segunda-feira, 22 de junho de 2026
quarta-feira, 17 de junho de 2026
Cidade Submersa
Chove sobre
a cidade submersa,
liquefazendo o que já é aquoso,
dobras do ventre grávido
de peixes e criaturas
que nunca dormem.
Chove na cidade sub-
mersa, o que dela escorre
é mais que água :
miríades que se alastram
em estranheza e escamas.
Chove no mundo que se funde
em imersão perene
e em insanidade reabilita
tudo o que teme.
Chove sobre o oceano,
chove, e a vida representa
o seu papel mais ignaro :
mal sabe a água
que se repetir
é um modo de se des-
encontrar e quando
a água se abate
sobre a água,
os peixes nadam com mais afinco
e o abissal abre
sua tumba para engolir
os que se atrevem
terça-feira, 16 de junho de 2026
sexta-feira, 12 de junho de 2026
Lar
terça-feira, 2 de junho de 2026
Reinos
quarta-feira, 27 de maio de 2026
Relíquias
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Azul
terça-feira, 28 de abril de 2026
O Sétimo Sentido
quinta-feira, 2 de abril de 2026
Instinto
sexta-feira, 27 de março de 2026
Vestígios
quarta-feira, 25 de março de 2026
Verbo
terça-feira, 24 de março de 2026
Hoje
Hoje eu quero um poema
que me faça trincar
os dentes, perfurar os olhos,
, pedir
transfusão de sangue
para nossa anemia.
Poema que não cure
insônia e desperte
as quatro estações ,
poema que declare
a renda e que esmole
palavras em sânscrito
para espantar os mudos,
poema que destile
a voz para sanar os surdos,
poema que reconfigure
a morte em sábado de aleluia.
Hoje quero um poema sólido,
líquido, gasoso para abraçar
todos os estados da matéria
e depois cravar
o punhal da vida
na coluna vertebral dos invertebrados.
Hoje quero um poema que não coagule
e se derrame sobre as vestes
do crucificado.
Hoje quero um poema límpido
num ato híbrido
e que nos desfaleça
perante a voragem
do imprevisto.
Hoje quero um poema extinto
para ressuscitar
os fósseis do imprevisto.
Hoje quero um poema
que me faça morrer
diante das dobras do Infinito.
quarta-feira, 18 de março de 2026
terça-feira, 17 de março de 2026
Filhos
quarta-feira, 11 de março de 2026
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Chama
Ó Vós que corrompeis
o mundo com vossa fúria
e preguiça,
abençoai os votos
de mansidão e quietude,
calai
diante da febre do orvalho,
doando vossas córneas
aos mudos de espanto,
recolhei-vos três dias
no ventre da baleia
decifrando
os mistérios do marinho,
calai vossa soberba
perante a ingenuidade da brisa,
aquecei os corações
dos que acendem fogueiras
até que no ato derradeiro
seja destituída vossa sanha
de ganância e lascívia
para que se estenda
aos confins do mundo
a chama do que é vivo.
( foto: Cleber Pacheco).
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026
quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026
terça-feira, 17 de fevereiro de 2026
Resenha
segunda-feira, 11 de agosto de 2025
terça-feira, 5 de agosto de 2025
quarta-feira, 30 de julho de 2025
Círculos
sexta-feira, 25 de julho de 2025
Peixes
sexta-feira, 11 de julho de 2025
quarta-feira, 18 de junho de 2025
O gato e o mar
Na janela,o gato vê o mar.Ronrona e namora,quer a água
como amor.Não sabe o que são ondas,apenas está afoito.Chegar até a praia é o
seu grande desejo.
Salta para
a rua,atravessa-a,chega até o cobiçado local.
O namoro
principia.
Nunca
ninguém viu coisa igual.Um gato pela praia não é de todo dia.Passam
pessoas,passeiam pelas calçadas,nenhuma só presta atenção em tão inesperado
acontecimento:um gato apaixonado pelo mar.
Água e felino
não combinam,creem todos.Jamais viria à cabeça de quem quer que fosse
semelhante pensamento:um gato apaixonar-se pelo mar.
Ninguém
vira o rosto para observar o gato a rondar o inquieto líquido.Mas ali está
ele,todo à espreita,à espera de uma distração,de um descuido das ondas.Talvez
dê o bote.É que ele sonda as águas.E não compreende.
Com o
inesperado encontrou-se:uma coisa que balança suavemente e o chama para si.
Vem comigo,dizem as ondas,vem.
Difícil resistir.
Resistente,ao invés de ser encantado,quer encantá-las.
Também sei pular,diz.E salta para frente
em exibição.
Um estranho
bailado se faz presente:o do gato que não só não quer render-se ao mar,como
também pretende rendê-lo.E o do mar,igual em quase tudo,só mais largo,mais
tentador.
Difícil
saber qual o movimento mais poderoso.Um,cheio de manha.O outro,vasto.
Um tentando vencer pela agilidade.O outro,pela
grandeza.
Duelo
perigoso,onde os dois atacam,se exibem,tentadores e hábeis.Cada qual mais cheio
de encantos.
Eu consigo,sussurra o mar.
Consigo eu,insiste o gato.
Bailado e
duelo plenos de beleza e susto.
Homens e
mulheres continuam seu passeio,nada percebem.Parecem tão preocupados.
Enquanto
isso,do inesperado beijo,do bailado e da embate nasce o inesperado:um
ronronar-marulhar ou um marulhar-ronronar.
Somente
eles poderiam entender o significado de tal diálogo.
Irrompendo
em claridade,em tudo interferindo,surge,entre bicho e imensidão aquosa,no exato
meio,o sol:
Não sei o que pretendem vocês,interrompe.
Meio
atônitos,ambos olham para cima.É o gato que responde,insolente:
Não te interessa.
Estamos testando quem vai vencer,explicou
o mar.
Está na hora de resolverem esta situação,esclareceu
o sol.
Ali
embaixo,cada um pensa que teria sido melhor se aquele intrometido não tivesse
vindo dar ordens.
Precisam,agora,encontrar uma rápida saída.
Recua,em
ondas,o mar.
Para casa
vai o gato.
O sol,meio
aborrecido,recolhe-se atrás de uma nuvem.
Da janela o
gato mira o mar e mia.
Na
praia,retorna a água e murmura.
Mesmo à
distância,o namoro prossegue.
A vidraça
através da qual os dois se enxergam,dirige-se a eles,compreensiva:
Sim,sim,podem ficar à vontade.




