terça-feira, 28 de abril de 2026

O Sétimo Sentido

 



Além
do indizível,
o impermeável
em substrato
da semente e do arbóreo,
âmbar astuto
que fossiliza
incessante fluxo
do Nada,
espírito e matéria
na Eternidade
a ecoar
o pré-silêncio
do intestino das coisas,
todos os sentidos
além do sentido,
inenarrável Presença
a dissolver
espaço-tempo
no ventre imaculado
do intangível.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

Instinto

 



Não sei o que é a água,
a água é um estranhamento límpido,
disse o marinheiro,
Só conheço os portos
onde homens, mulheres e crianças
executam suas própris travessuras.
Não sei o que é o Oceano,
diz o marinheiro. enquanto tritura
ondas e fráguas
num fogo líquido,
adivinhando uma estranheza
inda mais funda :
não há nela
nenhum vestígio
de Poseidon e sereias.
Enquanto sonha
com peixes que coagulam
a balbúrdia dos instintos,
mansamente, o marinheiro
se afoga
na voragem do Infinito,

sexta-feira, 27 de março de 2026

Vestígios

 



Com pés nus sobre
a Terra, sentindo
o seu caroço quente
pulsar,
desnecessário
é caminhar doravante;
estendo
as mãos em direção
ao Sol
e tudo é perfeito:
nada me falta ,
a não ser o excesso
das estratégias da morte
enquanto se apagam
os vestígios do dia;
contento-me com pouco :
depois é só carregar
o sereno que desce
sobre as sombras.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Verbo

 



A palavra que me deste,
febril, inerte, ferida,
tinha corpo de abril,
de inverno constituída,
era despida, caduca,
carente de espelhos,
tinha rostos, pernas, braços,
sem cotovelo e joelhos,
era um eco ausente,
fornalha no gelo aquecida,
corpo iridescente,
anatomia sem vida.
A palavra que tenho
é pouca, rara, esquisita,
dentro de sua voragem,
alguma coisa palpita,
muito mais que viagem
numa terra estrangeira,
é parto e passagem
para uma vida inteira.
A palavra que invento
é insólito ruído,
aquilo que acrescento
ao que nunca é nascido,
início do mistério
nunca desvendado,
verve e inventário,
hora sem horário,
círculo quadrado.

terça-feira, 24 de março de 2026

Hoje

 



Hoje eu quero um poema

que me faça trincar

os dentes, perfurar  os olhos,

, pedir 

transfusão de sangue

para nossa anemia.


Poema que não cure

insônia e desperte 

as quatro estações ,

poema que declare

a renda e que esmole 

palavras em sânscrito 

para espantar os mudos,

poema que destile 

a voz para sanar os surdos,

poema que reconfigure 

a morte em sábado de aleluia.


Hoje quero um poema sólido,

líquido, gasoso para abraçar 

todos os estados da matéria 

e depois cravar 

o punhal da vida

na coluna vertebral dos invertebrados.

Hoje quero um poema que não coagule

e se derrame sobre as vestes

do crucificado.

Hoje quero um poema límpido 

num ato híbrido

e que nos desfaleça 

perante a voragem 

do imprevisto.

Hoje quero um poema extinto 

para ressuscitar

os fósseis do imprevisto.

Hoje quero um poema

que me faça morrer 

diante das dobras do Infinito. 



quarta-feira, 18 de março de 2026

Teatro

 






Peça que escrevi em parceria com Rafael Rodrigues e Oficina de Teatro.

terça-feira, 17 de março de 2026

Filhos

 

Não mais acolhemos
os filhos da floresta,
seus sussurros, seus silvos, seus uivos,
esquecemos
onde a borboleta habita,
em que águas volitam
os peixes,
em que troncos rastejam
insetos estalando ao sol.
Desarticulamos
os dicionários que revelam
a voz primeva das eras,
arranhando
nossas gargantas antes
de evocarmos
o que o inverno inventa.
Não mais extraímos
as tinturas da vida ,
esgotando
a sua promessa.
Não mais ouvimos
os filhos da selva,
nossos garfos se cravam
ante a agonia dos mortos.
Não mais sabemos
quem são os filhos acolhidos
pela raiz antiga do mundo,

não mais.



quarta-feira, 11 de março de 2026

Silêncio

 


É sabido que o silêncio 

tem vocabulário vasto, 

dicionário insincero

etimologia do casto,


pedra com pedra procria 

o mais sincero repasto,

cego que espia 

a intensidade do vasto,

 

sereia de vento  e vazio 

no coração do mudo:

estiolado no cio 

onde nada é tudo.






quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Chama


 


Ó Vós que corrompeis 

o mundo com vossa fúria

e preguiça,

abençoai os votos 

de mansidão e quietude,

calai 

diante da febre do orvalho,

doando vossas córneas 

aos mudos de espanto,

recolhei-vos três dias

no ventre da baleia 

decifrando 

os mistérios do marinho,

calai vossa soberba 

perante a ingenuidade  da brisa,

aquecei os corações

dos que acendem fogueiras 

até que no ato derradeiro 

seja destituída vossa sanha 

de ganância e lascívia 

para que se estenda

aos confins do mundo 

a chama do que é vivo. 


( foto: Cleber Pacheco). 



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Exílio

 



Atravessar os dias
na crueza do inóspito,
desvendar a fala
das coisas que nasceram
mudas, investigar
onde se oculta
a sombra sob
o sol do meio-dia,
nada implorar
aos céus a não ser
por um pouco mais
de estranheza,
a vida só se exalta
na intensidade
dos exílios.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Milagre

 



O mundo  se esqueceu 

dos peixes,

apesar da multiplicação. 


Todos querem o milagre,

ninguém lembrou da fome : 


Ela faz  morada 

no fundo dos abismos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Resenha


 


Livro de ficção, A sombra da agulha, metaforiza a arte da escrita em ponto e fuga ou não na cicatrização da ferida.
Como uma ferida aberta aqui podemos figura-la metáfora, a vida nos expõe a isto. A agulha tenta fechá-la com linhas de escrita. Mas a escrita também suporta a dor, às vezes ela é o cerne da dor. O Inapetente não sente pena da sua ferida, pois não tem desejo para cicatrizar seu ego. Em novo livro de difícil rotulação, Cleber Pacheco, em A sombra da agulha, editora Litteralux, destila uma escrita híbrida entre a ficção e o ensaio poético e filosófico. O desejo do Inapetente, ou sua fuga para a sublimação onde obra e vida se sugestiona para uma certa complexidade existencial com as duas partes do livro, o coro e o guiado, na qual, funcionam como complementares, sendo que uma tem uma voz plural, multifacetada. Já a parte guiada tem a figura do rastreador, um leitmotiv, que não corrige imposturas, mas serve como elemento de sinalização e procura, por algo dentro do próprio corpo da escrita perdido. O autor é hábil em seccionar o tempo cronológico, de um tempo mítico, onde palavras são desígnios dos deuses. Para isto o livro precisaria não se comparar a elegibilidade dos Deuses, e sim preparar a condição humana para a inexorabilidade da morte.

segunda-feira, 11 de agosto de 2025

Relógio de sol

 


Há muito tempo o tempo
deixou de existir,
estátua de água
que o mundo esculpiu,
grávido de nada,
o instante gerou,
espírito do explícito
pela morte semeado,
subtrações da ausência
do inverso ao quadrado,
côncavo espelho
que o algarismo inventou,
relógio de sol
nas frestas da sombra
que o assombro criou.

terça-feira, 5 de agosto de 2025

Blavatsky


 

Ler o oculto 

até a chama que habita 

os ovários da matéria 

retirando

os véus que inflamam 

a febre do espírito,

esplendor que tece

filigrana e luz ,

magia e mistério,

árvore da vida

a coabitar todos os mundos

fecundando 

a Vida

em intersecções múltiplas

tecendo o desabrochar 

do Uno. 




quarta-feira, 30 de julho de 2025

Círculos

 



Uma construção circular com quatro torres idênticas, sendo que a torre do leste fica exatamente diante da torre do oeste.
O mesmo se dá com as torres do norte e do sul.
Os moradores da torre do leste afirmam que a torre do oeste é apenas um reflexo da sua torre e os do oeste juram que a torre do leste é apenas o reflexo da sua própria torre. O mesmo se dá com as torres do norte e do sul.
O centro da construção circular é inteiramente ocupado pela água.
Esta água crê que é toda a água existente no mundo.
Os habitantes da Lua afirmam que a construção circular é apenas um ponto em meio ao Oceano.
Já os habitantes de Andrômeda sentenciam que a Terra nunca existiu.

sexta-feira, 25 de julho de 2025

Peixes

 



Ontem ela me perguntou:
" Por que os tomates vêm sempre estragados?
Por que os pêssegos não têm gosto?
Por que as abelhas estão morrendo?"
Dizem os sábios que muitas vezes
é melhor não responder.
E eu que não sou sábio,
e eu que não sou santo,
sentei-me e escrevi um poema.
Talvez porque escrever
poemas seja a única
coisa que sei fazer.
Talvez porque escrever
poemas seja a única
coisa a ser feita.
O fato é que nem sempre
me calo e os peixes morrem
pela boca, dizem.
Talvez um dia eu pense em cultivar
una pequena horta.
Por ora continuo cometendo poemas.

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Ideograma

 



Pousa na pedra
a borboleta,
oposto dum grito,
tortuosa escrita,
nítida caligrafia
de acaso e destino,
desencontro de encontros,
delícia e desdita,
sem palavras, só peso,
leveza e enlace
de ritmos, o oposto
dum pensamento,
clara noite, dia escuro,
pincel do delírio
nas tintas
do entendimento.

quarta-feira, 18 de junho de 2025

O gato e o mar

 



Na janela,o gato vê o mar.Ronrona e namora,quer a água como amor.Não sabe o que são ondas,apenas está afoito.Chegar até a praia é o seu grande desejo.

     Salta para a rua,atravessa-a,chega até o cobiçado local.

     O namoro principia.

     Nunca ninguém viu coisa igual.Um gato pela praia não é de todo dia.Passam pessoas,passeiam pelas calçadas,nenhuma só presta atenção em tão inesperado acontecimento:um gato apaixonado pelo mar.

   Água e felino não combinam,creem todos.Jamais viria à cabeça de quem quer que fosse semelhante pensamento:um gato apaixonar-se pelo mar.

     Ninguém vira o rosto para observar o gato a  rondar o inquieto líquido.Mas ali está ele,todo à espreita,à espera de uma distração,de um descuido das ondas.Talvez dê o bote.É que ele sonda as águas.E não compreende.

    Com o inesperado encontrou-se:uma coisa que balança suavemente e o chama para si.

    Vem comigo,dizem as ondas,vem.

     Difícil resistir.

     Resistente,ao invés de ser encantado,quer encantá-las.

    Também sei pular,diz.E salta para frente em exibição.

     Um estranho bailado se faz presente:o do gato que não só não quer render-se ao mar,como também pretende rendê-lo.E o do mar,igual em quase tudo,só mais largo,mais tentador.

     Difícil saber qual o movimento mais poderoso.Um,cheio de manha.O outro,vasto.

Um tentando vencer pela agilidade.O outro,pela grandeza.

     Duelo perigoso,onde os dois atacam,se exibem,tentadores e hábeis.Cada qual mais cheio de encantos.

     Eu consigo,sussurra o mar.

    Consigo eu,insiste o gato.

     Bailado e duelo plenos de beleza e susto.

     Homens e mulheres continuam seu passeio,nada percebem.Parecem tão preocupados.

    Enquanto isso,do inesperado beijo,do bailado e da embate nasce o inesperado:um ronronar-marulhar ou um marulhar-ronronar.

     Somente eles poderiam entender o significado de tal diálogo.

     Irrompendo em claridade,em tudo interferindo,surge,entre bicho e imensidão aquosa,no exato meio,o sol:

    Não sei o que pretendem vocês,interrompe.

     Meio atônitos,ambos olham para cima.É o gato que responde,insolente:

      Não te interessa.

     Estamos testando quem vai vencer,explicou o mar.

     Está na hora de resolverem esta situação,esclareceu o sol.

     Ali embaixo,cada um pensa que teria sido melhor se aquele intrometido não tivesse vindo dar ordens.

     Precisam,agora,encontrar uma rápida saída.

     Recua,em ondas,o mar.

     Para casa vai o gato.

     O sol,meio aborrecido,recolhe-se atrás de uma nuvem.

     Da janela o gato mira o mar e mia.

     Na praia,retorna a água e murmura.

     Mesmo à distância,o namoro prossegue.

     A vidraça através da qual os dois se enxergam,dirige-se a eles,compreensiva:

     Sim,sim,podem ficar à vontade.

 



sábado, 14 de junho de 2025

Erínias

 



Eis que vem o inverno,
avisam as Erínias,
tempo de amar o fogo
e dissolver as cinzas,
tempo de recuar
até o recôndito
e escarnecer do corpo
até que o gélido
a dúvida remova
e reencontre
as alma do inanimado.
Eis que o inverno chega,
avisam as Erínias,
consigo trazendo
o calor do quieto
enfim revelando
o ânimo do íntimo
que, sem alarde, escaneia
a carne do espírito
e mansamente nos lega
o que incendeia
o eterno num átimo.

segunda-feira, 2 de junho de 2025

Autor Convidado

 



Doutor em Teoria e História Literária pela UNICAMP, Luciano Marcos Dias Cavalcanti é autor de vários livros de ensaios e estudos dedicados à literatura e à música popular brasileira, especialmente à poesia e aos poetas, dos quais se destacam: Orfeu, Prometeu e as Musas: mito e poesia em Murilo Mendes (2025), Chico Buarque, intérprete do Brasil (2024),  Poesia, o que é e para que serve? (2021), Poesia e transcendência na lírica de Jorge de Lima (2019), Emílio Moura: o poeta em busca do incognoscível (2017) e Metamorfoses de Orfeu: a “utopia” poética na lírica final de Jorge de Lima (2015). Tem dois livros de poemas publicados: Instantâneos do cotidiano (2020) e Aporia (2023).


Por que razão resolveu ir para o mar?

 

Resolveu ir para o mar.

Partiu de sua ilha,

num nevoeiro espesso.

 

Não temia o uivo do vento,

ser castigado pela fúria da tempestade,

ser tragado pelas ondas do oceano.

 

Montanhas de água erguiam-se e quebravam-se.

O mastro arqueava, a água subia no convés,

a embarcação sacolejava.

 

As tormentas eram permanentes,

incidentes inexplicáveis ocorriam,

ataques de selvagens de estranhas tezes tatuadas.


Seguiu viagem, em busca de maravilhas

levado pela corrente marítima,

deparou, amiúde, com o comércio de almas.


Não se amparou na luz de nenhum farol.

Não encontrou nenhuma ilha bem-afortunada,

para ancorar seu barco combalido, à deriva.


Foi para o mar para afastar a ameaça do vazio,

aquele sentimento incômodo da vida ser 

nada mais que um desperdício de dias.                                                                    



 Navegação

 

Singrando devagar um mar sonolento

– mergulhado em sua melancolia –,

o nauta atravessa o convés continuamente,

cada extremo da embarcação.

Da proa à popa,

mira as águas a serem vencidas pela nau,

expande-se no espaço;

despede-se das águas escorrendo para trás,

consome-se no tempo.

A solidão é intolerável.

A intensa concentração do eu

na imensidão do mundo líquido

afoga o infinito de sua alma

nas profundezas do desconhecido.

O mar é uma perene incógnita,

com suas magníficas matizes de azul,

esconde traiçoeiramente temíveis criaturas.

 

 

 Ao farol

 

“O Farol era, então, uma torre prateada em meio à névoa, com um olho amarelo que se abria rápida e suavemente à noite.” (Virgínia Woolf – Rumo ao Farol)

 

_ Enfim, vamos ao Farol?

_Após tantas mortes?

O que faremos lá?

Arriscaremos extinguir nossas vidas

nos atirando ao encontro de algum rochedo

nesse mar bravio?

Muitos se foram.

O ambiente está empoeirado.

O que resta é um pouco de luz verde-acinzentada

e sombras perambulando pelas paredes.

O faroleiro não deseja nossa companhia

com jornais e revistas.

Não quer que nossas ruínas entrem no seu lar

e acabe com o encanto de sua solidão.

Prefere ficar sozinho admirando o mar...

 

 

 


terça-feira, 6 de maio de 2025

Sincericídio


 


Comigo aprendeste 

inúmeras coisas:

roer as unhas,

arrancar os cabelos,

cortar os pulsos,

transmutar 

ouro em chumbo. 

Nem todos alcançam 

esse grau de maestria. 

Agora podes incinerar 

os dias com a sinceridade 

de um suicida em potencial.                                                                                                                                                                                         

quinta-feira, 6 de março de 2025

Poema em prosa

 



VERÃO 


Insanas de calor, cigarras zumbem na tarde tórrida. Sobre flores pousando, borboletas sugam o núcleo da Terra. A vida vegeta na súbita eolização do nada. A tarde se dissolve no céu que não ousa esmaecer suas cores. É vitríolo o tempo que de se esgotar não cansa. Agora já podemos cerrar os olhos e incinerar a seiva do instante. A vida não cessa mesmo quando bizarra ou circunspecta.