terça-feira, 24 de março de 2026

Hoje

 



Hoje eu quero um poema

que me faça trincar

os dentes, perfurar  os olhos,

, pedir 

transfusão de sangue

para nossa anemia.


Poema que não cure

insônia e desperte 

as quatro estações ,

poema que declare

a renda e que esmole 

palavras em sânscrito 

para espantar os mudos,

poema que destile 

a voz para sanar os surdos,

poema que reconfigure 

a morte em sábado de aleluia.


Hoje quero um poema sólido,

líquido, gasoso para abraçar 

todos os estados da matéria 

e depois cravar 

o punhal da vida

na coluna vertebral dos invertebrados.

Hoje quero um poema que não coagule

e se derrame sobre as vestes

do crucificado.

Hoje quero um poema límpido 

num ato híbrido

e que nos desfaleça 

perante a voragem 

do imprevisto.

Hoje quero um poema extinto 

para ressuscitar

os fósseis do imprevisto.

Hoje quero um poema

que me faça morrer 

diante das dobras do Infinito. 



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