quarta-feira, 25 de março de 2026

Verbo

 



A palavra que me deste,
febril, inerte, ferida,
tinha corpo de abril,
de inverno constituída,
era despida, caduca,
carente de espelhos,
tinha rostos, pernas, braços,
sem cotovelo e joelhos,
era um eco ausente,
fornalha no gelo aquecida,
corpo iridescente,
anatomia sem vida.
A palavra que tenho
é pouca, rara, esquisita,
dentro de sua voragem,
alguma coisa palpita,
muito mais que viagem
numa terra estrangeira,
é parto e passagem
para uma vida inteira.
A palavra que invento
é insólito ruído,
aquilo que acrescento
ao que nunca é nascido,
início do mistério
nunca desvendado,
verve e inventário,
hora sem horário,
círculo quadrado.

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