segunda-feira, 3 de outubro de 2016

Shakespeare

Em algum lugar,no futuro.


   Longo tempo levei para encontrar a biblioteca. Foi necessário atravessar as ruínas da cidade e seguir pela floresta. Havia perigosos animais e armadilhas. Por duas vezes quase morri.
   De fato não era uma lenda.A biblioteca existia. Tratava-se de um antigo monastério ocupado por inumeráveis livros. Uma autêntica obra-prima, a arquitetura era plena de ingenuidade e beleza. Sete torres gigantes guardavam o maior tesouro da humanidade. Sete guardiões vigiavam cada uma delas. Havia guardas por toda parte. Em seu interior, bibliotecários e monges copistas.
   Quando cheguei, pensava em tornar-me um guarda. Afinal eu havia sobrevivido ao caos, era jovem, alto,forte e apreciava desafios. Mas os monges tinham necessidade de copistas. Eram poucos. Alguns estavam doentes;outros,cegos.  Gradativamente fui aceitando a ideia e após vinte anos de preparação,tornei-me um deles.
   O contato com os livros foi uma lenta revelação. Nunca poderia imaginar coisa semelhante. Papel e tinta eram ali considerados mais preciosos do que ouro. Os livros, imensos e pesados continham,em cada página, uma autêntica obra de arte. Todos cuidadosamente guardados.
   Difícil escolher qual trabalho era o mais atrativo. Tudo era precioso e fascinante. Mas um livro em particular tornou-se minha obsessão. Havia um só exemplar e foi fácil obter aprovação para copiá-lo.
   Exultante, optei pelo estilo gótico . falhei todas as vezes. Parecia impossível repetir tamanha maestria.  Compreendi que era inútil,perdi a esperança.
   Pesadelos torturavam-me todas as noites.  medo e angústia tomaram conta de mim. Comecei a sentir raiva e ódio daquele livro. Quis destruí-lo. Mas o amor venceu. Talvez fosse o irresistível encantamento que dele emanava.
    Já que não conseguia fazer outro,decidi roubá-lo.E tê-lo só para mim.
    Agora encontro-me na floresta tentando fugir. Muito provavelmente me apanharão e serei assassinado.  Antes que isso ocorra, porém, abro o livro  para folheá-lo uma última vez.
    Shakespeare estava certo:
         
                                     E aqui te deixo um monumento alheio aos anos,
                                     Que roem tumbas de bronze e cascos de tiranos.
 

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