quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Chama


 


Ó Vós que corrompeis 

o mundo com vossa fúria

e preguiça,

abençoai os votos 

de mansidão e quietude,

calai 

diante da febre do orvalho,

doando vossas córneas 

aos mudos de espanto,

recolhei-vos três dias

no ventre da baleia 

decifrando 

os mistérios do marinho,

calai vossa soberba 

perante a ingenuidade  da brisa,

aquecei os corações

dos que acendem fogueiras 

até que no ato derradeiro 

seja destituída vossa sanha 

de ganância e lascívia 

para que se estenda

aos confins do mundo 

a chama do que é vivo. 


( foto: Cleber Pacheco). 



quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Exílio

 



Atravessar os dias
na crueza do inóspito,
desvendar a fala
das coisas que nasceram
mudas, investigar
onde se oculta
a sombra sob
o sol do meio-dia,
nada implorar
aos céus a não ser
por um pouco mais
de estranheza,
a vida só se exalta
na intensidade
dos exílios.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Milagre

 



O mundo  se esqueceu 

dos peixes,

apesar da multiplicação. 


Todos querem o milagre,

ninguém lembrou da fome : 


Ela faz  morada 

no fundo dos abismos

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

Resenha


 


Livro de ficção, A sombra da agulha, metaforiza a arte da escrita em ponto e fuga ou não na cicatrização da ferida.
Como uma ferida aberta aqui podemos figura-la metáfora, a vida nos expõe a isto. A agulha tenta fechá-la com linhas de escrita. Mas a escrita também suporta a dor, às vezes ela é o cerne da dor. O Inapetente não sente pena da sua ferida, pois não tem desejo para cicatrizar seu ego. Em novo livro de difícil rotulação, Cleber Pacheco, em A sombra da agulha, editora Litteralux, destila uma escrita híbrida entre a ficção e o ensaio poético e filosófico. O desejo do Inapetente, ou sua fuga para a sublimação onde obra e vida se sugestiona para uma certa complexidade existencial com as duas partes do livro, o coro e o guiado, na qual, funcionam como complementares, sendo que uma tem uma voz plural, multifacetada. Já a parte guiada tem a figura do rastreador, um leitmotiv, que não corrige imposturas, mas serve como elemento de sinalização e procura, por algo dentro do próprio corpo da escrita perdido. O autor é hábil em seccionar o tempo cronológico, de um tempo mítico, onde palavras são desígnios dos deuses. Para isto o livro precisaria não se comparar a elegibilidade dos Deuses, e sim preparar a condição humana para a inexorabilidade da morte.