terça-feira, 15 de outubro de 2013

RETRATOS (2)

DIVA

Diva trabalhava numa biblioteca onde havia ,em sua grande maioria,apenas livros já bem antigos.Foi lá que encontrei O VERMELHO E O NEGRO,de Stendhal,JANE EYRE de Charlotte Bronte.E uma magnífica edição de a DIVINA COMÉDIA,de Dante.
Combinando com o lugar,ela vestia roupas sempre antiquadas e se comportava de modo antiquado (para os padrões de hoje),ou seja,com gentileza,sempre com gentileza.Tanto que se recusava a ler James Joyce porque o livro dele continha palavrões,contou-me,desgostosa.
Ela era de origem judia e amava os livros.Cuidava da biblioteca com extremo zelo.Eu sempre ia até lá e conversávamos na sala dela,em voz baixa,comentando a respeito de autores e obras.
Preocupava-se,também,com a alimentação e buscava orientar-me,indicando o que era melhor.
Como costuma acontecer com as pessoas gentis em nosso mundo,ela não era respeitada pelas outras colegas de trabalho,que mantinham sempre atitudes grosseiras.Preferíamos ignorar tal comportamento e contínuávamos conversando.
Muitas vezes ela queria me dar presentes que eu buscava,sem querer ofendê-la,recusar.Ela insistia,ia ao mercado e me dava frutas e até compotas que costumava fazer.Eu ficava constrangido,pois não queria que gastasse dinheiro comigo.Não era fácil evitar aquilo e,não raro,evitei visitá-la para que tal não acontecesse.
Durante vários anos,enquanto terminei o Ensino Médio e fiz o curso universitário ia até a biblioteca para falarmos a respeito de tudo o que fosse interessante em termos de cultura.
Certa vez não a encontrei e descobri que estava internada no hospital.No mesmo instante,fui até lá.Soube que tivera um grande choque ao se deparar com demonstrações de pura bestialidade humana.Pediu-me para que lhe cortasse as unhas da mão enquanto falava amenidades.
Da vez seguinte que fui à bilblioteca,soube que se aposentara.Não quis mais voltar ao ,local de trab alho depois do que acontecera.
Compreendi perfeitamente.Voltei para casa,pensativo.Há mesmo pouco lugar para a delicadeza no mundo em que vivemos.

0 Comentários:

Postar um comentário

Assinar Postar comentários [Atom]

<< Página inicial