segunda-feira, 29 de abril de 2024

O Piano

 



Descobriu que uma tecla estava muda. Com um mau pressentimento, chamou o afinador para consertá-la. Nenhum resultado. Na manhã seguinte uma escala inteira emudecera, não havia como tocá-la. Chamou um especialista em consertos. Resultado nenhum. No terceiro dia, todas as teclas estavam mudas.

sexta-feira, 26 de abril de 2024

Resenha

 

    

    Publicado em 2023 pela Editora Caravana, o livro Porque Era Ele,Porque Era Eu e Outras Quase Histórias do escritor Luiz Henrique Gurgel traz crônicas capazes de lançar um olhar  sutil sobre as pessoas, as coisas, os acontecimentos. 

   Realmente são quase histórias com muita sensibilidade, atendo-se ao que pode passar despercebido no dia a dia, mas ganhando relevância nos textos breves e bem escritos.

   Dividido em seções ( Entre Afetos, Perder-se nas Cidades, Teimosias e Em Sala de Aula), o livro vai revelando sensações, sentimentos, memórias, pessoas, lugares. 

   Pode-se destacar  a abordagem do humano e suas variadas matizes, incluindo aí personagens nossos conhecidos: Drummond, Adoniram Barbosa,  Noel Rosa, Luz del Fuego. 

   Alguns trechos: " Foi um pequeno momento, uma partícula ínfima de tempo que acabou se tornando  fragmento de alegria plena, sempre presente neste eterno aqui e agora de estar vivo."   Ou: "E vai se decompondo, mesmo estando vivo, cérebro ainda aceso  e luminoso com fagulhas que escapam ao fogo fátuo."   E:  "Quero apontar a ferida , mas não de dedo em riste como fazem os ameaçadores, mas feito aquele menino que tinha o dedo verde  e fazia brotar flores onde tocava." 

     Luiz Henrique Gurgel  é capaz de escrever de modo agradável, tocante e contudente ao mesmo tempo. Um livro que vale a pena ler. 

  

   

   

quarta-feira, 24 de abril de 2024

Acontecer

 



Abdico
desta hora
feita de luz e silêncio.
Nela germina
um sorriso sem lábios,
um ver desprovido de olhos
e não há mais espera :
o acontecer
é o próprio acontecimento.
Nele não há
mantos e adornos,
vestígios ou rastros,,
vem tão pobre
que nos sustenta
e sobre nós verte
serena audácia.
Então a vida
nos inaugura e arremata,
distraída e atenta,
como se não soubesse.

segunda-feira, 22 de abril de 2024

Borboletas

 



Eis o Eterno,
afirma ela
enquanto é apedrejada
pelos homens
e saliva borboletas .
Ninguém
pode sabê-lo,
acusam,
a morte é sempre
voluptuosa e insaciável.
Nada responde
a inquilina do inverossímil
contemplando
as veias dilatadas
do instante.
Não se comemora
o dia, avisam,
se o reumatismo
assola
nossas córneas.

sábado, 20 de abril de 2024

Sibila

 


Ninguém sabe
aonde nos levará
o sono com seus
tentáculos de sonhos
e anáguas de bruma,
quais vestígios deixará
em nossas retinas,
em qual órgão
depositará o véu
que nos conduz
ao âmago mais preciso
do incerto,
devolvendo-nos
a inteireza
do que não tem nome
e ainda assim sustenta
as relíquias dum futuro
a destilar-se nas veias
do indeterminado,
sonho de sal e de pedra
refinando-se
em tábua sem mandamentos
num pronunciar de Sibila,
voz que só clama
no deserto
por ser plena
de carências e de lume,
fundo e superfície
do que não tem extremos
e que jamais abolirá
nosso modo de restituir
o perdido
àquilo que jamais
um dia se perdeu.

terça-feira, 16 de abril de 2024

Resenha


 

A escritora Cecília Kemel fez uma resenha a respeito do meu livro A Torre do Silêncio. Grato pelo belo presente:
O tangível silêncio
"A torre é um abrigo, uma fortificação também destinada a proteger-nos em caso de ataque. É na torre que nos colocamos para que nosso olhar possa atingir a distância, e é desse ponto alto que observamos a profundidade. A mesma torre que nos isola, igualmente nos leva ao encontro.
Assim é a Torre do Silêncio, de Cleber Pacheco: uma impactante ficção, um jogo de encaixe no qual cinco peças, reconhecidas como personagens, alternam-se para nos conduzir da morte à vida, exatamente nessa ordem. No percurso, o autor revela traços de suas criaturas, desenhadas para expor reflexões sobre a existência a partir de fatos resgatados de suas experiências ou projeções, embora o fio da narrativa esteja preso à morte.
A proposta estrutural da obra é a da narrativa em quadros e tópicos nos quais as evidências tornam-se reveladoras daquilo que buscamos: a tentativa de entender a vida ao exercitar a morte. Cada uma das personagens, cujas características mostram-se distintas e específicas, merecendo até um tratado particular e à parte, traz possibilidades perceptivas enquanto se vê do alto da própria torre, exercendo, nas palavras do autor, “a arte da espreita”. Assim, desdobram-se as passagens marcantes, as estranhezas, o tempo, as soluções, a morte e a espera, todos elementos consistentes sob o olhar do já vivido. O labirinto em que se movimentam manifesta-se num círculo envolto em si mesmo, que parte do silêncio e chega à solidão, e vice-versa, isto é, a causa e a consequência sendo as mesmas.
Com um enredo assentado na ficção fantástica, o texto registra riqueza literária trabalhada em qualificadas figuras, cujas marcas revelam a expressão de um poeta e a criação linguística à altura de um Guimarães Rosa. Imagens como “o mundo que me abandonou, comida pelo onívoro oco do tempo” (p.40), “curar as gentes do susto de nascer” (p.43), “ele não me viu desnascer”, “viver é apagar-se” (p.46), “Tapei minha boca para guardar meu grito” (p.53), “a surdez das coisas que acabaram ficando mudas” (p.65), “segurando com força aquele pequeno sol em suas mãos.” (p.68), demonstram o cuidado atribuído a essa rara produção criativa.
Este é um breve olhar inconcluso sobre uma obra literária que nos brinda com um corte em profundidade na alma humana, conduzindo-nos pelos estreitos caminhos de um verdadeiro tratado da solidão: tocante, absoluta, tangível. No dizer de uma das personagens, “tão poucos conhecidos, tão poucos parentes na repetição do só.” (p.44). Assim passa-se a vida, assim sobrevém a morte. "

segunda-feira, 15 de abril de 2024

Autor Convidado

 


   Tássio Ribeiro, é natural de Bom Sucesso - MG. Graduando em Gestão Ambiental pelo IF - Campus Bom Sucesso. Agraciado com o Diploma de Honra ao Mérito, pela Câmara Municipal de Bom Sucesso-MG, pelo trabalho com a literatura, Prêmio Concurso Cultural do IF Campus Rio Pomba -Mg.Participou das Antologias: da editora Vivara “O Poetize 2017”, Além do céu, Além daTerra (2017), Arte em Exposição A Cor do Gesto" de Artur Madruga 2019.Ganhou Menção Honrosa no concurso de poesia da Biblioteca Comunitária Conceição Maria Lopes (2017) Parem as Máquinas, pelo Selo Off Flip (2020).


Fotografia na parede


 A memória está emoldurada na parede,

Numa fotografia em preto e branco.


(Sem título)

Meu pai engraxou os sapatos.

Um hábito antigo que aprendeu

No passado. Pegou seu casaco

E foi para o trabalho, onde era

Um operário. Trabalhava o

Dia todo; levava a marmita,

E o café. Minha mãe cuidava 

Da casa, e dos meus irmãos.

O seu salário quase não supria

Às necessidades da casa.

Mas fazia o que podia para

Garantir o sustento. E sua maior

Virtude era a poesia, que fazia

Nas raras horas vagas. Dizia que

Tudo é uma questão de tempo e

Paciência. E o sorriso já amarelo,

Acalentava a todos, que via sua

Fibra, no corpo franzino, boca de

Menino, e a coragem de um.

 

sábado, 13 de abril de 2024

Instinto

 



Admiramos o vulcão
prestes a explodir
(são velhas as erupções,
ainda mais antigas
as lavas que escorrem),
adivinhamos:
tudo é magma
e se revolve
e atordoa e treme
ainda quando
nenhum sinal
de fumaça incita
os céus.
Os animais, que tudo sabem,
pressentem
rumor e abalo
sem que a terra
dê indícios.
Adivinhamos também
que soterrados
seremos sob
as cinzas.
Há muito descobrimos
que o terror nasce
apesar da possível extinção.

sexta-feira, 12 de abril de 2024

Fornalha

 


Cavalos incinerados
ao sol mergulham
nas catacumbas
da terra e, de suas entranhas,
lançam
estranhos relinchos cavos.
Vi esses cavalos
incendiarem-se
na fornalha da tarde
enquanto eu mesmo
queimava
minhas mãos
escavando córregos.
Nada mais pode ser
feito diante
de tanta ruminação:
ruminar é também
plágio
de quando estrebuchamos
aos nos recusarmos
a viver e a morrer.

quarta-feira, 10 de abril de 2024

Vozes

 



Ouço vozes,
disse ele,esquecendo
que também era uma voz.
Suas palavras se perdiam
em plena tempestade,
imitando, ao mesmo tempo,
Bobo e Lear,
sem conseguir escolher
qual dos dois seguiria
pelas charnecas.
Resolveu,porém,
seguir a si mesmo
só para nunca
se encontrar.,
enquanto melindrava-se
com profecias de velhas bruxas,
buscando abrigo
sob os carvalhos.
Mas não o abandonaram
as vozes, acostumadas
já a persegui-lo
mesmo em sonhos.
Até que a noite trouxe
o som dos uivos
e o caminho tornou-se
um agonizar de sinos.
(Imagem do filme RAN, de Akira Kurosawa).

segunda-feira, 8 de abril de 2024

Relva

 



Aprendi a suportar
nossa insanidade,
ela me disse,
e todas as páginas em branco.
Nunca saberemos dizer
quantas árvores secaram
desde o surgimento
da flora, argumentou,
nem quantas nuvens
passaram pelos céus
desde a primeira chuva.
O mundo já era mundo
ainda antes que o inventássemos,
concluiu. Sem nada
poder acrescentar, recuei
dois passos e olhei
para a relva esmagada
sob nossos pés.

sexta-feira, 5 de abril de 2024

Autor Convidado

 


Daniel Rodas (Teixeira-PB, 1999) é escritor, poeta e dramaturgo. Graduado em Letras e Mestrando em Literatura e Interculturalidade (UEPB). Editor da Revista Sucuru. Autor da plaquete Eros e Saturno (Editora Primata, 2021) e do livro Umbuama (Editora Urutau, 2021). Integrou as antologias Poesia fora do eixo (Toma Aí Um Poema, 2022), Engenho Arretado: poesia paraibana do século XXI (Patuá, 2023) e Casa Encantada: o conto fantástico paraibano (Arribaçã, 2023). Tem textos publicados em vários meios eletrônicos nacionais e internacionais. Fez parte do grupo de teatro ExperIeus da cidade de Monteiro-PB, onde colaborou como ator. Pensa na poesia como um fluxo, como o fluir incontrolável da vida. Vive atualmente em Campina Grande-PB.



MALLARMÉ

 

os deuses jogam dados com

o destino.

mas nem por isso

o acaso os abolirá.

 

cada gesto do dado é um jogo

novo sobre a

mesa.

 

e o poema:

ninguém ganha no seu fim.

 

*

 

OS BOIS E OS HOMENS

 

Para Drummond

 

ruminam todas as

manhãs

 

posto que o sol lhes

acena

 

a incerteza do viver.

 

são tantos com suas

ancas largas

 

seus sorrisos de baba

 

seu silêncio sem

tempo.

 

vagam pelas ruas e

estradas

 

atravancados pelo hoje

 

do qual não têm nenhum

controle.

 

pobres criaturas saqueadas

 

vão sem rumo na

febre

 

da própria graça do algoz.

 

II

pois de uns

lhes é roubada a carne

 

de outros

a carne e o espírito.

 

*

 

ORÁCULO

 

a noite é enorme.

maior que a noite é a escuridão carregada sob as

unhas.

a casa nunca está fechada –

e os pássaros cospem plumas nas janelas.

há quem tente fechá-las.

mas as asas da noite invadem: cada fiapo do

olhar.

( Poemas inéditos).