terça-feira, 13 de setembro de 2016

Carta de Virginia Woolf a Vanessa Bell

   ( Um outro texto do meu livro Cartas Imaginárias).

                                                                                                           Vanessa,

   Aqui é a velha Virginia que escreve,agora ainda mais velha diante de uma interminável crise a exaurir-me as forças.
   Sinto-me incapaz de expressar tudo o que sinto e como tenho convivido com todo este tormento.Poucas leituras tenho feito,sem ânimo para dedicar-me aos livros,que tanto amo,aos autores e seu universo,às críticas e artigos que costumava enviar aos jornais,embora um certo projeto persista.
   Mal consegui concluir Between the Acts e só com muito esforço poderei dedicar-me a revisá-lo,corrigi-lo,reescrever certos trechos e ponderar a respeito de Mrs. Manresa,personagem que até a mim intriga. Apesar de ter sentido um grande prazer em escrever cada página,agora sinto-me esgotada e com dificuldade para prosseguir essa tarefa.Já não sei se sou eu que abandono os livros ou os livros é que me abandonam. O mundo parece tornar-se cada vez mais difuso,engolido pelas sombras e espectros, de modo que sua imagem vai perdendo o contorno,alcançando uma quase total opacidade. Apesar de tudo, certo impulso criativo ainda me impele e,quando consigo,preparo algumas anotações para Anon.
   Ás vezes,em minhas breves caminhadas pelo jardim de Monk's House olho os dois olmos a que denominamos Leonard e Virginia e quase sou aniquilada pelo mistério e beleza de ambos,duas imagens que, em meio ao horror,ainda conseguem manter a própria integridade,embora não posse eu definir em que isso consiste. Intrigada,olho também para os originais Leonard e Virginia e fico a perguntar-me o que teria acontecido a eles.
   Na próxima semana pretendo dar um pequeno passeio ao rio Ouse.Talvez isso tenha o poder de serenar-me e trazer um pouco de paz.
                          
                                                                       Afetuosamente,

                                                                        Virginia Woolf. 

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