segunda-feira, 7 de setembro de 2015

LEITURA COMENTADA

 
 Leitura comentada do livro "O terceiro dia", por João Paula Santos Pires.
O Terceiro Dia, de Cleber Pacheco
Ela endureceu, os olhos dele fincaram-se nela, chamou-a com a mão, o corpo dela recuou, as cortinas esvoaçaram, o corpo dele se ergueu, os pés dela correram para o quarto, a mão dele foi recolhida, o corpo dela sentou, os dedos dele se fecharam, o cabelo dela caiu sobre o rosto, a unha brilhou.
O Terceiro Dia, laudável obra de Cleber Pacheco, é um breviário de maturidade. Ousado e vigilante, o texto parece ter se debruçado por anos numa aurora tônica, onde as emoções esperaram palavras para enfim concatenar. Um, na integridade. Dois, no dilema. Três, na clarividência.
Desenhada no limiar do lúgubre e do solar, a brevidade essencial dos parágrafos do autor atenta para nossas certezas voláteis e para a transitoriedade dos instantes. A partir desse núcleo montanhoso de luz e sombra, Cleber Pacheco pincela o portarretrato da dubiedade. Com a ajuda de um enredo sincero, o cerne do livro exibe a luta entre os impulsos congênitos do ser e as contenções espirituais que os contrabalançam. Embora trate aparentemente de crise e padecimento, O Terceiro Dia não governa à ruína e ao fim, mas, ao contrário, à redenção da mente, que encerra toda sorte de impasses.
Texto de retratos, o romance se polariza pela luminosidade de seu estilo, pela engenhosidade das imagens e pela justaposição dos cenários, que evocam a pausa, a estática, a linha dentro da entrelinha. Ao passar longe das raias do tépido e do artificial, Pacheco nos brinda com um poderoso arsenal léxico, que se alinha com a magia mítica do enredo e coloca o livro numa colina à parte da imaginação.

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