sexta-feira, 27 de março de 2026

Vestígios

 



Com pés nus sobre
a Terra, sentindo
o seu caroço quente
pulsar,
desnecessário
é caminhar doravante;
estendo
as mãos em direção
ao Sol
e tudo é perfeito:
nada me falta ,
a não ser o excesso
das estratégias da morte
enquanto se apagam
os vestígios do dia;
contento-me com pouco :
depois é só carregar
o sereno que desce
sobre as sombras.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Verbo

 



A palavra que me deste,
febril, inerte, ferida,
tinha corpo de abril,
de inverno constituída,
era despida, caduca,
carente de espelhos,
tinha rostos, pernas, braços,
sem cotovelo e joelhos,
era um eco ausente,
fornalha no gelo aquecida,
corpo iridescente,
anatomia sem vida.
A palavra que tenho
é pouca, rara, esquisita,
dentro de sua voragem,
alguma coisa palpita,
muito mais que viagem
numa terra estrangeira,
é parto e passagem
para uma vida inteira.
A palavra que invento
é insólito ruído,
aquilo que acrescento
ao que nunca é nascido,
início do mistério
nunca desvendado,
verve e inventário,
hora sem horário,
círculo quadrado.

terça-feira, 24 de março de 2026

Hoje

 



Hoje eu quero um poema

que me faça trincar

os dentes, perfurar  os olhos,

, pedir 

transfusão de sangue

para nossa anemia.


Poema que não cure

insônia e desperte 

as quatro estações ,

poema que declare

a renda e que esmole 

palavras em sânscrito 

para espantar os mudos,

poema que destile 

a voz para sanar os surdos,

poema que reconfigure 

a morte em sábado de aleluia.


Hoje quero um poema sólido,

líquido, gasoso para abraçar 

todos os estados da matéria 

e depois cravar 

o punhal da vida

na coluna vertebral dos invertebrados.

Hoje quero um poema que não coagule

e se derrame sobre as vestes

do crucificado.

Hoje quero um poema límpido 

num ato híbrido

e que nos desfaleça 

perante a voragem 

do imprevisto.

Hoje quero um poema extinto 

para ressuscitar

os fósseis do imprevisto.

Hoje quero um poema

que me faça morrer 

diante das dobras do Infinito. 



quarta-feira, 18 de março de 2026

Teatro

 






Peça que escrevi em parceria com Rafael Rodrigues e Oficina de Teatro.

terça-feira, 17 de março de 2026

Filhos

 

Não mais acolhemos
os filhos da floresta,
seus sussurros, seus silvos, seus uivos,
esquecemos
onde a borboleta habita,
em que águas volitam
os peixes,
em que troncos rastejam
insetos estalando ao sol.
Desarticulamos
os dicionários que revelam
a voz primeva das eras,
arranhando
nossas gargantas antes
de evocarmos
o que o inverno inventa.
Não mais extraímos
as tinturas da vida ,
esgotando
a sua promessa.
Não mais ouvimos
os filhos da selva,
nossos garfos se cravam
ante a agonia dos mortos.
Não mais sabemos
quem são os filhos acolhidos
pela raiz antiga do mundo,

não mais.



quarta-feira, 11 de março de 2026

Silêncio

 


É sabido que o silêncio 

tem vocabulário vasto, 

dicionário insincero

etimologia do casto,


pedra com pedra procria 

o mais sincero repasto,

cego que espia 

a intensidade do vasto,

 

sereia de vento  e vazio 

no coração do mudo:

estiolado no cio 

onde nada é tudo.