sábado, 28 de maio de 2016

AUTOR CONVIDADO


Krishnamurti Góes dos Anjos. É baiano de Salvador. Escritor e pesquisador. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e  Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 22 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas literárias na Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho -, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional Prêmio Jose de Alencar da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

                                    INEFÁVEL COAÇÃO


            A masseira estava vazia e Diógenes aguardava o servente trazer a massa para o reboco da parede. Enterrou a colher de pedreiro no resto da massa e sentou-se em uma pilha de blocos. O pensamento começou a divagar. Escorregava de um assunto ao outro e ele buscava concentrar-se somente no quanto faltava para a conclusão do serviço. Entretanto a mente trazia-lhe do inconsciente, rudimentos do passado. Sedimentos de sua vida. A princípio surgiam repentinamente imagens deliciosas... A tranqüilidade da superfície do açude. Espelho refletindo as nuvens. Árvores, bois no pasto, as casas da fazenda, da farinha, os alojamentos. Campos imensos de plantação de café. Escutou também estranhos sons, vozes dos trabalhadores, cantigas, a mãe rezando o Pai nosso, ensinando-o a esperar o que o padre disse que Deus prometera. “Ah é nosso destino filho”. Mas não havia continuidade naquelas lembranças imprecisas. Eram pontos nebulosos, estrelas longínquas brilhando no universo vazio.
            Maluquices que vinham, fugiam, tornavam a voltar. Diógenes tenta arredá-las com cálculos do quanto haveria de ganhar naquela semana. Derivações e associações mentais. Os disparates continuavam a persegui-lo. Lentamente emergiam fantasmas de outro tempo quando ele labutava na colheita do café. A impertinência da memória termina por arrastá-lo para Adelaide.
            Sentiu qualquer coisa palpitar-lhe no coração quando a viu pela primeira vez, e depois, sempre um alvoroço quando tinham que colher café no mesmo campo... os olhares rápidos e esquivos... e quando fizeram amizade, aquele tom da voz dela. Saia brando e até quase meigo, muito meigo. Entenderam-se, apesar da vigilância da gente dela e das advertências da mãe dele. Inflamaram-se, cambiaram acenos, gestos e bilhetes. Marcaram encontros às escondidas. A ansiedade crescente os fez desistir da prudência, a urgência de enlevo terminou por infringir a moral apreendida. E tudo terminou acontecendo: o fogo da paixão mostrou-lhes o lago do instinto consumado.
            Refletindo agora sobre tudo aquilo, era-lhe difícil decifrar o desconchavo daquele passado. Daqueles farrapos de sensações esvaídas que modificara-lhes, em plena adolescência, o curso das existências. Seria isso o tal destino que sua mãe tanto falara? Lembrava-se que Adelaide ficara confusa, irritada, aborrecida. Mal consigo e mal com ele. Tentaram agarrar-se numa esperança frágil. Ela não haveria de engravidar. Foi uma vez só. – tanto se ilude a vontade! – Ela começou a engordar muito em poucos meses, a barriga começou a empinar, crescendo e trazendo junto a ameaça de desabar sobre eles a chuva grossa do escândalo, o aguaceiro das fofocas, motes e dichotes. O casamento às pressas foi o vento que empurrou as nuvens carregadas. Tudo rápido, tão depressa, que quando os pés dela começaram a inchar e o vestido já subia na frente mostrando mais as pernas, eles já se tinham retirado para a terra prometida. A capital. Residência: barraco de favela. Profissões; ele servente de obras. Ela doméstica. Depois o parto. E a imagem dela, magra e pálida dando o peito à menina que nascera, foi a segunda lição imposta pelo ardiloso destino. A primeira lição relacionava-se com esta também pelo berço. Pais e filha nascidos irremediavelmente pobres.
            Aquelas memórias da roça cruzavam-se, confundiam-se com a mais recente da pequena Adelice que já ia nos seus oito anos. A filha, já há dias pedira-lhe uma bicicleta... idéias truncadas. Tumultos de reminiscências. Hoje, debaixo daquele viver asfixiante, incerto, de trabalho sem carteira assinada, já duvidava – porque voltou a lembrar-se de Adelaide – se era mesmo amor aquilo que ele um dia pensou sentir por ela. Era isso a vida do amor?
            Diógenes sentia-se atordoado, desesperado, com vontade de... de... nem sabia o quê. Não encontrava o que fazer. Teria enfim “destino” domado de uma vez o agreste matuto colhedor de café? Na capital, Diógenes como boi de rebanho, ia onde o impelisse o trabalho, de uma obra à outra. Por fora somente um ou outro muxoxo. Sentia impotência e irritação. Como ele gostaria de protestar aos berros, cuspir naquela situação suja e injusta. Mas essas intenções ocultas só se desvendavam naquele instante, por muxoxos, por um imperceptível tremor nas mãos e graves vincos faciais que iam a cada dia desenhando-lhe rugas. Por fora resmungos. Por dentro um turbilhão de revoltas entremeadas de desejos e necessidades, rosnando obscenidades que ninguém percebia.
            No burburinho que lhe enchia o cérebro, a reclamação áspera do mestre de obras avultava e trazia-lhe mais uma vez do passado, as ameaças e os gritos do capataz da fazenda:
            - Este reboco tem que ficar pronto hoje, ô Diógenes! Nessa moleza é que não fica!
            Diógenes levantou-se, mexeu com a colher a massa, e atirou com raiva uma porção dela na parede, para logo a seguir, alisá-la, nivelando a parede muito docemente. É que ele acabara de atinar que talvez, pudesse barganhar o preço de uma bicicleta que vira na feira do rolo. 






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