sábado, 1 de abril de 2017

ÍTACA




Em algum lugar no futuro

                             Entre os escombros encontro os degraus da casa. Subo em busca de um esconderijo. Aqui fico enquanto for possível. Até que necessário seja buscar outro. Eis minha errática vida.
                           Um canto para dormir,alguma comida.Água,talvez. O maior luxo que poderei encontrar nestes tempos de total destruição.
                           São três andares conectados por escadas. Ou o que restou delas. Examino as possibilidades. Aproximando-me, observo  detalhes.  A ala norte não existe mais. Percebo a existência de quartos intactos. Uma hora depois,revela-se um verdadeiro tesouro: um compartimento no soalho contendo comida processada. Tenho sorte. Inúmeras pessoas estão em desespero tentando encontrar algum tipo de alimento. Subo até o terceiro andar,o mais instável, e descubro algo totalmente inesperado: uma sala repleta de livros. Alguns deles estão danificados. Hoje em dia quase ninguém mais se interessa por eles.
     Chamo este local de biblioteca. É o espaço ideal para mim,pois contém uma lareira e o mundo se tornou um lugar frio.
    Escolho alguns livros para acender o fogo. Na capa de um deles está escrito:

        OBRAS DE  WILLIAM SHAKESPEARE
         HAMLET- MACBETH- REI LEAR

    Não tenho noção do que se trata.Em nossa era, aprendemos a ler apenas tratados técnicos.  Constato que o volume é grosso. Crepitam as chamas rapidamente.
   Comer,dormir e vigiar. Nossas únicas atividades agora. A única distração é o acaso de termos algum sonho. Na maioria das vezes, porém, afloram pesadelos. Acordo aos gritos.
      Entediado e só, à medida que os dias passam, decido espiar o conteúdo  dos volumes da biblioteca.  Encontro imagens interessantes: pinturas,ilustrações,desenhos. Arranco as minhas favoritas,quero levá-las comigo quando partir novamente. Serão as únicas imagens de beleza que irei ver. Esteja onde estiver.  
    Passados três dias, encontro numa das prateleiras um livro em que está escrita a palavra ODISSEIA. Tentando encontrar uma gravura, descubro: um tal de Homero escreveu aquilo. Parece tratar-se de texto bastante antigo. Percebo ser a história de alguém chamado Ulisses e que ele deseja voltar para casa após uma terrível guerra. Talvez isso tenha despertado o meu interesse.Somos sobreviventes. Com uma diferença: não tenho para onde ir.Ou melhor,duas: não há  Penélope a me esperar.
   Talvez simplesmente tenha me encantado pela ninfa Calipso. Não tenho certeza.
    Junto com meus outros escassos pertences e o restante da comida, coloco a Odisseia. Vou levá-la comigo.
   É hora de seguir em frente.
    Retomo o desolado caminho rabiscado nas trevas. É preciso tomar muito cuidado. Há perigos por toda parte.
   Alguns dias mais tarde,  avisto um grupo sentado em volta de uma fogueira. Arrisco uma aproximação, mesmo percebendo olhares de suspeita.
   Chego, apresento-me, abro o livro e começo a ler a história de Odisseus.
     Naquela mesma noite tenho uma revelação: acabo de criar uma legião  que me seguirá por toda parte nesta era de ruínas.  


                            
   
                      



   
 
  



  

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