Espantoso, surpreendente, enigmático , como a Vida, como a Arte.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Pedra-Lago


 

Para o que não tem 

cova nem despensa 

não é a pedra vintém 

ou mesmo  res extensa  

Para quem só viaja 

por onde nunca pisa 

o lago até que ultraja 

o que nele só desliza 

Se o quieto se quebra

em aquosa linha 

repousa  a pedra 

abstêmia e sozinha 

Breve é o halo 

leve é a fala 

menor o elo 

 mais se cala 


(Livro publicado em 2010). 


quarta-feira, 11 de agosto de 2021

Microconto



REALIDADE
Um pintor. A cada dia ele pinta um quadro. Sempre o mesmo motivo. Terminando-o, vai até o porão. Enterra-o.

(livro publicado em 2014). 

segunda-feira, 9 de agosto de 2021

Poema


 

In this apocryphal place, 

windy and woeful, 

erosive voids bloom 

craters and monoliths of quietude. 

A petrified forest engenders 

fruits of pebbles. 

This nest-egg, 

procreation of sterility, 

archaeology of the instant, 

recognizes arid and rude, 

nourushes the root of nothingness, 

exhume seeds of  mummification, 

immobility can be a mystery 

or an answer. Sphinxes 

contradicts stone and corrosion 

Extracting essesnces from the dry  

and hermetic  ink that writes 

exiles and transubstantions 

in the extiguished 

Tree of Life.  

(Livro publicado no Reino Unido em 2013). 

terça-feira, 3 de agosto de 2021

Antologias poéticas internacionais

Tenho poemas em diversas antologias publicadas na Índia.  Aqui estão algumas delas.



 










sexta-feira, 30 de julho de 2021

Poema

TIME 
 

Carve out

Instant
On wings
Of the dragonfly.

(Livro publicado no Canadá em 2014).

terça-feira, 27 de julho de 2021

Resenha


    Publicado em 2020, o livro de poemas MIDIASERÁVEL de Delalves Costa, editora Patuá,    dialoga ,com o seu livro anterior EXTEMPORÂNEO ( editora Coralina, 2019).  Dá seguimento à proposta poética do autor  levando-a a um novo patamar.. Além disso, ocorre um diálogo com  o Drummond engajado de A Rosa do Povo. Aliás, a imagem da flor e da roseira aparecem constantemente , mas como metáforas de uma beleza conspurcada, devastada, a sangrar ilusão pela raiz,roseira sem jardim   sem cor, pois   morre-se no miolo  neste mundo contemporâneo. 

   E agora José se transforma em E agora Josseu? , uma mistura do José, o homem comum, com Odisseu, agora sem ilha, sem pátria, sem Penélope, sem ter para onde voltar. Segundo o poeta, restou apenas uma vida sem rumo, sem fronteiras, globalizada  sem raízes, sem pátria, no sentido amplo da palavra.. A humanidade, colocada dentro de moldes e molduras, mecanizada, alienada, manipulada pela Mídia, foi reduzida ao automatismo.  Torna-se, assim, quase impossível humanizar-se, desenvolver-se interiormente, pois parto que se aquieta não nasce ,  há um  útero invertido.  Anestesiados pela manipulação midiática, os seres humanos  sofrem uma quebra,tornam-se bagaço na morte semanal, fragmentam-se.  

   Os primeiros poemas do livro possuem versos completamente fragmentados, aparentemente desconexos, exigindo que o leitor  consiga estabelecer as relações partidas entre as palavras. Aliás, a linguagem tanto pode ser um caminho de alienação quanto de resistência. Para o morador de rua, a folha de jornal não é fonte de informação: serve apenas como um cobertor que não protege, mas o exclui ainda mais.v

   Esta é uma época do inconcluso, do inacabamento, odo humano não consegue se afirmar, se construir e se buscar.    

   O que se pode fazer num mundo alienante , desumanizado e cruel?  Encontrar brechas , breves vislumbres de poesia e vida, descobrir o valor da desimportância, das miudezas, daquilo que é considerado insignificante pela maioria. É preciso fazer do inacabado oportunidade de respirar e redescobrir , ao menos em parte, o que foi perdido.  São pétalas ao vento, dispersas e frágeis que podem e precisam ser colhidas e valorizadas.   Numa   realidade que nos esmaga, temos  de buscar possibilidades de ser. A poesia é uma delas.  E o autor não se refere apenas à poesia escrita, mas aos instantes poéticos, fugazes e significativos  capazes de nos despertarem do marasmo, do terrível epistemicídio  que nos impede de conhecermos a nós mesmos e a vida.   

  Há versos de grande beleza ao longo das páginas e certamente um dos poemas mais belos é intitulado  O Tudo e O Nada.: 

Poema é uma coisa que guarda tudo 

contudo não guarda nada. 

Estranho quando nele está o mundo 

e a voz permanece calada. 

Às vezes, a gente que não estaria lá 

de repente é encontrada. 

Pretender guardar é um lapso 

(um lapso só, mais nada). 

A vida escrita é um (apenas) enigma 

enquanto coisa desvendada.                

                                             

sexta-feira, 23 de julho de 2021

Poema Orgânico


  A vida tem dessas náuseas 

que regurgitam ossos, 

transmutam a textura da pele, 

expelem pedras dos rins, 

imprimem memórias 

na tipografia das células, 

nutrindo esquecimentos

nos estilhaços do instante.

A vida tem desses nódulos 

Gerados nos gânglios do medo, 

Desventrando os fetos da alma, 

Macerando os fósseis do nada.  


( Livro publicado em 2020). 

domingo, 18 de julho de 2021

ARTE POÉTICA


 

Nunca escreva poemas
sobre flores e rios,
jardins ou pontes.
Escreva apenas poemas
sobre o inexistente:
amores, abraços,
anjos, ingentes deuses.
Não é feito de névoa
o verso, ou vômito:
palavra é esgotar
de infinitos descontínuos
de espanto,
é inacabada reza
a nunca implorar
milagres, bençãos.
Poeta é mesmo o tempo
que, incansável,
se suicida e se desmente
no eviscerar dos vivos.


(Foto: Cleber Pacheco). 




[

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Espreita


 ESPREITA

Mais mimética
que espera é espreita,
modo estrábico
de atar o simétrico,
corpo sem ossos
na emenda das fraturas,
modo reto
de desatar o oblíquo.
Desprovida é a espreita
em indigência desperta,
imóvel que se alastra
ao ruminar o encoberto,
ossos sem corpo
em erosão de tecidos,,
dinâmica do estático
no calor das sombras.
(foto: Cleber Pacheco).

segunda-feira, 12 de julho de 2021

Conto


  O LIVRO DOS ESCREVINHADORES 

Principiaram escrevendo no Livro de Argila . passando , a seguir, a utilizar o Livro de Pedra,  dela desistindo e utilizando o Livro de Metal , até acharem mais prático os Pergaminhos feitos de couro, inventando um material  mais leve, o papel,  então descobriram o Livro Virtual  e por ainda excessivamente  tangível, passaram a escrever no puro éter  até decidirem  ser melhor  começar  a escrever apenas  nos Registros akáshicos , chegando  à conclusão: só há Palimpsestos.  


(Livro publicado em 2019). 

terça-feira, 6 de julho de 2021

Poema


 WINTER

Bees have been banned from my garden .
Dried flowers don't promise honey.
Lips fear cracked glasses.
Frozen river does not swallow water.
In winter sun looks like moon.
Cold's calligraphy is not always legible.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

Poema


 INTIMACY

You're bleeding?
Take my hands and sew up your veins.
Use my skin to repair your burns.
You can transplant my voice into your throat.
And gulp my breath with three gulps of water.
My body is just a map showing the path that leads
to the heart of events:
intimacy is always hidden ahead ,
where rumors mask the silence.

quarta-feira, 9 de junho de 2021

Resenha


 Resenha do jornalista e escritor Fernando Sousa Andrade: 

A palavra está primeiramente no corpo. Ela sai da boca articulada pelas tensões do desejo. Quando o corpo está descompassado,  culpa ou dor, a palavra  tem torções, ela  se volatiza perante algum misterioso desígnio.  Mas ações também são palavras invisíveis, assim como a fé é uma oração cheia de frases, telegráficas. Quando recalcamos o desejo, entramos em algum mundo cheio de possibilidades de lacunas onde o temor, o respeito parecem se juntar como o ódio, a raiva, rancor.

 A ficção é um um lugar onde estas lacunas podem ser mediadas tanto pelo desejo de encontrar alguma filosofia, onde causas primeiras se estabelecem perante o conflito das razões. Ciência e fé parecem ditames tão antagônicos, uma movida pela fé cega e amolada dos cordeiros de cristo, escritas pela medição de culpa e remorso. Outra usa o método para extrair relações entre uma ação e seus efeitos e consequências – até uma base filosófica do livre-arbítrio, parece ser seu discurso do método.
 No livro que parece se desnortear em classificações, e portanto não ter uma linha fixa de constituição, A missa dos insetos mortos, de Cleber Pacheco, pela editora Penalux,  nos conduz pelo caminho entre a ilusão de que corpo pode ser santo ou puro quando mediado por palavras cheias de interseções. Um guardião parece tomar conta de uma casa onde se encontram virgens adormecidas. O corpo delas, sem qualquer latência, parece emitir uma religiosidade perene. Mas, fora dali, um grupo de peregrinos com tipos de doenças como lepra, ou algum tipo de redenção a obedecer, chegam para pedir alguma bênção às virgens com relação ao seus corpos que parecem estar com algum tipo de decomposição física, mas também,  anímica.
 Cleber através de um texto cheio de imagens religiosas nos faz entrar dentro de um universo onde a fé é quase uma narrativa gnóstica de purificação e desejo. Violência e recalque são projetados pelos peregrinos que postulam uma ambivalência bem arquetípica dos contos primitivos.  

sexta-feira, 4 de junho de 2021

Revista


 

Meu poema CITY foi publicado em 2019 nesta revista dos Estados Unidos. 

CITY

My city is made of stone
Excavated and carved
In the mists of time,
Solid dream liquefying
Mysteries of the shadow .
Nothing is more solid
Than this mirage
Eroding walls of dreams.
My city is ore and spirit
Intertwined
On rock roots
And foam flowers
Sheltering the vastness

Of the shell I inhabit. 

segunda-feira, 31 de maio de 2021

Antologia Poética Internacional


 

 Poema de minha autoria que faz parte do livro SIGNIFICANT ANTHOLOGY publicado  na Índia em 2015: 


GUEST
Sit down. You are my guest.
My house has many leaks
and a drop is always falling
over my head,
but you are my guest.
My furniture is completely broken
and chairs have only three legs,
but sit down.
You are my guest.
I have no food or water
to offer
and all my bills are unpaid,
but you are my guest.
The carpet is old
and it was eaten by moths
and my feet have many calluses,
but you are my guest.
My words were extinguished
and I had to sell the last dictionary
but sit down and talk ,
you are my guest.
As a matter of fact
I died three days ago
and my flesh begins to fade,
but sit down.
I have no other guest.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

Poema inspirado em Shakespeare

 


Este poema de minha autoria foi selecionado e  FAZ PARTE do livro SHAKESPEARE SINGS publicado na Índia em 2017. A proposta era escrever poemas inspirados nas peças do autor. Escolhi uma das falas do Bobo e criei o poema: 

KING LEAR AND THE FOOL 

I opened an egg
in the middle,
dividing the whole
into halves .
I ate its core
and the heart
will be mine.
There remain
two halves
and it is necessary to find out
what to do with that which is not whole.
You peeled
the two halves
and nothing remains in the middle.
There is no more
heart
for your enjoyement
or to nourish you.
Now
we are spoils
and we lost the whole.
We can
only walk
in the middle of nowhere,
fool and king
trying to forget:
you, what you lost,
I, what I never found.