O Sétimo Sentido
Poesia, contos, crônicas, textos a respeito de livros e outros autores. Textos ficcionais em geral.
Hoje eu quero um poema
que me faça trincar
os dentes, perfurar os olhos,
, pedir
transfusão de sangue
para nossa anemia.
Poema que não cure
insônia e desperte
as quatro estações ,
poema que declare
a renda e que esmole
palavras em sânscrito
para espantar os mudos,
poema que destile
a voz para sanar os surdos,
poema que reconfigure
a morte em sábado de aleluia.
Hoje quero um poema sólido,
líquido, gasoso para abraçar
todos os estados da matéria
e depois cravar
o punhal da vida
na coluna vertebral dos invertebrados.
Hoje quero um poema que não coagule
e se derrame sobre as vestes
do crucificado.
Hoje quero um poema límpido
num ato híbrido
e que nos desfaleça
perante a voragem
do imprevisto.
Hoje quero um poema extinto
para ressuscitar
os fósseis do imprevisto.
Hoje quero um poema
que me faça morrer
diante das dobras do Infinito.
Ó Vós que corrompeis
o mundo com vossa fúria
e preguiça,
abençoai os votos
de mansidão e quietude,
calai
diante da febre do orvalho,
doando vossas córneas
aos mudos de espanto,
recolhei-vos três dias
no ventre da baleia
decifrando
os mistérios do marinho,
calai vossa soberba
perante a ingenuidade da brisa,
aquecei os corações
dos que acendem fogueiras
até que no ato derradeiro
seja destituída vossa sanha
de ganância e lascívia
para que se estenda
aos confins do mundo
a chama do que é vivo.
( foto: Cleber Pacheco).
Na janela,o gato vê o mar.Ronrona e namora,quer a água
como amor.Não sabe o que são ondas,apenas está afoito.Chegar até a praia é o
seu grande desejo.
Salta para
a rua,atravessa-a,chega até o cobiçado local.
O namoro
principia.
Nunca
ninguém viu coisa igual.Um gato pela praia não é de todo dia.Passam
pessoas,passeiam pelas calçadas,nenhuma só presta atenção em tão inesperado
acontecimento:um gato apaixonado pelo mar.
Água e felino
não combinam,creem todos.Jamais viria à cabeça de quem quer que fosse
semelhante pensamento:um gato apaixonar-se pelo mar.
Ninguém
vira o rosto para observar o gato a rondar o inquieto líquido.Mas ali está
ele,todo à espreita,à espera de uma distração,de um descuido das ondas.Talvez
dê o bote.É que ele sonda as águas.E não compreende.
Com o
inesperado encontrou-se:uma coisa que balança suavemente e o chama para si.
Vem comigo,dizem as ondas,vem.
Difícil resistir.
Resistente,ao invés de ser encantado,quer encantá-las.
Também sei pular,diz.E salta para frente
em exibição.
Um estranho
bailado se faz presente:o do gato que não só não quer render-se ao mar,como
também pretende rendê-lo.E o do mar,igual em quase tudo,só mais largo,mais
tentador.
Difícil
saber qual o movimento mais poderoso.Um,cheio de manha.O outro,vasto.
Um tentando vencer pela agilidade.O outro,pela
grandeza.
Duelo
perigoso,onde os dois atacam,se exibem,tentadores e hábeis.Cada qual mais cheio
de encantos.
Eu consigo,sussurra o mar.
Consigo eu,insiste o gato.
Bailado e
duelo plenos de beleza e susto.
Homens e
mulheres continuam seu passeio,nada percebem.Parecem tão preocupados.
Enquanto
isso,do inesperado beijo,do bailado e da embate nasce o inesperado:um
ronronar-marulhar ou um marulhar-ronronar.
Somente
eles poderiam entender o significado de tal diálogo.
Irrompendo
em claridade,em tudo interferindo,surge,entre bicho e imensidão aquosa,no exato
meio,o sol:
Não sei o que pretendem vocês,interrompe.
Meio
atônitos,ambos olham para cima.É o gato que responde,insolente:
Não te interessa.
Estamos testando quem vai vencer,explicou
o mar.
Está na hora de resolverem esta situação,esclareceu
o sol.
Ali
embaixo,cada um pensa que teria sido melhor se aquele intrometido não tivesse
vindo dar ordens.
Precisam,agora,encontrar uma rápida saída.
Recua,em
ondas,o mar.
Para casa
vai o gato.
O sol,meio
aborrecido,recolhe-se atrás de uma nuvem.
Da janela o
gato mira o mar e mia.
Na
praia,retorna a água e murmura.
Mesmo à
distância,o namoro prossegue.
A vidraça
através da qual os dois se enxergam,dirige-se a eles,compreensiva:
Sim,sim,podem ficar à vontade.
Doutor em Teoria e História Literária pela
UNICAMP, Luciano Marcos Dias Cavalcanti é autor de vários livros de ensaios e
estudos dedicados à literatura e à música popular brasileira, especialmente à
poesia e aos poetas, dos quais se destacam: Orfeu, Prometeu e as Musas:
mito e poesia em Murilo Mendes (2025), Chico Buarque,
intérprete do Brasil (2024), Poesia, o que é e para que
serve? (2021), Poesia e transcendência na lírica de Jorge de
Lima (2019), Emílio Moura: o poeta em busca do incognoscível (2017)
e Metamorfoses de Orfeu: a “utopia” poética na lírica final de Jorge de
Lima (2015). Tem dois livros de poemas publicados: Instantâneos
do cotidiano (2020) e Aporia (2023).
Por que razão
resolveu ir para o mar?
Resolveu
ir para o mar.
Partiu
de sua ilha,
num
nevoeiro espesso.
Não
temia o uivo do vento,
ser
castigado pela fúria da tempestade,
ser
tragado pelas ondas do oceano.
Montanhas
de água erguiam-se e quebravam-se.
O
mastro arqueava, a água subia no convés,
a
embarcação sacolejava.
As
tormentas eram permanentes,
incidentes
inexplicáveis ocorriam,
ataques
de selvagens de estranhas tezes tatuadas.
Seguiu viagem, em busca de maravilhas
levado pela corrente marítima,
deparou, amiúde, com o comércio de almas.
Não se amparou na luz de nenhum farol.
Não encontrou nenhuma ilha bem-afortunada,
para ancorar seu barco combalido, à deriva.
Foi para o mar para afastar a ameaça do vazio,
aquele sentimento incômodo da vida ser
nada mais que um desperdício de dias.
Singrando
devagar um mar sonolento
–
mergulhado em sua melancolia –,
o
nauta atravessa o convés continuamente,
cada
extremo da embarcação.
Da
proa à popa,
mira
as águas a serem vencidas pela nau,
expande-se
no espaço;
despede-se
das águas escorrendo para trás,
consome-se
no tempo.
A
solidão é intolerável.
A
intensa concentração do eu
na
imensidão do mundo líquido
afoga
o infinito de sua alma
nas
profundezas do desconhecido.
O
mar é uma perene incógnita,
com
suas magníficas matizes de azul,
esconde traiçoeiramente temíveis criaturas.
Ao farol
“O
Farol era, então, uma torre prateada em meio à névoa, com um olho amarelo que
se abria rápida e suavemente à noite.” (Virgínia Woolf – Rumo ao Farol)
_
Enfim, vamos ao Farol?
_Após
tantas mortes?
O
que faremos lá?
Arriscaremos
extinguir nossas vidas
nos
atirando ao encontro de algum rochedo
nesse
mar bravio?
Muitos
se foram.
O
ambiente está empoeirado.
O
que resta é um pouco de luz verde-acinzentada
e
sombras perambulando pelas paredes.
O
faroleiro não deseja nossa companhia
com
jornais e revistas.
Não
quer que nossas ruínas entrem no seu lar
e
acabe com o encanto de sua solidão.
Prefere
ficar sozinho admirando o mar...
VERÃO
Insanas de calor, cigarras zumbem na tarde tórrida. Sobre flores pousando, borboletas sugam o núcleo da Terra. A vida vegeta na súbita eolização do nada. A tarde se dissolve no céu que não ousa esmaecer suas cores. É vitríolo o tempo que de se esgotar não cansa. Agora já podemos cerrar os olhos e incinerar a seiva do instante. A vida não cessa mesmo quando bizarra ou circunspecta.