sexta-feira, 5 de junho de 2015

Conto



ERAS GEOLÓGICAS


   Há muitas maneiras de se ocupar o tempo e de explorá-lo,disse o pesquisador chefe da equipe arqueológica,explicando para a comunidade o resultado parcial dos trabalhos.
   Três anos fazendo escavações demandavam grande esforço e dedicação.Nenhuma medida fora poupada para alcançar êxito.Nada parecia difícil o suficiente para impedir a realização de tão importante empreendimento.Qualquer dedicação parecia pouca diante da grandeza do projeto.
   Na camada mais profunda,continuou ele,encontramos nada mais nada menos do que um antigo cemitério indígena.Ossadas em excelente estado de conservação envoltas em esteiras de palha, juntamente com alguns artefatos feitos por esses povos nos ajudarão a conhecer e compreender melhor a vida e as crenças dos nativos que aqui viveram há muitos anos atrás.
   Na camada seguinte ,encontramos os restos mortais dos antigos coronéis e de suas senhorinhas,pessoas distintas que organizavam e comandavam a então pequena vila.Pela grandeza das antigas tumbas será possível investigar seus usos e costumes.
  Por fim,na camada mais próxima à superfície,encontramos,segundo os exames realizados,apenas cadáveres de bêbados,drogados e prostitutas.De modo que nos deteremos em investigar tão somente as épocas passadas,pois esta última descoberta não nos apresenta nenhum interesse.
   Após os esclarecimentos obtidos durante a palestra,as pessoas do lugar voltaram para suas casas dando sequência aos seus hábitos de mexericos,reuniões no boteco e despachos na encruzilhada quando absolutamente necessários.
   Já os pesquisadores continuaram o seu hercúleo trabalho. Levaram o resto de suas vidas estudando os antepassados:alimentação,vestuário,ritos,doenças.Recolhiam potes de cerâmica e colares,véus para cobrir a cabeça durante as missas e dentes de ouro.
   Os encarregados de registrar tudo gastaram anos preenchendo formulários e fazendo arquivos minuciosos das descobertas realizadas.Afinal a memória era algo precioso e a história  não deveria ser perdida a fim de que se pudesse compreender melhor os meandros da alma humana.
  Já o pintor pós-modernista,inspirado naquilo tudo,não teve a menor dúvida ao realizar a sua obra:tascou um borrão preto numa tela em branco.


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