As Cidades Subterrâneas da Capadócia
Poesia, contos, crônicas, textos a respeito de livros e outros autores. Textos ficcionais em geral.
Chove sobre
a cidade submersa,
liquefazendo o que já é aquoso,
dobras do ventre grávido
de peixes e criaturas
que nunca dormem.
Chove na cidade sub-
mersa, o que dela escorre
é mais que água :
miríades que se alastram
em estranheza e escamas.
Chove no mundo que se funde
em imersão perene
e em insanidade reabilita
tudo o que teme.
Chove sobre o oceano,
chove, e a vida representa
o seu papel mais ignaro :
mal sabe a água
que se repetir
é um modo de se des-
encontrar e quando
a água se abate
sobre a água,
os peixes nadam com mais afinco
e o abissal abre
sua tumba para engolir
os que se atrevem
Hoje eu quero um poema
que me faça trincar
os dentes, perfurar os olhos,
, pedir
transfusão de sangue
para nossa anemia.
Poema que não cure
insônia e desperte
as quatro estações ,
poema que declare
a renda e que esmole
palavras em sânscrito
para espantar os mudos,
poema que destile
a voz para sanar os surdos,
poema que reconfigure
a morte em sábado de aleluia.
Hoje quero um poema sólido,
líquido, gasoso para abraçar
todos os estados da matéria
e depois cravar
o punhal da vida
na coluna vertebral dos invertebrados.
Hoje quero um poema que não coagule
e se derrame sobre as vestes
do crucificado.
Hoje quero um poema límpido
num ato híbrido
e que nos desfaleça
perante a voragem
do imprevisto.
Hoje quero um poema extinto
para ressuscitar
os fósseis do imprevisto.
Hoje quero um poema
que me faça morrer
diante das dobras do Infinito.
Ó Vós que corrompeis
o mundo com vossa fúria
e preguiça,
abençoai os votos
de mansidão e quietude,
calai
diante da febre do orvalho,
doando vossas córneas
aos mudos de espanto,
recolhei-vos três dias
no ventre da baleia
decifrando
os mistérios do marinho,
calai vossa soberba
perante a ingenuidade da brisa,
aquecei os corações
dos que acendem fogueiras
até que no ato derradeiro
seja destituída vossa sanha
de ganância e lascívia
para que se estenda
aos confins do mundo
a chama do que é vivo.
( foto: Cleber Pacheco).