terça-feira, 27 de julho de 2021

Resenha


    Publicado em 2020, o livro de poemas MIDIASERÁVEL de Delalves Costa, editora Patuá,    dialoga ,com o seu livro anterior EXTEMPORÂNEO ( editora Coralina, 2019).  Dá seguimento à proposta poética do autor  levando-a a um novo patamar.. Além disso, ocorre um diálogo com  o Drummond engajado de A Rosa do Povo. Aliás, a imagem da flor e da roseira aparecem constantemente , mas como metáforas de uma beleza conspurcada, devastada, a sangrar ilusão pela raiz,roseira sem jardim   sem cor, pois   morre-se no miolo  neste mundo contemporâneo. 

   E agora José se transforma em E agora Josseu? , uma mistura do José, o homem comum, com Odisseu, agora sem ilha, sem pátria, sem Penélope, sem ter para onde voltar. Segundo o poeta, restou apenas uma vida sem rumo, sem fronteiras, globalizada  sem raízes, sem pátria, no sentido amplo da palavra.. A humanidade, colocada dentro de moldes e molduras, mecanizada, alienada, manipulada pela Mídia, foi reduzida ao automatismo.  Torna-se, assim, quase impossível humanizar-se, desenvolver-se interiormente, pois parto que se aquieta não nasce ,  há um  útero invertido.  Anestesiados pela manipulação midiática, os seres humanos  sofrem uma quebra,tornam-se bagaço na morte semanal, fragmentam-se.  

   Os primeiros poemas do livro possuem versos completamente fragmentados, aparentemente desconexos, exigindo que o leitor  consiga estabelecer as relações partidas entre as palavras. Aliás, a linguagem tanto pode ser um caminho de alienação quanto de resistência. Para o morador de rua, a folha de jornal não é fonte de informação: serve apenas como um cobertor que não protege, mas o exclui ainda mais.v

   Esta é uma época do inconcluso, do inacabamento, odo humano não consegue se afirmar, se construir e se buscar.    

   O que se pode fazer num mundo alienante , desumanizado e cruel?  Encontrar brechas , breves vislumbres de poesia e vida, descobrir o valor da desimportância, das miudezas, daquilo que é considerado insignificante pela maioria. É preciso fazer do inacabado oportunidade de respirar e redescobrir , ao menos em parte, o que foi perdido.  São pétalas ao vento, dispersas e frágeis que podem e precisam ser colhidas e valorizadas.   Numa   realidade que nos esmaga, temos  de buscar possibilidades de ser. A poesia é uma delas.  E o autor não se refere apenas à poesia escrita, mas aos instantes poéticos, fugazes e significativos  capazes de nos despertarem do marasmo, do terrível epistemicídio  que nos impede de conhecermos a nós mesmos e a vida.   

  Há versos de grande beleza ao longo das páginas e certamente um dos poemas mais belos é intitulado  O Tudo e O Nada.: 

Poema é uma coisa que guarda tudo 

contudo não guarda nada. 

Estranho quando nele está o mundo 

e a voz permanece calada. 

Às vezes, a gente que não estaria lá 

de repente é encontrada. 

Pretender guardar é um lapso 

(um lapso só, mais nada). 

A vida escrita é um (apenas) enigma 

enquanto coisa desvendada.                

                                             

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